domingo, 29 de março de 2015

Paul Mazursky

Paul Mazursky raramente foi ligado aos realizadores da "Nova Hollywood", como Martin Scorsese, Francis Coppola, William Friedkin, Steven Spielberg, que surgiram em finais dos anos 60, e início dos anos anos 70. Mas Mazursky era um dos realizadores/argumentistas mais inteligentes deste período, e soube tirar vantagem do mundo do "show business", sobretudo durante este período dos "movie brats", como se chamavam os realizadores desta geração, estabelecendo o seu próprio nicho de comédias dramáticas sobre a vida moderna. Por vezes os filmes de Mazursky eram populares o suficiente para se tornar referências culturais, como foi  o caso da comédia sobre os casamentos abertos "Bob & Carol & Ted & Alice", ou a vida da mulher solteira em "An Unmarried Woman", mas Mazursky também fez alguns filmes mais suaves e malancólicos, como o semi-autobiográfico "Next Stop, Greenwich Village".
Os seus filmes são principalmente focados em culturas em fase de transição, mostrando como pessoas normais tentam manter-se num mundo onde os costumes e os valores evoluem. São filmes frequentemente engraçados, mas o mais importante, documentam o seu tempo, fazendo piadas do progresso e da pretensão ao mesmo tempo, mostrando a compaixão pelo seres humanos, tentando fazer o melhor para se adaptarem sem se perderem. Mazursky nunca se tornou numa estrela, mas deixou para trás uma carreira bastante interessante.
Esta semana vamos ver 5 dos seus filmes mais importantes, todos da fase incial da sua carreira. Espero que gostem.

Segunda: "Bob, Carol, Ted and Alice" (1969)

Terça:  "Blume in Love" (1973)

Quarta: "Harry and Tonto" (1974)

Quinta: "Next Stop, Greenwich Village" (1976)

Sexta: "An Unmarried Woman" (1978)


sábado, 28 de março de 2015

Maciste no Inferno (Maciste all'inferno) 1962



Na Escócia do século 17 uma bruxa é queimada na fogueira, mas antes ainda consegue lançar uma maldição sobre toda a população. Um século depois, as mulheres estão misteriosamente a ser levadas ao suicídio, por ela. Não há problema - Maciste, o clone italiano de Hércules para para resolver o problema. Há uma pergunta que não vale a pena fazerem, porque não vão obter resposta, mas também não tem interesse relevante: o que faz Maciste na Escócia do século 17?
Um dos melhores filmes da série Maciste (nas versões dobradas costuma ter outros nomes, como Hércules, Samsão, Golias, Colossus, mas aqui tem o mesmo nome, apesar da versão postada ser a italiana), e é mais um filme que se passa no submudo do terror, apesar de não ter Mário Bava, e de ficar longe da qualidade de "Hercules in the Haunted World", mas o sobrenatural tem uma presença muito forte durante o filme, com os cenários do submundo a serem impressionantes.
Riccardo Freda, italiano nascido em Alexandria, filho de pais italianos, dirige. Primeiro foi escultor, depois crítico de arte, mudando para a realização nos anos 40, carreira que durou cerca de quatro décadas. Freda era outro especialista no terror gótico, já tínhamos visto por aqui que foi ele que iniciou o movimento do terror gótico italiano, com "I Vampiri". Machiste era interpretado pelo italiano Adriano Bellini, que adoptou o nome de Kirk Morris. Era comum nesta época actores italianos adotarem nomes ingleses, para conseguirem chegar mais facilmente a audiências internacionais. Morris, dado a sua fisionomia, praticamente só interpretou peplums, aparecendo na pele de Machiste por 6 vezes.

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sexta-feira, 27 de março de 2015

Hércules contra o Vampiro (Ercole al centro della Terra) 1961



Depois de regressar da batalha do filme anterior, Hércules descobre que a sua amada, Daianara, perdeu os sentidos. De acordo com oráculo Medeia a única esperança de Daianara é a Pedra do Esquecimento, que se encontra nas profundezas do reino de Hades. Hércules parte com dois companheiros, Theseus e Telemachus, em busca da pedra, sem saber que o responsável pela sua situação é o Rei Lico, que pretende ficar com a namorada de Hércules para ele, depois de a reanimar.
Embora "Black Sunday" tivesse elevado o terror a preto e branco a novos níveis nunca vistos, Mário Bava desviou-se para um novo território no ano seguinte, com este "Hércules in the Hunted World", uma mistura incrivelmente colorida de terror gótico com peplum, que se destaca como uma das melhores entradas, senão mesmo a melhor, neste género que estamos a explorar. Uma mistura elegante de paisagens luminosas, monstros macabros, e reviravoltas excêntricas, onde não falta um grande Christopher Lee no papel de vilão, e o britânico Reg Park no papel principal. Este filme era a sequela directa para "Hércules, o Conquistador", que vimos na passada quarta-feira.
Graças a uma extensa experiência como director de fotografia Bava traz uma enorme sensibilidade para este filme, o seu primeiro colorido, e estabelece as bases para clássicos como "Planet of the Vampires", também realizado por si. Com um orçamento mínimo, e cenários limitados, Bava transforma os seus estúdios em miniatura em redemoinhos de côr e textura, colocando os seus actores contra uma série aparentemente interminável de obstáculos imaginativos. Alguns efeitos expandem a profundidade física e o alcance de muitos shots. Bava não desperdiça uma pequena parte do Widescreen.
Bava dirigiu outro filme histórico no mesmo ano, "Gli Invasori/A Fúria dos Vikings", interpretado por Cameron Mitchell. E o protagonista iria repetir o papel de Hércules mais duas vezes.

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quinta-feira, 26 de março de 2015

O Colosso de Rodes (Il Colosso di Rodi) 1961



Um herói militar grego chamado Darios visita o seu tio em Rhodes, no ano 280 AC. Rhodes acabou de construir um enorme colosso de Apollo, para guardar o seu porto, e está a preparar uma aliança com Phoenicia, que poderá ser hóstil para a Grécia. Darios envolve-se com a bela Diala, filha do idealizador da estátua, e conhece um grupo de rebeldes liderados por Peliocles. Estes rebeldes tentam derrotar o tirânico rei Serse, e o seu comandante que dá pelo nome de Thar.
Depois do enorme sucesso de Dino de Laurentis da versão dobrada em inglês de Hércules (1959), outros grandes estúdios americanos começaram a importar peplums semelhantes, para rivalizar com este grande sucesso internacional. Nenhum chegou sequer perto de destronar esse filme nas bilheteiras, e a maioria tinham pouca qualidade, e destinava-se a plateias pouco exigentes, como estudantes pré adolescentes numa matinée de sábado. Uma das poucas excepções foi este filme, dirigido por um futuro "auteur" do western spaghetti", que se estreava aqui: Sergio Leone. O filme distinguia-se por ser uma produção de valores elevados, filmado no porto espanhol de Laredo, e no golfo da Biscaia, e uma realização muito sólida que combinava humor com momentos de sadismo, acabando por ser um filme muito interessante com um herói pouco convencional, e uma heroína. Ele é apresentado como um playboy machista, ela é uma beleza enigmática que gosta de provocar e enganar os seus admiradores. Ambos revelam a sua verdadeira natureza antes do cataclismo do acto final.
De acordo com relatos históricos existia mesmo um colosso de Rhodes. Era uma das "sete maravilhas do mundo", uma estátua gigantesca de Apollo que marcava a entrada do porto de Rodes entre 280 e 224 AC,  que acabaria por ser destruída por um terramoto. Leone escreveu a história em conjunto com seis outros argumentistas, e contava com o actor americano Rory Calhoun e a italiana Lea Massari nos principais papéis.
Apesar de ser a estreia de Sérgio Leone na realização, este tinha já uma vasta experiência no campo dos épicos de fantasia, já que tinha sido assistente de realização de Mervyn LeRoy em "Quo Vadis" (1951), de Robert Wise em "Helena de Tróia (1956), de William Wyler em "Ben Hur" (1959), e no remake de "Os Últimos dias de Pompeia (1959), com Steve Reeves. Leone contrataria vários elementos da equipa deste último filme, para a sua primeira realização, como o director de fotografia Antonio Ballesteros, o compositor Angelo Francesco Lavagnino, entre outros. Gostou particularmente de apresentar o Colossus como uma versão mais malévola da Estátua da Liberdade, que em vez de dar as boas vindas aos visitantes da sua costa, é bem capaz de lhes atirar um caldeirão de óleo a ferver.
Quando o filme estreou em Itália foi um enorme sucesso de bilheteira, mas não ultrapassou "Hércules" em popularidade. Ainda assim convenceu a MGM a distribuir o filme nos Estados Unidos onde recebeu críticas medianas, tal como os outros peplums da altura. O filme seria redescoberto mais tarde, depois de Sérgio Leone se tornar num realizador de sucesso, com os seus westerns spaghetti.
Existem várias versões do filme, esta tem 123 minutos, e só a consegui arranjar com legendas em inglês.

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quarta-feira, 25 de março de 2015

Hércules, o Conquistador (Ercole Alla Conquista di Atlantide) 1961



Hércules e o seu amigo Androcles partem num navio para salvar a Grécia de uma misteriosa força invasora. Depois de naufragarem Hércules vai parar a uma pequena ilha onde uma bela jovem está a ser mantida prisioneira pelo malvado Proteus, que é salva por Hércules. Acontece que a jovem é filha da raínha de Atlantis, e é para lá que Hércules segue. Mas, acontece que a raínha não fica muito satisfeita por ter a sua filha de volta, e, na verdade, esconde alguns segredos sombrios.
Depois de dois filmes de sucesso com Steve Reeves no papel de Hércules não tardaria muito para que outros o imitassem. Chegamos assim a Reg Park, sem dúvida o segundo actor mais popular a interpretar esta personagem, fazendo a sua estreia neste filme, conhecido também como "Hércules and the Captive Women". Antes de mais, há duas coisas a ter em atenção: apesar do título internacional, existe apenas uma mulher captiva, e não várias, como indica o título. Apesar de muitos considerarem este filme como uma sequela aos de Steve Reeves, na verdade não é. É apenas mais um filme a utilizar a personagem de Hércules, o que voltaria a acontecer muito nos anos seguintes.
Dentro do território do Peplum é um filme bastante acima da média, para o qual contribuíram uns valores de produção consideráveis. Vittorio Cottafavi já tinha realizado cinco entradas neste género, mas seriam precisos muitos anos até ver reconhecido o seu valor. Durante a década de sessenta ainda viu alguns dos seus filmes serem falados, especialmente através de alguns críticos do "Cahiers do Cinema", como Truffaut. Aqui ele contava com a ajuda preciosa de Duccio Tessari, no argumento. Tessari colaboraria no argumento de bastantes "peplums, mas seria, mais tarde, no spaghetti que se destacaria, tanto como realizador como argumentista. O elenco contava com um Gian Maria Volonté, ainda em início de carreira, no papel de rei de Sparta.

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terça-feira, 24 de março de 2015

Hércules (Le Fatiche di Ercole) 1958



Uma jovem mulher fica presa numa carroça quando os cavalos desatam a fugir, mas ela é salva mesmo a tempo pelo imortal Hércules (Steve Reeves), que atira uma árvore para a frente dos cavalos, parando-os. A mulher é Iole, a filha do rei Pélias, que convidou Hércules para visitar a sua cidade, e treinar o seu filho para ser um homem. Mas parece que Iole está preocupada com os acontecimentos que ocorreram anos antes, quando o seu tio, que era o rei na altura, foi brutalmente assassinado, e o seu primo Jason fugiu com o Velo de Ouro. Hércules chega à cidade e começa a treinar o filho de Pélias, mas quando um homem que diz ser Jason chega à cidade, Hércules é enviado com ele numa expedição para encontrar o Velo, e provar quem é realmente Jason.
Muito antes dos géneros de culto do cinema italiano, como o Spaghetti, o Giallo ou o Macaroni Combat, havia o Peplum. O peplum foi revigorado pelos épicos históricos americanos, como "Spartacus", "Os Dez Mandamentos", "Ben Hur", muitos deles filmados em Itália. Sérgio Leone, antes de se estrear na realização, fez parte da equipa de produção de alguns destes filmes. O primeiro filme deste primeiro "género" italiano até foi uma obra modesta, e de baixo orçamento: "Hércules". E esta foi a obra que estabeleceu o género, influenciando cerca de uma centena de filmes. Enquanto que a maioria dos peplum adaptava livremente figuras da história nas suas aventuras, sem referência às suas próprias lendas, "Hércules" é baseado, muito de perto (embora esteja mais perto da versão Romana da lenda) nos contos históricos deste herói. A segunda parte do filme é uma adaptação do conto dos "Argonautas", com Hércules a passar a ter um papel secundário na história. Algumas sequências não funcionam tão bem como deviam (Hércules a lutar com um leão, e depois com um touro), enquanto que o personagem de Jason nunca é suficientemente trabalhado para parecer um herói. O filme desenvolve-se bastante lentamente mas na segunda parte tem algumas sequências interessantes, e um climax adequadamente dramático.
Realizado por um pouco conhecido Pietro Francisci, que também dirigiu a sequela, mas provavelmente o tom e o ambiente do filme são mais facilmente creditados ao director de fotografia Mario Bava, que ficaria mais conhecido no terreno do terror gótico, embora também tenha dado uma perninha neste popular género. As pinturas e a iluminação são claras evidências da influência de Bava.

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segunda-feira, 23 de março de 2015

Peplum

O termo Peplum, por vezes também chamado de Sword and Sandal, é um expressão que vem do latim, e era também o robe utilizado pela personagem de Hércules usava por cima do ombro. É um termo também aplicado a uma série de filmes que surgiram nos anos 50, com homens musculosos, depois do sucesso de Hercules, de 1958. No entanto, tal como a maioria das expressões de culto europeias, tornou-se confuso, e demasiado usado ao longo dos anos.
Vamos classificar como Peplum uma variante do Sword and Sandal, mais especificamente os filmes rodados na Europa, na sua grande maioria em Itália. O "peplum" era um cruzamento dos filmes de homens musculados com os épicos históricos de aventuras, passados em cenários clássicos, que vinham desde o antigo Egipto até perto do ano 700 AC. O Peplum não deve ser confundido com o posterior sub-género "sword and sorcery", do qual faz parte o famoso "Conan, the Barbarian" (1982).
Já desde os primeiros tempos que o cinema italiano se dedicava a fantásticos épicos de aventuras, basta lembrar os clássicos mudos Quo Vadis (1912), The Last Days of Pompeii (1913), ou Cabiria (1914). Este último ficou famoso por introduzir a personagem de Maciste, um herói nos molde de Hércules, interpretado pelo actor Batolomeu Pagano, que nos anos seguintes, em plena era do cinema mudo, interpretaria a mesma personagem mais 25 vezes. Este género acabaria por desaparecer no rescaldo da Primeira Guerra Mundial. A segunda guerra mundial ainda fez mais danos à indústria italiana, mas o género lentamente começava a ressurgir. Em 1950 surgia uma nova versão de "The Last Days of Pompeii, seguido, em 1953, por "Sins of Rome", realizado por Riccardo Freda.
Mas o mais influente filme deste género, acabaria por ser uma obra feita com um orçamento muito pequeno: Fatiche de Ercole (1958). Uma nova versão do conto clássico dos Argonautas, realizado cinco anos antes da famosa versão americana, com o culturista americano Steve Reeves a interpretar a personagem do mesmo nome. Rapidamente se seguiu uma sequela, "Ercole e la regina di Lidia", com Reeves a voltar ao papel anterior. Estes dois filmes foram um sucesso em Itália, e, mais importante, foram um sucesso na América, onde os direitos tinham sido comprados por Joseph E. Levine, que anteriormente já tinha comprado os direitos de Godzilla (1954). Graças a uma promoção agressiva, o filme colocou-se ao lado dos maiores sucessos do ano americanos, e foi implementou o boom do falado cinema de género italiano, que começou aqui.
Nos seis anos seguintes a indústria italiana produziu quase 100 peplums, de todas as formas e feitios, até o género começar a desaparecer, em meados da década de 60, em parte por causa da repetição dos filmes, que já começam a ser cada vez mais idiotas, da diminuição dos orçamentos, e também por causa do aparecimento do spaghetti western, que começava a conquistar as audiências do Peplum. O spaghetti foi mesmo a sentença de morte para o peplum, já que a maioria dos seus mais famosos realizadores mudavam-se de um género para o outro, levando atrás de si toda uma indústria de sucesso. Entre os muitos realizadores italianos que passaram pelo Peplum contam-se Sérgio Leone, Sérgio Corbucci, Mario Bava, Riccardo Freda, entre muitos outros.
Este ciclo não pretende fazer um best of dos peplums, mas sim mostrar uma pequena amostra do que estes filmes eram. Esperemos que gostem do ciclo.

Terça: Le Fatiche di Ercole (1958), de Pietro Francisci

Quarta: Ercole Alla Conquista di Atlantide (1961), Vittorio Cottafavi

Quinta: Colossus of Rhodes (1961), Sérgio Leone

Sexta: Ercole al Centro della Terra (1961), Mário Bava

Sábado: Maciste All'inferno (1962), de Riccardo Freda

Esperemos que gostem do ciclo. Até amanhã.

quinta-feira, 19 de março de 2015

O Destino (Al Massir) 1997



A história passa-se no século 12, na província árabe-espanhola de Andaluzia, onde o famoso filósofo Averroes é nomeado juiz pelo califa e as suas decisões liberais na corte não são aprovadas por todos. Rivais políticos do califa, centrados em torno do líder de uma seita fanática islâmica, forçam o califa a enviar Averroes para o exílio, mas as suas idéias continuam a viver graças aos seus alunos.
Chahine determinou que Averroes faria um magnífico protagonista para um filme épico, filme que faria lembrar a Europa e a América que o mundo islâmico tinha preservado e protegido o conhecimento da civilização grega clássica. Ele também esperava que este filme, "O Destino", também servisse para acordar o povo do Egipto e de outros países, que o Médio Oriente estava a caír como presa à ideologia fundamentalista islâmica, e estavam em perigo de entrar na sua própria Idade das Trevas.
No filme de Chahine muitas forças lutam pelo poder em Córdoba, a capital da Andaluzia. Mansur, o Califa e poder supremo do império, é arrogante e parece ser intocável. Sheik Riad é um homem rico, e poderoso, que pode influenciar o povo com as suas orações. Tem sido amigo do califa, mas agora procura mais poder para si próprio. Os clérigos islâmicos também vinham a ser amigos destes dois, mas uma enorme onda de fundamentalismo intolerante está a percorrer o país. O misterioso Emir construiu um exército de seguidores inquestionáveis, que proferem versos do Alcorão em resposta a todas as questões ou desafios.
Averroes tem o seu próprio núcleo de seguidores, não de crentes mas de alunos que leem os seus livros sobre Aristóteles e questões filosóficas. Um é um jovem cristão, cujo pai foi queimado na fogueira em Languedoc por ler e discutir os ensinamentos de Averroes. O filho Joseph (Youssef) viaja para Córdoba para continuar a tradição de estudar com o filósofo árabe.
Chahine sentiu uma enorme necessidade em fazer este filme, para garantir que fosse visto por jovens egípcios, pelo menos. Ele sabia que o ambiente no país estava a escurecer. Naguib Mahfouz, um amigo seu que tinha ganho o prémio Nobel da Literatura em 1988, tinha sido esfaqueado no pescoço por um fanático em 1994. Nesse mesmo ano Chahine teve de defender em tribunal o seu filme, "O Emigrante", vagamente baseado em histórias do profeta Joseph. Um grupo extremista islâmico convenceu os tribunais de que o filme era blasfémia, por representar um profeta através de um actor. Apesar de ter defendido o filme, ele acabou por ser proibido no Egipto e em outros países do Médio Oriente. Com ataques destes, tanto físicos como legais, Chahine sentiu que o Egipto onde ele tinha crescido estava em vias de se tornar uma terra perigosa para mentes mais criativas. E certamente que Chahine foi a pessoa certa para fazer soar este aviso.
"O Destino" foi até Cannes, e além de ter sido nomeado para a Palma de Ouro, o realizador ganhou um Lifetime Achievement Award. Talvez por causa deste prémio, ou também por causa deste prémio, Chahine começou a ser atacado por grupos islâmicos. A indústria cinematográfica egípcia ficou com medo, e começou a produzir menos filmes. No entanto Chahine continuou a atacar a ganância das pessoas poderosas da indústria, o globalismo e o terrorismo islâmico, em mais alguns filmes. Chahine faleceu em 2008, com 82 anos. A sua arte humanista finalmente se tornou mais conhecida, e os ocidentais ficaram a conhecer o homem que não tinha medo de transformar as suas crenças em filmes poderosos.

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quarta-feira, 18 de março de 2015

Alexandria... Why? (Iskanderija... lih?) 1979

Yehia é um jovem egípcio cristão, em fase de crescimento para a maturidade durante a Segunda Guerra Mundial, ele vive deslumbrado por filmes americanos e estrelas de cinema, e até por Leo, o leão cujo rugido anuncia cada filme da MGM. Sonha um dia ir para Hollywood, e tornar-se um realizador, argumentista ou actor famoso. Porque, pergunta a si mesmo, nasceu ele em Alexandria? Mas, depois de se apaixonar e descobrir as mentiras da ocupação europeia, Yehia reavalia profundamente a sua identidade e lealdade ao ocidente.
Youssef Chahine já tinha 25 anos de carreira quando este filme foi lançado. Habilmente estruturado, com a introdução de várias personagens e tramas paralelas, sem perder o controle de qualquer uma delas. Em primeiro lugar é um filme sobre pessoas, mas também incorpora patriotas e políticos na sua história. Apesar da invasão Nazi pendente que domina politicamente, é um filme fundamentalmente optimista e alegre - qualquer pessoa com uma tendência criativa irá logo identificar-se com os sonhos e o desespero de Yehia.
Feito no Egipto, presumivelmente com um orçamento limitado, refletido nas limitações técnicas comuns a muitos outros filmes daquele país. Os cenários típicos daquele período não estão muito visíveis, provavelmente por causa das limitações do orçamento, mas filmagens dos musicais da MGM, e bobines da Segunda Guerra Mundial, com referências à cultura pop da altura, rapidamente nos situa no tempo. Chahine também emprega algumas técnicas inovadoras, embora a tecnologia seja datada (a câmara em movimento é por vezes instável). Mas o forte elenco e a equipa técnica de Chahine superam estes problemas com distinção, por vezes por pura força de vontade.
O filme inclui um caso de amor entre um árabe e uma judia, o que parecia muito avant-garde para a população da cidade do Cairo da altura, o que obrigava à menina judia a dissociar-se de Israel e do Zionismo. Num jeito de tentar explicar os problemas que Israel trazia para o mundo, alguém diz: "Todo o Judeu agora pertence a um país diferente do de seu nascimento". Mesmo os refugiados dos campos de concentração. 
Seria o primeiro filme de uma trilogia de Chahine, chamada "Trilogia do Cairo". Nunca estreou em Portugal nem no Brasil.
Legendado em inglês.
  
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terça-feira, 17 de março de 2015

The Sparrow (Al-Asfour) 1972

Junho, 1967, véspera da guerra dos seis dias. "The Sparrow" segue um jovem polícia, estacionado numa pequena localidade do Alto Egipto, cujos habitantes sofrem o assédio de um empresário corrupto. O jovem polícia cruza caminho com um jornalista que está a investigar o que parece ser um escândalo envolvendo o roubo de armas e equipamentos bélicos por altos funcionários.
Um dos seus filmes mais controversos, "The Sparrow" foi escrito por Youssef Chahine em colaboração com o vanguardista Lofti el-Kholi. Passada durante a guerra dos seis dias, entre Israel e a Répública Árabe Unida, esta história de divisões nacionais tornou-se um dos filmes mais populares de Chahine, em festivais e retrospectivas. Primeiro foi banido, em Maio de 1973, em Dezembro do mesmo ano recebeu a mais alta condecoração do país. No entanto, o mais importante, foi a partida do cinema mais convencional e mainstream do seu tempo, desenvolvendo o seu próprio estilo individual, tornando-se um pioneiro nesta matéria. Em vez de usar em argumento linear começou a desenvolver um gosto por formas fragmentadas, narrativas descontínuas, e colagens de materiais tão díspares como flashbacks, eventos reais, e sequências documentais. O resultado final destas mudanças, foi o inicio de uma nova fase nos seus filmes, dedicado à experimentação e inovação. 
Legendas em inglês.

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segunda-feira, 16 de março de 2015

The Land (Al Ard) 1969

Numa aldeia egípcia dos anos 30 os camponeses são informados pelo governo que podem irrigar as suas plantações por apenas 5 dias, em vez dos 10 habituais. Tentam apelar ao primeiro ministro mas o homem que escolhem como seu representante é um fantoche nas mãos do poderoso Mahmoud Bey. Este tem o líder da aldeia no bolso, e a mudança na programação da irrigação faz apenas parte de um esquema para roubar as terras dos camponeses e construir uma estrada para o palácio. Os camponeses lutam para satisfazer as suas necessidades mais básicas, contra o governo corrupto, contra a selvajaria da polícia, e lutam entre si...
Chahine adapta um famoso romance de Sharqawi intitulado "The Land", num filme que nos trás uma sensação épica, apesar de ter pouco mais de duas horas de duração. Repleto de personagens importantes, é um pouco dificil seguir apenas uma, porque há um monte de gente a acompanhar. Abu Swelem (Mahmoud El-Meliguy) é quem se adiante como líder. A sua bela filha Wasifa (Nagwa Ibrahim) quer partir para a grande cidade do Cairo, para lutar ao lado dos homens. Um dos seus principais pretendentes é Abd El-Hadi (Ezzat El Alaili), um homem feroz com princípios guerreiros. Outro pretendente é Mohammad Effendi (Hamdy Ahmed), um homem educado mas fraco. Há pelo menos mais meia dúzia de personagens importantes, que têm participação activa nos eventos que se desdobram, incluindo um jovem que começa por parecer uma figura chave no filme, mas que lentamente vai desaparecendo da tela. Para aumentar a confusão há dois Sheiks diferentes, um que parece ser pacífico mas numa última análise corruptível, e outro que é um bastardo desde o início.
O espírito de revolução contra as forças corruptoras recorda outros filmes fulcrais da década de sessenta, como "Salvatore Giuliano" ou "O Exército das Sombras", ou ainda qualquer clássico de propaganda soviética. Quem faz o trabalho sujo com as suas próprias mãos na terra, são mostrados como sendo os mais puros de espírito. Mas, embora haja um pouco de didática no filme, as caracterizações das personagens não são inteiramente preto e branco, e o poder do povo nem sempre é suficiente.
A fotografia também é muito forte, com grande parte dos movimentos de câmera usados em "Cairo Station". Não tem o tom "noir" desse filme, mas em vez disso utiliza cores garridas para criar imagens impressionantes. Concorreu para a Palma de Ouro de 1970.

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domingo, 15 de março de 2015

Cairo Station (Bab el Hadid) 1958



"Cairo Station" passa-se numa estação de comboios, no curso de um único dia. A câmera apresenta-nos os três personagens principais: Qinawi (Youssef Chahine), que é o pobre e pervertido vendedor de jornais, Hanuma (Hind Rostom), a bela mulher constantemente perseguida pela segurança por vender bebidas de forma ilegal, e Abu Serib (Faris Shawqi) que pretende casar-se com Hanuma. Qinawi passa os dias a fantasiar sobre as mulheres. Pin ups de modelos compõem as paredes do seu pequeno quarto sujo, onde ele passa o tempo olhando para as fotos com os seus penetrantes olhos negros. Enquanto no trabalho não se aplica muito, lá vai continuando o seu hábito em relação ás mulheres. Como um predador sexual, mulheres e sexo é tudo o que lhe interessa. É um indivíduo doente e perturbado que raramente pronuncia uma palavra. Toda a gente conhece Qinawi, mas ninguém sabe da sua doença, a não ser a plateia. Não demora para que Hanuma comece a chamar a atenção de Qinawi, que começa a ficar obcecado por ela, mas ela já é comprometida...
O personagem principal é um pervertido, com tanto de desagradável como de perturbador. E depressa o argumento nos leva outros lugares, como um crime, violência e caos. O desempenho assombroso de Chahine no papel de Qinawi é tão poderoso como a sua realização tem de inovadora. É ele quem está no controle total do filme atrás e à frente das câmeras, levando-nos à mente de um homem sexualmente reprimido caminhando para a insanidade. Os sujos e feios exteriores contribuem para o realismo obscuro do filme.
O neo-realismo italiano influenciou o grande realizador egípcio que se atreveu a forçar o público a lidar com a realidade. Antes de "Cairo Station" os filmes egípcios tinham todos muito bom aspecto, simplesmente para entreter. O cinema era um escape para o dia a dia do homem comum, até que o público ficou chocado com este filme. Aparecia um jovem realizador a julgar uma cultura inteira com uma obra que quebrava todas as regras do cinema egípcio. A censura proibiu o filme a pedido do público. Os críticos elogiaram-no como uma obra-prima, mas o público desprezava-o.
Conta-se que depois do filme ter sido exibido, um homem aproximou-se de Chahine, cuspindo-lhe na cara, e disse: "Tu deste ao Egito uma imagem desoladora." Depois de 20 anos sob uma estrita proibição, os egípcios redescobriram-no. Foi exibido em festivais de cinema por todo o mundo e, desde o renascimento como "Cairo Station", em 1978, os egípcios reconheceram-no como o trabalho de um mestre. A reputação do filme foi crescendo e agora é considerado o "Citizen Kane" do cinema egípcio.
 Legendado em inglês.

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