sexta-feira, 29 de abril de 2016

O Vale do Arco-Íris (Finian's Rainbow) 1968

Um irlandês chamado Finian (Fred Astaire), e a sua filha Sharon (Petula Clark) chegam ao estado americano de “Miltucky” com um pote cheio de ouro, que Finian roubou de leprechaun (Tommy Steele), com a intenção de o enterrar no chão e acelerar o seu crescimento. Enquanto isso, um sonhador (Don Francks) colabora com um botânico (Al Freeman, Jr.) para criar tabaco mentolado, e um senador ganancioso (Keenan Wynn) tenta comprar o terreno onde Finian enterrara o seu pote de ouro.
Em 1968, Coppola dirige esta adaptação de um popular musical da Broadway (produzido pela primeira vez em 1947 e revivido em 2009), com uma mistura invulgar de fantasia e justiça social, que incluía intolerância racial, pobreza e corrupção política. Na verdade, esses tópicos "quentes" impediram o musical de ser transformado num filme durante muitos anos, até que o clima social dos anos sessenta finalmente permitiu que tais preocupações fossem satirizadas. O resultado final é um musical esporadicamente divertido, mas em última análise desigual, tentando incorporar muitos fios narrativos sem nunca se conseguir concentrar no seu foco.
Nas interpretações, o destaque vai para Fred Astaire, com 69 anos, participa aqui num dos seus últimos musicais. O restante elenco reúne alguns actores conhecidos,  embora grande parte das interpretações não sejam bem conseguidas. Coppola, então com 29 anos, transformava-se num dos mais novos realizadores a trabalhar no "studio system", e conseguia um orçamento minúsculo para produzir o filme, pela Warner Bros, que tentava aproveitar o ressurgimento dos musicais, depois de obras como "My Fair Lady" (1964) e "The Sound of Music" (1965). Trabalhar debaixo das mãos de um estúdio grande foi um desastre para Coppola, tendo filme sido considerado um flop a nível crítico. Mesmo assim o filme conseguiu duas nomeações para os Óscares, nas categorias técnicas.

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quinta-feira, 28 de abril de 2016

A Noite É Perversa (You're a Big Boy Now) 1966

O pai de Bernard Chanticleer deu-lhe um conselho muito simples: "Cresce". Bernard sabe que o primeiro passo a dar é encontrar uma rapariga que valha a pena, mas ele trocou uma rapariga "certa", Amy Partlett, por um objectivo mais evasivo. Ela é Barbara Darling (Elizabeth Hartman), uma dançarina. Há vários obstáculos que o mantêm longe do seu mundo de sonho: a mãe (que continua a pensar que ele ainda não é crescido), um playboy malicioso que ataca todas as mulheres bonitas, e a própria Barbara, que parece odiar todos os homens.
O enredo básico de "You’re a Big Boy Now" pode parecer mais um filme vulgar sobre a entrada na idade adulta, sobre um jovem inocente a aprender sobre a vida e o amor na cidade de Nova Iorque, mas Coppola transforma a história numa "screwball comedy" contemporânea, com toques de romance e de uma audaciosa pirotecnia visual. Isto inclui o longo plano de abertura filmado na sala de leitura da Biblioteca Pública de Nova Iorque, uma perseguição louca por entre lojas, ou uma sequência nocturna à volta da decadente "42nd Street".
O projecto foi primeiramente sugerido a Coppola pelo actor Tonny Bill, grande fã do livro original escrito por David Benedictus. Coppola comprou os direitos e começou a escrever uma adaptação cinematográfica, enquanto estava em filmagens na Europa para a Seven Arts, colaborando com Gore Vidal e vários outros escritores no argumento do grande épico de guerra "Is Paris Burning?". Phil Feldman, um ex-agente de negócios da Seven Arts, agora a trabalhar para a Warner, reconheceu talento em Coppola, e negociou um acordo com o jovem cineasta para o seu segundo filme.
E assim nascia o filme, lançado cerca de um ano antes de "A Primeira Noite" (The Graduate), de Mike Nichols, aborda uma temática muito parecida com a deste filme, levando os dois a serem sucessivamente comparados ao longo do tempo. Claro que o filme de Lumet é bastante melhor, acabando por ser considerado o filme mais simbólico sobre este tema. Mas o de Coppola também merece ser visto.
Legendas em espanhol, mas é um espanhol bastante acessível.

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quarta-feira, 27 de abril de 2016

Demência 13 (Dementia 13) 1963

Quando o seu marido John tem um ataque de coração enquanto navegava num pequeno bote, Louise Haloran atira o seu corpo borda fora, e mais tarde diz à família que ele partiu numa viagem de negócios urgente. A sua maior preocupação é que ela só pode herdar uma parte da grande fortuna da família se o marido estiver vivo. Os Halorans são uma estranha família, ainda de luto pela morte da filha mais nova Kathleen, que morreu afogada numa lagoa enquanto ainda era criança. A família vai reunir-se, como faz todos os anos, mas desta vez anda um assassino à solta.
Coppola foi um dos muitos realizadores graduados na universidade de Roger Corman, fazendo parte de uma lista com nomes tão consagrados como John Sayles, Ron Howard, Jonathan Demme, Peter Bogdanovich, ou Jack Hill. Corman propôs "Dementia 13" a Coppola quando terminava outro filme realizado na irlanda: "The Young Racers", no qual Coppola era técnico de som. Corman tinha aproximadamente 22 mil dólares que tinham sobrado do filme anterior, e ofereceu-os a Coppola para fazer um filme que homenageasse "Psycho" de Alfred Hitchcock, lançado três anos antes.
As exigências de Corman eram as do costume, as mesmas que ele fazia a qualquer outro seu protegido. Coppola teve de ficar com parte dos actores, e da equipa de produção de "The Young Racers" (alguns deles eram seus colegas de curso): o filme teve de ser filmado em 3 dias, e de acordo com a agenda apertada de Corman, e teve de incluir um cenário gótico (um castelo), e violência extrema. Para economizar ainda mais dinheiro, Coppola teve de filmar de noite, e a preto e branco.
Durante a pós-produção Coppola e Corman discordaram fortemente: Corman queria mais violência e mais voiceovers, e também queria que o filme fosse mais longo. Para isso chamou Monte Hellman para filmar um prólogo que só saíu na versão para cinema. A acompanhar a versão cinematográfica, uns truques seguindo o espírito de William Castle. Um psicanalista, antes das sessões, fazia um teste chamado "D-13”, para averiguar se as pessoas estavam aptas psicologicamente pata ver o filme, ou não.
O "mood" do filme é perturbador, com um ambiente sinistro e gótico e uma narrativa densa. Mas em termos de qualidade é o melhor que se podia fazer perante tantos contratempos e obrigações. Normalmente é catalogado como a primeira longa-metragem de Coppola, apesar dele ter uns pequenos filmes escolares realizados antes.

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segunda-feira, 25 de abril de 2016

O Terror (The Terror) 1963

Um jovem tenente francês (Jack Nicholson) perde-se do seu regimento e vai parar a uma praia aparentemente deserta. Logo vê a imagem de uma bela jovem, que o ajuda a encontrar água bebível – é certo que ela o livrou de um problema, mas está para lhe criar uma série de outros, numa trama envolvendo um estranho assassinato passional, que teria sido cometido pelo Barão Von Leppe (Karloff), um velho sinistro que vive soturnamente no seu castelo, alvo de estranhas feitiçarias. Encantado com a mulher e intrigado com os mistérios do local, o jovem tenente vai tentar desvendar o mistério.
"The Terror" foi realizado em apenas três dias. Roger Corman tinha apenas três dias para o cenário do filme que tinha acabado de fazer, "The Raven", ser retirado, e também mais três dias de contracto com Boris Karloff, uma estrela. Falou com alguns elementos da produção de "The Raven" para fazerem um trabalho rápido, e convidou o actor Leon Gordon para escrever um argumento que girasse em volta dos cenários do castelo, com as cenas exteriores a serem rodadas mais tarde. Corman também convidou alguns dos seus protegidos para realizarem algumas sequências, que acabaram por dar ao filme um ar confuso. Entre as pessoas que deram uma mãozinha encontravam-se Francis Ford Coppola, Jack Hill, Monte Hellman, ou Jack Nicholson, que também era protagonista. Dado os nomes que participaram na produção, todos eles viriam a alcançar sucesso no futuro, esta obra tornou-se num filme de culto.
Jack Nicholson estava em inicio de carreira, e este seria o seu primeiro papel de protagonista. Para contracenar com ele chamou Sandra Knight, a sua esposa da altura, também ela ligada a Roger Corman. Uma nota também para outro actor em início de carreira e ligado a Roger Corman: Dick Miller.

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domingo, 24 de abril de 2016

Coppola - O Inicio



Basta referir títulos como "Apocalypse Now", "Do Fundo do Coração", "Cotton Club", "Jardins de Pedra", ou "Tucker" para aquilatar a importância deste cineasta no contexto da produção cinematográfica mundial. E nem sequer vale a pena apelar à majestosa saga da família Corleone apresentada na série "O Padrinho" para sublinhar o génio, a desmesura do seu cinema.
Por agora vamos esquecer estes "clássicos" do cinema mundial, e vamos nos concentrar no inicio da carreira do realizador. Coppola nasceu no ano de 1939, e começou no cinema fabricando "nudies" (soft cores à moda do início da década de sessenta) transitando depois para a "universidade de Corman", onde aprendeu a trabalhar com orçamentos reduzidos. Para Roger Corman desempenhou diversas funções (operador de som, montagem, realizador de segunda equipa) até dar provas de estar à altura para realizar um filme. Primeiro realizou algumas cenas para "The Terror", um filme creditado a Roger Corman, mas que contava com a ajuda dos "alunos" Coppola, Monte Hellman, Jack Hill, e o próprio Jack Nicholson. Com as sobras de "Young Racers" (também de Corman) partiu para a Irlanda onde dirigiu "Dementia 13".
Desligou-se depois de Corman e partiu para a Warner, onde realizou "You're a Big Boy Now", uma obra já com um orçamento maior e um elenco bastante interessante. O seu primeiro filme de grande orçamento chegou depois na forma de um musical, o último de Fred Astaire, "O Vale do Arco-Irís", mas foi um flop:"Finian's Rainbow". Seguiu-se um pequeno road movie, "The Rain People", ainda antes do final da década de sessenta, enquanto começava a trabalhar na idéia dos estúdios Zoetrope, na comunidade criativa que "iria mudar os destinos do cinema americano".
A carreira de Coppola é mais conhecida a partir de 1972, o ano em que saíu o primeiro filme da saga "O Padrinho", mas durante esta semana vamos até ao fundo do baú, para conhecer as primeiras obras deste excelente realizador.

- "The Terror" (1963)

- "Dementia 13" (1963)

- "You're a Big Boy Now" (1966)

- "Finian's Rainbow" (1968)

- "The Rain People" (1969)

Boa semana!

Living (Zhit) 2012

O filme traz três histórias distintas mas que se encontram em um só sentimento: o de perda. Uma mãe que juntar-se às suas duas filhas gémeas. Um jovem casal casa-se na igreja, mas logo após a cerimónia, Deus - ou talvez o Diabo, ou o Destino, testa o seu amor na forma mais brutal. Um jovem quer ver o seu pai distante, apesar dos protestos da mãe. Cada uma destas personagens vive o seu próprio calvário.
"Zhit" é o segundo filme do realizador Vasily Sigarev, de quem já tínhamos visto "Wolfy" neste ciclo, um filme de estreia bastante aclamado. Esta segunda obra trás uma visão existencial e profundamente filosófica sobre os danos psicológicos que as várias manifestações sobre a morte pode ter sobre a mente. "Zhit" (Vida), é uma perspectiva fascinante e única sobre o processo do luto.
As personagens das diferentes histórias nunca se cruzam, mas estão todas ligadas pela dura realidade da mortalidade, com cada uma a experienciar o trauma da morte, e a lidar com as suas implicações assombrosas de formas notavelmente diferentes. Sigarev centra-se sobre a mortalidade sem qualquer sentimento artificial, em vez de abordar o assunto com honestidade. Imagens poderosas, e uma grande banda sonora estão alinhadas para mostrar o sofrimento destas almas traumatizadas.
Foi exibido em vários festivais europeus com algum sucesso, e Sigarev, actualmente com 39 anos, é uma das boas promessas do cinema Russo.

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sexta-feira, 22 de abril de 2016

Elena (Elena) 2011

Há pouco menos de uma década que Andrei Zvyagintsev espantou toda a gente com Vozvrashchenie (O Regresso, 2003). O filme, sobre filhos que não estavam habituados a ser filhos e um pai que não estava habituado a ser pai, venceu o Leão de Ouro em Veneza, servindo para considerar instantaneamente o seu autor como uma espécie de filho pródigo do novo cinema russo. Com um absoluto controlo formal – a música original de Andrei Dergachyov entrava a pique a “moer-nos” o juízo e as entranhas – mas sobretudo pela construção de uma atmosfera toda ela de granito, que o mais russo dos escritores russos se poderia orgulhar, Zvyagintsev contava essa fatalidade de dois jovens a entrar na adolescência que tiveram de crescer às custas da morte do pai.
Em Elena (Elena, 2011), que entretanto também já fez os seus estragos e ganhou Un Certain Regard prémio do júri em Cannes, as crianças também ainda não cresceram. O mais novo porque é um bebé, limitando-se, no mais belo plano de filme (o picado sobre a cama, perto do final; logo verão, é fácil dar com ele) a mudar de espaço; e sobre o mais velho, já adolescente, Sasha, paira a ameaça de um futuro nada risonho entre a indigência nas ruas que o levará certamente à prisão e essa ameaça ainda maior que é a chamada ao exército. Mas o mais curioso é que se em O Regresso os filhos não crescem pela ausência do pai, aqui não o fazem pela sua presença. Isto é claro na forma como a câmara de Zvyagintsev se situa no atravancado pequeno apartamento, sem “linha de fuga”, onde estes vivem e na forma como apanha a presença opressora do pai de Sasha, desempregado, sempre lá, sentado no sofá, a abrir o frigorífico ou a comer batatas fritas até à eternidade.
Se temos vindo a falar do desemprego, da guerra, do futuro, este funciona como uma espécie de substrato omnipresente do filme de Zvyagintsev que começou por ser uma proposta de um produtor inglês para trabalhar sobre o tema do Apocalipse. O caminho ínvio que tomou posteriormente fez com que abandonasse a língua inglesa, e com ela o seu produtor, e fizesse o filme com dinheiros russos e aproveitando uma situação da vida do seu argumentista. E eis que chegamos finalmente à protagonista que dá nome ao filme, avó de Sasha, enfermeira reformada, viúva que casou novamente com Vladimir um homem bem mais rico. Cada um vive instalado num ritmo quotidiano metálico, do abrir e fechar dos cortinados, do dormir em quartos separados, do barulho de fundo das televisões, que só a idade permite compreender e que a montagem sonora ajuda a marcar. A gravitas contida de Elena (Nadezhda Markina), a fazer lembrar um pouco Imelda Staunton em Vera Drake (2004) ou a Alexandra de Sokurov (2007), transforma a relação com Vladimir numa espécie de duelo em surdina: ela a querer assegurar o futuro do neto através do dinheiro do marido e ele a defender a sua filha distante, mimada e irónica de nome. E Zvyagintsev prolonga esse duelo: entre os interiores silenciosos e marcados pelos sons dos ecrãs e os afazeres das personagens e os exteriores, onde a câmara, e a música de Philip Glass permitem entender essa vida de cada um deles a sós como um recarregar baterias para o próximo confronto amoroso mas também social. É que em último caso o que está frente a frente são duas concepções de vida: uma onde “the last should be the first”, como diz Elena, dos pobres que tudo podem fazer para sobreviver; e outra, de Vladimir e da filha Katerina, uma visão maquinal, calculista, que se perpetua indiferente nos seus maus genes e posses materiais.
Deste confronto que acaba por ter um desfecho “territorial” claro, sabemos quem leva a melhor. Assim como o sabem os corvos que abrem e fecham o filme. Este bird’s eye metafórico é o local a partir de onde o cineasta russo expõe a dimensão do conflito social da Rússia contemporânea. A partir deste ponto de vista qualquer triunfo soará a improdutivo, as classes jovens (os filhos e os netos) parecem incapazes de sair moralmente de onde estão e a vida parece ser um castigo suficientemente claro. É nesse atoleiro que o cinema reina sem pudor.
Texto de Carlos Natálio, daqui.

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quinta-feira, 21 de abril de 2016

How I Ended this Summer (Kak ya Provel Etim Letom) 2010

Uma estação polar numa ilha deserta, no Oceano Ártico. Sergei, um meteorologista experiente, e Pavel, um recém-formado, passam meses em completo isolamento na base de pesquisa. Pavel recebe uma mensagem importante pela rádio, e tenta encontrar o momento certo para dizer a Sergei, quando o medo, as mentiras e suspeitas começam a envenenar a atmosfera...
A incapacidade de Pavel para transmitir a má notícia parece, ao mesmo tempo, desconcertante e completamente compreensível. Vivendo o momento, ouvindo o sujo rock russo com headphones, jogando jogos de vídeo, Pavel é claramente originário de um mundo onde se pode fugir dos problemas até que eles rebentem, e não se dá conta de onde está e o que isso significa. A paisagem, os ursos polares, a temperatura são uma ameaça maior do que Sergei, que parece adaptado ao território em que se encontram, e parece estar perfeitamente ajustado aos padrões da ilha. A ilha é, definitivamente, o terceiro personagem neste drama. Aleksey Popogrebskiy, de "Koktebel", usou todas as possibilidades de câmeras digitais para filmar takes longos de mudanças atmosféricas e da luz em tempo real, capturando um lugar inóspito e misterioso, de bancos sólidos de nevoeiro, mares congelados, e, por todo o lado, restos de tentativas de habitações humanas. 
"How i Ended this Summer" tem todos os ingredientes de um thriller convencional de "gato e o rato", mas pode decepcionar quem espere este tipo de filme, porque é uma pela mais surpreendente e mais subtil do que isso. É um filme sobre personagens, onde o diálogo foi espremido até ao osso, onde a linguagem corporal e os gestos falam por si, e o relacionamento turbulento de desconfiança se torna verdadeiro. É um filme sobre o temperamento, o tempo e território, gravado em condições árduas numa paisagem desolada e de tirar o fôlego.
Filme premiado em vários festivais, no Festival de Berlin de 2010 levou o prémio de melhor actor, conquistado pelos dois actores principais, em conjunto.

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terça-feira, 19 de abril de 2016

Almas Silenciosas (Ovsyanki) 2010

Quando a sua mulher morre, Miron pede ao seu melhor amigo Aist que o ajude a despedir-se dela de acordo com os rituais da cultura Merja, uma antiga tribo do centro-oeste russo. Os dois homens partem numa viagem pelas terras sem fim, levando com eles dois pequenos pássaros numa gaiola.
"A Ovsyanki atribua-se-lhe toda a melancolia do mundo, mais que qualquer dor de perda o que reina ali é a melancolia aliada à frieza própria dos russos. Mitos e ritos a misturarem-se com o presente e com as memórias do passado, saudade e lamentos dos que foram e um estado inexorável de melancolia que atravessa o filme inteiro naquela viagem ambígua em direcção ao ritual de incineração do cadáver. Mas a frieza que existe, coisa que sempre me pareceu inerente aos russos (e aos nórdicos), talvez pela neve que quase sempre está lá e que os molda, aqui é qualquer coisa também ambígua. Porque Ovsyanki não é um filme frio por mais neve que tenha, por mais metódicos que aquele homem que acabou de perder a mulher e o narrador que o acompanha (a voz-off é dele) sejam nas suas acções. Não, Ovsyanki é um filme cinzento (e não há melhor cor para a melancolia), singelo, lírico, repleto de movimentos de câmara estrondosos a fazer lembrar Tarr, enquadramentos e planos-sequência monumentais, alguns momentos na procura dos olhares e das expressões na impressão da dor, uma fotografia lindíssima, contemplativo muito contemplativo, naturalista, sempre no caminho de Tarkovsky e Dreyer. No final percebemos que é uma fábula, que é acima de qualquer coisa um filme sobre o amor ou sobre a resistência do amor à morte. Melodrama e romantismo sem lamechices, sem choradeiras e as merdas do costume. Um filme belo."
Texto do Álvaro Martins, daqui

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domingo, 17 de abril de 2016

Tale in the Darkness (Skazka pro Temnotu) 2009

Angelina vive numa grande cidade na costa, onde homens e mulheres bonitas caminham pelas ruas com um único propósito: divertir-se. Mas Angelina, sendo uma mulher bonita, inteligente e agradável, sente-se uma mulher solitária. Ela é polícia, e o seu trabalho é ajudar crianças abandonadas, órfãos e jovens problemáticos. Um dia um desses jovens explica a Angelina o quanto solitária, aborrecida e inútil ela é, palavras que a deixam incomodada  e a fazem mudar. Começa aqui a sua grande travessia ao reino da escuridão.
Segundo filme de Nikolai Khomeriki, depois da sua primeira obra, chamada "977", ter sido mostrada no Festival de Cannes, na secção "Certain Regard". Graduado na Universidade Estatal de Moscovo, Khomeriki estudou depois na "La Femis", em França, tendo depois trabalhado como assistente de Philippe Garrel, em "Les Amants Réguliers", e Leos Carax em "Scars". Talvez tenha sido esta ligação a França que o tenha levado, de novo, a ser selecionado para a secção "Certain Regard", com o seu segundo filme.
"Tale in the Darkness" inova tanto no campo teórico como visualmente. Não é todos os dias que podemos conhecer o dia a dia de uma mulher policia russa, e raros são os filmes passados na cidade isolada de Vladivostok. Nikolai Khomeriki chama-se a si próprio de neformatnye (inconsistente com o formato de género tradicional), e este filme é um bom exemplo disso. Como o próprio título sugere, baseia-se em elementos e características de contos de fadas, ainda que na forma desolada e pós-soviética. O segundo filme de Khomeriki era uma resposta optimista à tradição de chernukha, com a qual é muitas vezes comparado. Apesar da desolação visual do filme, a acção gira em torno dos eixos do amor, esperança e linguagem. Estes elementos aparecem em forma distorcida ou disfarçada, contudo, complicando uma busca de outra forma simples, do amor e da família.
A escolha dos exteriores criam uma impressão paradoxal de aprisionamento, revelando muito sobre a interioridade de Angelina. Vladivostok ocupa um limite geográfico e imaginário: delimitado por um mar que é, ao mesmo tempo, porta de entrada da Rússia para o Pacífico, e a margem que o habitantes não podem alcançar. A fotografia de Alisher Khamidkhodzhaev captura esse limiar.
Legendado em Inglês.

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Wolfy (Volchok) 2009

Elas são duas: uma mãe e uma filha. Não têm nomes, e andam em constante fuga. A mãe tenta fugir da filha, numa tentativa de começar uma nova vida. A filha corre atrás da mãe porque não sabe viver sem ela. Uma corrida sem fim, que está cheia de erros repetidos. "Volchok" é o primeiro brinquedo na vida da filha, e o único laço que a amarra à mãe. Mas um dia esta corrida tem um fim.
Uma representação realista de uma história implacavelmente deprimente, abençoada com grandes interpretações e um excelente argumento. Pode ser um duro soco na cara do espectador, mas uma reflexão irá revelar que o filme está visualmente muito bem orquestrado. Um mundo muito duro é visto pelos olhos de uma criança de sete anos de idade. Pode ser a Rússia, pode ser outro lugar, mas a história pode levar alguns pais a reconsiderarem a sua relação com os seus filhos.   
Feito com um equilíbrio agradável de garra e intensidade, "Volchok" foi uma estreia impressionante, não apenas para o realizador/argumentista Vasiliy Sigarev (uma estrela em ascensão no cinema russo), mas também para a protagonista Yana Troyanova, no papel da psicologicamente abusiva mãe. Antes de se dedicar ao cinema Sigarev tinha estudado teatro, e em 2002 a sua peça "Plasticine" tinha ganho o Evening Standard Most Promising Playwright Award, no Reino Unido. O realizador e a protagonista são casados na vida real, e têm um filho.

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sábado, 16 de abril de 2016

Everybody Dies But Me (Vse Umrut a ya Ostanus) 2008

A vida nunca é fácil. Principalmente quando se tem 14 anos. Alguns adolescentes têm de lidar com a turbulência interna e a ansiedade própria da idade, mas outros têm de enfrentar a crueldade insuportável dos seus arredores. Numa segunda feira, Katya (Polina Filonenko), Vika (Olga Shuvalova) e Zhanna (Agniya Kuznetsova), três estudantes normais da zona suburbana de Moscovo, descobrem que vai haver uma discoteca na escola no Sábado à noite, e começam a preparar-se para o evento mais importante das suas vidas. Mas Katya ofende um professor, e a festa poderá ser cancelada. Durante toda a semana as jovens rebelam-se, e tentam encontrar um território comum com os seus professores, pais, colegas de classe, e, finalmente, entre si. Até que na noite esperada, as coisas saem para fora de controle...
Filmes sobre adolescentes geralmente reduzem-se a duas categorias: aqueles que buscam o apelo à adolescência (ou adultos regredindo para a sua idade imatura), e aqueles que colocam a turbulência da adolescência sob o microscópio da vida adulta. "Vse umrut a ya ostanus", parece pertencer a esta segunda categoria, que o coloca na companhia de filmes tão memoráveis como "Os 400 Golpes", de Truffaut.
O filme é um retrato tão convincente sobre o comportamento e as emoções das suas protagonistas adolescentes femininas, que é dificil imaginar que o argumento foi escrito por dois homens, Yuri Klavdiyev e Alexei Rodionov. É principalmente forte na forma como capta a natureza transitória da adolescência, numa altura em que as raparigas são adolescentes a tentarem passar para a idade adulta.
 É a primeira obra de Valeriya Gay Germanika, uma jovem então com 24 anos, que fez sensação em Cannes com este filme, em 2008. Ganhou três prémios, incluindo a menção especial da Câmera de Ouro, num ano em que a Palma de Ouro ía para outro filme de adolescentes, "Entre les Murs". Só não venceu a Câmera de Ouro porque o principal concorrente era "Hunger", de Steve McQueen.
Legendas em inglês.

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