segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Idade da Inocência (L'Argent de Poche) 1976

"Na pequena cidade de Thiers, no sudoeste da França, está-se no último mês de aulas de duas turmas de uma escola elementar. Com a chegada das férias grandes vamos conhecer melhor alguns daqueles garotos, sobretudo dois: Patrick e Julien. Patrick vive com o seu pai, inválido, e a sua vida está longe de ser emocionante. Aliás, vive no constante desejo de ter o seu primeiro caso de amor e, por fim, lá consegue o seu primeiro beijo. Julien, ao contrário dos seus colegas de escola, vive numa casa miserável e a sua mãe, uma mulher tenebrosa e alcoólica, bate-lhe e abusa dele a toda a hora. E a sua avó não é melhor. O director da escola encara-o como um caso especial. Julien, para sobreviver num mundo que o hostiliza, vai mesmo tornar-se num ladrão, num mentiroso e num delinquente.
Para além da história destes dois garotos, François Truffaut traça ainda outros retratos quotidianos de uma pequena cidade francesa durante o Verão de 1976 como, por exemplo, a da menina fechada num apartamento que é alimentada pelos vizinhos, ou a do garoto que tem de assobiar para se entender com o pai e a mãe.
L’Argent de Poche (Na Idade da Inocência, na versão portuguesa) não é um dos melhores filmes de Truffaut, mas é de longe uma das sua obras mais queridas e simpáticas. Um misto de comédia, drama e fantasia, filmado com tremenda simplicidade, com inteligente sensibilidade."
Texto Eugénio Vital, daqui.

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Juízo Final (Todo Modo) 1976

M. (Gian Maria Volonté) atravessa a cidade de Roma, no meio do caos de uma iminente epidemia, até ao centro espiritual de Zafer, local onde personalidades do mundo político e económico se encontram e onde estão a ocorrer estranhos acontecimentos. Lá, M. chega quebrando todas as regras, ao levar a esposa consigo. Durante um ritual religioso, os anfitriões são roubados, um senador é morto a tiro, um suspeito é encontrado desmaiado na casa de banho. E M. tem de descobrir o que realmente está a acontecer, antes que seja a próxima vítima.
O filme foi considerado uma crítica à corrupção no Partido Democrático Cristão italiano, e um ataque ao poder da igreja católica, e, no entanto, é necessário ser visto ou revisto nos dias de hoje, principalmente porque apresenta um argumento muito forte, interpretações soberbas de Gian Maria Volonté, no papel do presidente (uma figura que evoca o político italiano Aldo Moro, assassinado pelas Brigadas Vermelhas em 1978), um homem que parece interessado em fazer toda a gente feliz, mas motivado por uma sede infinita de poder, e Marcello Mastroianni como Don Gaetano, um sacerdote ganancioso com muitos amigos entre os amigos proeminentes, e Mariangela Melato como Giacinta, a mulher do presidente, além da música de Ennio Morricone (Charles Mingus foi originalmente escolhido para a partitura musical).
Alguns consideraram-no enigmático e lento, mas "Todo Modo" fornecia inspirações arquitectónicas muito importantes, e deve ser considerado entre os filmes sobre arquitectura. Seria o penúltimo filme de Elio Petri, um nome importante sobre o cinema político italiano.

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Preto e Branco a Cores (La Victoire en Chantant) 1976

Colonos franceses em África de repente ficam-se no meio a uma guerra contra os alemães. Certos de que precisam cumprir o dever e ao mesmo tempo lutar contra os inimigos, eles imediatamente recrutam a população nativa. E dão a eles botas e armamentos, a fim de transformá-los em soldados. Diante do caos que se instala, surge um jovem e idealista geógrafo francês, o único mais racional, que decide controlar a guerra quando vê o fracasso daqueles inexperientes combatentes. 
Filme de estreia de Jean-Jacques Annaud, realizador de obras como "A Guerra do Fogo", "O Nome da Rosa", "O Urso", entre outros. Produzido com dinheiro da Suiça, França e Alemanha, foi totalmente filmado na Costa do Marfim, e apesar de não ser dos mais belos filmes anti-belicistas acabou por levar um Óscar de Melhor filmes em língua estrangeira para casa, num ano em que a concorrência nem era muito forte. 
É um filme carregado com sátira e ironia, onde abundam personagens brancos estúpidos e alienados com um conceito vago do patriotismo, Annaud constrói cenas absurdas e cómicas para mostrar toda a estupidez da guerra, colonialismo, divisão racial, etc. 
Na altura em que foi feito o filme, a França ainda tinha interesses nas terras colonizadas, e talvez, num filme, nunca tenha ficado tão claro o desprezo dos colonos pelos colonizados. Talvez por isso, o Óscar.

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sexta-feira, 28 de agosto de 2015

A Rapariga do Fim da Rua (The Little Girl Who Lives Down the Lane) 1976

Rynn Jacobs (Jodie Foster) é uma jovem de treze anos, que vive numa casa isolada numa pacata comunidade à beira-mar, que o seu pai alugou. Sempre que alguém da cidade tenta satisfazer a curiosidade, o pai nunca está por perto, e a menina aparece sempre sozinha. Rynn é colocada à prova por várias pessoas, que tentam descobrir o segredo que ela está a esconder, incluindo a senhoria snob e o seu filho desprezível.
Uma atmosfera assustadora, cativante e cheia de suspense, é o que se pode encontrar neste filme. Feito com um orçamento muito pequeno para a American International Pictures (AIP), e filmado no Canadá. Destaca-se como um thriller psicológico original, com um excelente argumento de Laird Koenig, baseado num livro seu. Era, sobretudo, um veículo para a jovem Jodie Foster, que no mesmo no entraria em "Bugsy Malone" e "Taxi Driver", onde conseguiria uma nomeação para o Óscar de Melhor Actriz Secundária. Nicholas Gessner, um realizador de nacionalidade hungara, dirige como se fosse uma peça de teatro, com muita imaginação.
Na altura do seu lançamento foi um pouco chocante, por ter uma jovem de treze anos a morar sozinha, ter relações sexuais, e matar pessoas, sendo ainda por cima uma estrela da Disney, mas com o passar dos anos foi recolhendo uma série de seguidores, tornando-se um filme de culto.

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Um Novo Amanhecer (The Ultimate Warrior) 1975

No ano de 2015 poucas pessoas ainda vivem em Nova Iorque. A cidade foi atingida por uma praga, que matou quase toda a gente, inclusivé a vegetação. A cidade está dividida em dois gangs, cada um com o seu território. Um é comandado por Baron (Max Von Sydow), e o outro por Carrot (William Smith), que estão em constante guerra um com o outro. Baron observa a algum tempo um homem que parado no meio da cidade como se estivesse a meditar e vê nele um bom aliado para ajuda-lo no futuro, oferecendo-lhe algumas regalias para que ele faça parte de seu grupo.O homem solitário chama-se Carson (Yul Brynner) e resolve aliar-se ao grupo de Baron, mas em troca de um stock de charutos que Baron tem guardado.
Aventura pós-apocalíptica realizada por Robert Clouse em 1975, não é um filme particularmente bem visto, ou bem lembrado. É, essencialmente, um western de ficção científica totalmente filmado nas ruas da cidade de Backlot, e com um orçamento bastante baixo. Ainda assim, antecipando em 4 anos o primeiro filme da saga Mad Max, com o cenário urbano a fazer uma diferença interessante dos desertos e terrenos baldios da maioria dos filmes do género Pós-Apocalíptico.
Robert Clouse era basicamente um realizador de série B, cujo maior sucesso tinha sido dirigir Bruce Lee em "Enter the Dragon" apenas dois anos antes, acabando por passar o resto da carreira a tentar recriar esse sucesso, recrutando um grande número de estrelas do cinema de acção para tal, como Jim Kelly, Jackie Chan, Joe Lewis ou Cynthia Rothrock, sem grande sucesso. No caso deste filme ele tanto realizou como escreveu o argumento.

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quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Um Lance no Escuro (Night Moves) 1975

O ex-desportista e presentemente detective particular Harry Moseby (Gene Hackman) é contratado para o que parece ser um banal caso de um desaparecimento. Uma velha actriz de Hollywood, que só tem papéis por ser casada com o patrão do estúdio, quer que Harry Moseby encontre a sua enteada Delly Grastner (Melanie Griffith). O detetive acaba por se envolver com Paula (Jennifer Warren), que toma conta de Delly, uma ex prostituta que agora cuida de golfinhos. Harry vai à procura dela na Florida, mas começa a ver uma ligação entre a desaparecida, o mundo dos duplos de Hollywood, e um mecânico suspeito.
Injustamente esquecido nos dias de hoje, "Night Moves" é um dos melhores filmes de Arthur Penn. Um dos melhores exemplos do chamado "neo noir", fazendo parte de uma colheita de filmes que ajudou a redefinir o "film noir", e a passá-lo para os dias de hoje. Gene Hackman tem um dos mais famosos bigodes dos anos setenta, e um interpretação que nada fica a dever a outras como em "The French Connection", "The Conversation", ou "Superman".
"Night Moves" lida com os temas mais profundos do film noir: confiança (traída), amor (negado), cobiça, violência e o velho existencialismo. As personagens, não importa o quanto extremistas ou contraditórios seja o seu comportamento, permanecem complexas, naturalistas e reconhecíveis.
Um bom uso de exteriores na Flórida e em Los Angeles, e um grande elenco de apoio, que inclui ainda Harris Yulin, Kenneth Mars, James Woods, Susan Clark, entre outros. 

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O Lutador da Rua (Hard Times) 1975

Um desempregado durante a Grande Depressão cuja única alternativa é lutar nas ruas. Chaney (Charles Bronson), é um desafortunado que embarca num comboio para Nova Orleans. Lá, no lado mais pobre da cidade, tenta ganhar dinheiro fácil, da única maneira que conhece, com os punhos. Chaney aproxima-se de Speed (James Coburn) e convence-o de que pode ganhar um bom dinheiro para ambos. Ganha algumas lutas ilegais mas Speed tem um débito com um gang de assassinos, o que força Chaney a lutar pela última vez com Street, um monstro enorme numa luta sem regras ou árbitro.
Walter Hill era ainda um novato, e já tinha chamado a atenção como argumentista de dois filmes:  "The Getaway" de Sam Peckinpah, e "The Mackintosh Man", de John Huston, quando teve a hipótese de pegar numa realização pela primeira vez. Escolheu um terreno um pouco diferente dos seus trabalhos como argumentista, um drama bastante tranquilo sobre um lutador viajante, que tenta fazer um pouco de dinheiro para si, da melhor forma que pode.
Co-escrito por Bryan Gindoff e Bruce Henstell, "Hard Times" é um filme perfeito: grandes interpretações de dois tipos duros, uma fabulosa montagem de Roger Spottiswoode, um futuro realizador que também já tinha dado os primeiros passos com Peckinpah, na montagem de "Straw Dogs" e "Pat Garret & Billy the Kid", montagem essa que enfatizava Bronson, nesta altura já na casa dos 50 anos.

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terça-feira, 25 de agosto de 2015

Pasqualino das Sete Beldades (Pasqualino Settebellezze) 1975

Durante a Segunda Guerra Mundial Pasqualino Frafuso (Giancarlo Giannini), um italiano, deserta do exército. Os alemães capturam-no e enviam-no para um campo de concentração, onde faz quase qualquer coisa para sobreviver. Em flashbacks, é vista a sua família com sete irmãs (as sete belezas), como Pasqualino cometeu um assassinato acidental ao amante de uma irmã, a sua confissão e prisão, a sua calculada troca para um asilo, e como decidiu volutariamente ser um soldado para escapar da prisão.
"Pasqualino Settebellezze" é uma sátira ousada, irreverente, e densa em camadas sobre uma cultura nacional de machismo, onde a crueldade humana justifica promover um clima de militarismo e permitir a cumplicidade, resultando na tragédia da Segunda Guerra Mundial. Ao apresentar a situação cívil de Pasqualino como uma consequência da interacção entre a vaidade e a covardia, Lina Wertmüller mostra-nos uma correlecção incisiva entre a agressão masculina e a virilidade.
Lina Wertmüller era uma das realizadoras mais controversas em Itália, e este era um dos seus melhores exemplos. Foi nomeado para quatro Óscares, sendo Wertmüller a primeira mulher a ser nomeada para melhor realizadora. O filme foi também nomeado para melhor actor (Giancarlo Giannini), Argumento, e Filme em Língua Estrangeira.

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O Perfume da Senhora de Negro (Il Profumo Della Signora in Nero) 1974

Silvia (Mimsy Farmer), é uma jovem aparentemente bem ajustada na vida, com um emprego estável e um namorado. Quando não está a trabalhar, anda a jogar ténis, ou pelos típicos eventos sociais. No entanto, começa a presenciar fenómenos estranhos, vê coisas parece que não existem, como uma misteriosa mulher num vestido preto.Também começa a ter estranhas visões da sua infância, talvez memórias, já há muito esquecidas.
Pintor, ocasionalmente actor, e também argumentista, Francesco Barilli fez a sua estreia na realização neste giallo muito peculiar, que é ostensivamente uma descida de uma mulher à loucura, mas tal como o próprio realizador explicou, o filme é um híbrido de duas idéias. Barilli montou o conceito da loucura para os produtores do filme, mas como o argumento foi desenvolvido em conjunto com Massimo D’Avak, foi transformado numa história sinistra de um culto. Tem elementos do Giallo - no seu centro encontra-se um acontecimento traumático muitas vezes usado nestes filmes - mas concentra-se em quebrar as convenções do género.
A buscar muita inspiração no filme de Roman Polansky "Rosemary's Baby", é também um filme de terror estranhamente etéreo e difícil de classificar. Tem uma atmosfera irritantemente tranquila que muitas vezes se sente acidental, mas não é... 

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domingo, 23 de agosto de 2015

Galo de Briga (Cockfighter) 1974

Frank Mansfield (Warren Oates) é um treinador de galos de luta, tão explosivo como os animais que treina. Faz uma aposta com Jack (Harry Dean Stanton), mas o seu melhor galo é morto na noite anterior à disputa pelo "Cockfighter of the Year". Por causa do seu comportamento obsessivo Frank fez um voto de silêncio, e mergulha numa nova jornada rumo ao seu novo objectivo: ser o melhor treinador de galos do ano, nem que isso lhe custe todas as suas posses e a mulher que ama.
Produzido por Roger Corman, este seria um dos quatro filmes que Monte Hellman e Warren Oates fizeram juntos, quase todos nos anos setenta. Se existe um herói esquecido do cinema americano dos anos setenta, esse tem de ser Warren Oates, embora ele fosse sempre um actor de poucas palavras, mas algumas das suas obras, não só as de Hellman, ficaram como autênticos filmes de culto. Aqui a personagem de Oates só tem duas cenas com diálogos, mas a sua expressividade é tão envolvente que é impossível ao espectador não se identificar com o protagonista.
Ficamos com uma sensação muito realista, já que o filme foi rodados em exteriores autênticos do sul dos Estados Unidos, e explora com olhos bem abertos a atracção da subcultura dos jogos e das apostas ilegais. Néstor Almendros faz um belo trabalho na fotografia.
O filme passou por baixo dos radares na altura em que saíu, por ser tão perturbador nas descrições sangrentas da crueldade animal, mas aparte isso é um dos filmes de culto dos anos 70.

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Juventude à Solta (The Lord's of Flatbush) 1974

Butchey (Henry Winkler) forma um gang de casacos de couro, numa escola em Brooklyn durante a década de 50. O grupo é formado por Stanley (Sylvester Stallone) que é forçado a casar com a namorada depois de a engravidar, e Chico (Perry King) que anda envolvido com uma nova rapariga na escola chamada ane (Susan Blakely). À medida que vão entrando na idade adulta vão-se afastando, porque novos interesses começam a acontecer.
Pode ser melhor descrito como uma "série B" de "American Graffiti", que tinha sido lançado no ano anterior. Os valores de produção são de má qualidade, com uma imagem granulada que parece ter sido com uma câmera de filmar não profissional. A história é apresentada num estilo fragmentado, mais no estilo de vinhetas do que um real enredo. Os actores também não foram muito bem escolhidos, todos eles perto dos 30 anos e a interpretarem personagens de 18.
Realizado a quatro mãos, por Martin Davidson e Stephen Verona, tem a curiosidade de contar com Sylvester Stallone num dos seus primeiros papéis de protagonista, e um dos últimos antes do mega-sucesso de "Rocky". Só para curiosos. 

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