quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Um Homem e o seu Destino (Requiem for a Heavyweight) 1962



Mountain Rivera (Anthony Quinn) tem o seu último combate de boxe contra Cassius Clay, e está fora pela contagem depois de 7 rounds. Rivera é arrasado, arriscando a cegueira se lutar de novo. O problema é que o empresário de Rivera Maish (Jackie Gleason), fez uma grande aposta que Rivera seria derrotado não depois do quarto round. Maish tem assim de pagar o dinheiro que perdeu, e está desesperado para vencer uma aposta que cubra a aposta que perdeu, nem que para isso Rivera tenha de vender a alma ao diabo. Junto com Army (Micky Rooney), os três já trabalham juntos há 17 anos.
"Requiem for a Heavyweight" é um grande filme, não apenas pela sua humanidade, mas também pela forma como foi feito. O argumento de Rod Serling é lúcido e profundamente apaixonante, económico, e nunca melodramático. Atrás das câmeras está Ralph Nelson, em estreia absoluta nas longas metragens apesar de já ter bastante experiência na TV, que foi um realizador que nunca conseguiu alcançar a fama, também porque nunca escolheu os caminhos mais fáceis. Dele é, por exemplo, "Soldier Blue", um dos filmes mais violentos a saír de um estúdio americano.
É difícil definir um filme de desporto como algo que valha a pena, num género que já há muito perdeu a originalidade. Dentro do "filme de desporto" o boxe é um movimento à parte, como é o caso deste "Requiem for a Heavyweight". Há um grande uso da fotografia a preto e branco, inclusive para as sequências sem combates, como o jogo de luzes na cena em que Jackie Gleason é encurralado por bandidos. O trabalho de câmera é excelente em todas as áreas, especialmente nos combates, em especial logo no primeiro.
Quinn, que na altura já tinha ganho dois Óscares da Academia, tem uma das suas interpretações mais sólidas da sua carreira. O seu adversário no primeiro combate era Cassius Clay, então um jovem com 20 anos, mas que se tornaria no grande campeão Muhammad Ali.

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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Marcado Pelo Ódio (Somebody Up There Likes Me) 1956


Rocky Graziano (Paul Newman) está a tentar evoluir no mundo do crime quando é finalmente apanhado e preso. Na cadeia, ele é indisciplinado e está sempre a envolver-se em sarilhos. Quando sai passados vários anos decide começar uma nova vida. Rocky descobre que consegue ganhar algum dinheiro a lutar boxe e é rapidamente aclamado como um novo talento do pugilismo.
Esta é a verdadeira história de Rocky Graziano, e segue-o desde a altura em que ele cometia crimes, passando uma temporada temporada na cadeia e no exército, até se tornar campeão do mundo de pesos-médios. Ao contrário do que indica o título do filme, ninguém lá em cima estava a olhar pelo filme. A produção acidentada começou com a morte do primeiro protagonista do filme: James Dean. A história do pugilista Rocky Graziano era da preferência de Dean, que queria muito interpretar o pugilista, e iria voltar a juntá-lo ao seu co-protagonista de "Rebel Without a Cause", Sal Mineo, e colocá-lo ao lado da sua namorada de fora do grande ecrã, Pier Angeli. O novo protagonista era Paul Newman, já com a idade de 31 anos era considerado demasiado velho, e canastrão, para o papel do pugilista. A estreia de Newman em "The Silver Chalice" tinha sido um fracasso, mas este filme iria colocá-lo no mapa.
Newman mergulhou profundamente no papel, e retirou uma interpretação de alto calibre, muito diferente que o público se habituou nos seus filmes mais famosos. O filme foi rodado nas ruas de Nova Iorque, num belíssimo preto e branco, com uma fotografia que acabaria por ganhar um Óscar.
Com dois filmes sobre o mundo do boxe tão importantes, a saírem no mesmo ano, começava-se a adivinhar um grande futuro para os filmes sobre este desporto, que continua a ser o desperto mais bem retratado no cinema. Para além de todos estes pormenores, também era o filme que lançava actores como Steve McQueen, Robert Loggia, ou Robert Duvall, em papéis muito secundários. A realização estava a cargo de Robert Wise, um realizador já com um percurso de respeito em Hollywood, que tinha feito, por exemplo, a montagem de "Citizen Kane". Este filme ganhou 2 Óscares.

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segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

A Queda de um Corpo (The Harder they Fall) 1956



Humphrey Bogart interpreta no papel de Eddie Willis, um antigo comentador desportivo que junta forças com um corrupto promotor de boxe chamado Benko (Rod Steiger).Juntos, preparam um plano para enganar Toro Moreno (Mike Lane), um boxeur gigante pobre de espírito com mais de dois metros de altura. Através de uma série de combates forjados preparados cuidadosamente, Toro é levado a acreditar que é um sério candidato ao título...
Este seria último filme de Bogart, onde ele tem um desempenho contundente e fantástico no papel de um jornalista desportivo. Adaptado de um romance de Budd Schulberg com um argumento clínico de Philip Yordan e realizado por Mark Robson, era uma  mistura corajosa entre melodrama e thriller. O filme é baseado na carreira do boxeur Primo Carnera, um gigante italiano que se tornou campeão de pesos pesados em 1933-34. O verdadeiro Carnera processou a Columbia Pictures pelas supostas combinações de resultados retratadas no filme, mas acabou por perder em tribunal. "The Harder They Fall" serve como uma exposição do controle da Máfia sobre o mundo do boxe.
Filme bastante corajoso e potente para a época, o realizador Mark Robson entrega-nos algumas sequências brutais de combate, e até certo ponto mostra-nos um "documentário" realista sobre um lutador cujo corpo já foi tão torturado que já nem está em condições de começar um trabalho real.
Conseguiu uma nomeação ao Óscar de melhor fotografia (Burnett Guffey), e fez parte da selecção oficial para Cannes, em 1956. Estreado em Abril de 1956, Bogart viria a falecer no ínicio do ano seguinte, com 57 anos.

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domingo, 14 de dezembro de 2014

O Boxe e o Cinema


O boxe e o cinema já há muito que gozam de uma relação. O primeiro combate de boxe a ser filmado foi em 1894, quando o protegido de Thomas Edison, William K.L. Dickson, filmou um combate entre Jack Cushing e Mike Leonard, conhecido como o ‘Beau Brummell’ do pugilismo. Apenas 37 segundos do combate foram filmados, e hoje em dia ninguém quer saber que Leonard ganhou, mas o vínculo forjado entre o boxe e o cinema não mais acabou.
O boxeur e o boxe são figuras proeminentes no cinema de Hollywood, com aparições em mais de 150 filmes desde a década de 30. A época entre 1975 e 1985 foi a mais importante para este sub-género, graças ao grande sucesso comercial da saga "Rocky", e ao sucesso crítico de "Raging Bull", de Martin Scorcese, mais tarde considerado o melhor filme da década de 80. 
Nesta pequena homenagem que farei ao boxe durante esta semana, escolhi 5 filmes em que a acção se passa não só dentro, mas também fora dos ringues de boxe. Em alguns casos o boxe é a referência principal do filme, noutros apenas serve de background para a acção principal.
Não são obrigatoriamente os melhores filmes sobre o mundo do boxe, mas aqui fica a minha escolha para esta semana:

Segunda: The Harder They Fall (1956), de Mark Robson

Terça: Somebody Up There Likes Me (1956), de Robert Wise

Quarta: Requiem for a Heavyweight (1962), de Ralph Nelson

Quinta: Fat City (1972), de John Huston

Sexta: Raging Bull (1980), de Martin Scorcese

Boa semana para todos.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A Mulher Sem Cabeça (La Mujer Sin Cabeza) 2008


Verónica está ao volante do seu automóvel quando, num momento de distracção, atinge qualquer coisa e foge amedrontada. Nos dias seguintes, sente-se como que a desaparecer, indiferente às coisas e às pessoas que a rodeiam. Depois de confessar ao marido que atropelou alguma coisa na estrada, regressam ao local do acidente e descobrem um cão morto. Mas quando a vida parece retomar a normalidade, um cadáver é descoberto...
O que se segue é um retrato de uma pessoa totalmente fora de sincronia com a sua própria existência. Este não é um assunto particularmente novo na história do cinema, especialmente para quem está familiarizado com realizadores como Michelangelo Antonioni ou Luis Buñuel, dois mestres incomparáveis frequentemente invocados na promoção deste filme. No entanto, a realizadora/argumentista Lucrecia Martel, imensamente ajudada pelo trabalho de câmera de  Bárbara Álvarez, cumpre o seu trabalho com esforço confiante e uma expressiva estética dela própria.
Descobrimos que a vida de Verónica não é apenas o que parece. A carreira, a família, e uma infidelidade ou duas começam lentamente a entrar em foco, assim como uma implícita auto-culpa. Mas o título de A Mulher Sem Cabeça não é uma parábola. É mais o retrato psicológico de uma pessoa para sempre condenada a ser um "voyeur" da sua própria vida, algo que a mudança da côr do cabelo pode corrigir apenas exteriormente.
Martel já vinha a revelar-se desde o início da década, e esta era já a sua terceira obra de uma carreira bastante promissora. Concorria a Cannes pela segunda vez, mas ainda não era desta que a realizadora argentina era premiada. Já há muito que deixou de ser uma promessa do cinema Argentino, e passou a ser uma certeza.

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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Luna de Avellaneda (Luna de Avellaneda) 2004



"Luna de Avellaneda conta a história de um clube desportivo e cultural de um bairro de Buenos Aires que viveu no seu passado uma época de esplendor e cuja existência actualmente se encontra em perigo. A única saída possível parece ser vendê-lo para que se converta num casino, e os descendentes dos seus fundadores terão que debater-se entre a viabilidade do projecto e o reencontro com o sonho idealizado por eles. Róman (Darín) nasceu nesse mesmo clube, no meio de uma noite de festa e foi nomeado sócio vitalício. 45 anos mais tarde, como membro da direcção, ele terá que pesar o papel do clube na sua vida e na vida daqueles que o cercam.
Depois do belíssimo O Filho da Noiva era legítimo ter elevadas expectativas deste Luna de Avellaneda. E nesta história sobre o quotidiano, Campanella dá-nos um filme nada quotidiano, que sendo de entretenimento não abdica da qualidade de realização e interpretação.
O papel de Darín tem algumas semelhanças com o de O Filho da Noiva, especialmente na qualidade da representação de um homem que luta mais facilmente pelos seus valores fora de casa do que dentro dela, dando mais atenção aos estranhos que à sua própria família. Um personagem tão terno e real, na sua imperfeita humanidade, que é impossível não gostarmos dele. A parceria de Darín com Blanco, repetida também neste filme, evidencia uma química pouco comum. Num registo patético e sentimental, Blanco traduz todo o ridículo dos apaixonados numa relação atribulada com uma sonhadora Bertucelli. Morán está deliciosa como mãe divorciada, ressentida e amargurada.
A competência de Campanella revela-se no argumento, na direcção de actores e no desenho da produção, onde planos gerais e de detalhe se alternam, fazendo o contraste entre a conveniência pessoal e o bem comunitário: o eterno dilema.
Um grupo de perdedores que se negam a renunciar à importância das relações humanas no seio de uma comunidade. Apesar da melancolia em que se instalaram, procuram no grupo o consolo de um mundo sem valores, assumindo a culpa do seu fracasso, mas sem perder a esperança de conseguir uma vida melhor.
O clube Luna de Avellaneda, que dá nome ao filme, é aqui a metáfora de uma sociedade que, hoje em dia, apresenta uma saúde muito debilitada. Acredito que os argentinos em particular leiam aqui um relato honesto da sua realidade.
O aviso que este filme nos faz é que a derrota não é provocada pelo passar dos anos, mas pela perda do sonho, essa luz da lua cheia que Don Aquiles (López Vázquez) quer ver antes de morrer. Mas a vida não torna as coisas fáceis, não nos deixando mais remédio que trabalhar, lutar e respeitar as regras de um jogo por vezes perverso.
A exemplo do anterior O Filho da Noiva (2001) e de Nove Rainhas (2000), de Fabián Bielinsky, este Luna de Avellaneda vem confirmar que o cinema argentino está de boa saúde e recomenda-se."- Por Rita, Daqui.

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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O Abraço Partido (El Abrazo Partido) 2004


Em Buenos Aires, um jovem judeu- argentino chamado Ariel Makaroff deixa a universidade de arquitectura e passa o tempo a deambular pela galeria do centro onde a sua mãe tem uma loja de lingerie e o seu irmão gere um negócio importante, tentando obter o passaporte polaco para voltar para a Europa. Ariel nunca percebeu porque o seu pai o deixou, ainda bébé,  para lutar na guerra de Yom Kippur, em 1973. Quando o seu pai regressa a Buenos Aires, Ariel descobre a razão porque o pai deixou a família...
O realizador argentino Daniel Burman é muitas vezes comparado a Woody Allen, e há de facto algumas similaridades: ambos são judeus e preocupam-se com o significado de ser judeu, e ambos têm uma sensibilidade essencialmente cómica, com a qual exploram questões sérias sobre as relações humanas. No entanto, "El Abrazo Partido" não tem muito a ver com a obra de Allen, principalmente porque Burman está interessado em evocar um lugar em particular (uma espécie de centro comercial em Buenos Aires), enquanto os filmes de Allen têm lugar numa Nova Iorque estilizada, que não existe para além da imaginação do realizador. Burman também é menos cómico do que Allen, o seu humor é mais casual e observacional. 
"El Abrazo Partido" introduz-nos a uma Argentina multiétnica de que a maioria dos estrangeiros não estarão cientes. A maior parte do filme passa-se num espaço movimentado, o shopping, e Burman quer que esta seja uma história de pessoas. As personagens secundárias, como alguns lojistas, não são muito bem tratadas, e como Burman estava com receio de fazer um verdadeiro filme de conjunto, retira-se para uma estratégica mais segura, numa narrativa que se concentra num único protagonista.
Filmado em Vídeo Digital, o trabalho de "câmara no ombro" dá uma grande intimidade ao filme. Tal como outros filmes do seu país, correu alguns festivais pelo mundo fora, tendo ganho em Berlim o prémio de Melhor Actor e o Grande Prémio do Juri.
 
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segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Querem ser programadores do M2TM durante uma semana?

Durante este natal vou realizar um passatempo, que dará como prémio ao vencedor organizar um ciclo durante uma semana. Só terão o trabalho de escolher os cinco filmes dessa semana.
Para participarem terão de entrar no grupo do M2TM, aqui, onde uma vez por dia será publicada uma foto de um filme já anteriormente postado no blog, neste e no anterior.
Quem adivinhar mais fotos será o vencedor, e o passatempo irá prolongar-se até dia 10 de Janeiro. Começa na quarta-feira.

Nove Rainhas (Nueve Reinas) 2000


A história de Nove Rainhas, passa-se na Buenos Aires dos dias modernos, começando numa madrugada e terminando na manhã do dia seguinte. Nestas 24 horas ou pouco mais, Marcos (Ricardo Darín) e Juan (Gaston Pauls), os seus protagonistas, passarão pela maior aventura das suas vidas, algo que Marcos insiste em chamar de "uma oportunidade em um milhão". Estes dois golpistas de segunda categoria, que habitualmente "trabalhavam" por poucos pesos, conhecem-se por acaso numa certa madrugada e, de repente, tornam-se sócios numa negociação multimilionária envolvendo uma série falsificada de selos raríssimos, conhecidos como as "Nove Rainhas".
"Nove Rainhas" é muito menos previsível do que o público poderia esperar, porque Bielinsky combina o género do "heist movie", como se tratasse de um "buddy movie". Marcos, como se vê, é uma personagem fria e sem coração, para quem os seus parceiros não passam de presas. Ele seria o pior parceiro que um jovem ingénuo e inexperiente como Juan poderia ter. Se não fosse pelo facto que Juan tem um talento para a improvisação, e um rosto em que as pessoas pudessem confiar, ele estaria condenado a ser um mero ajudante de Marcos. 
"Nove Rainhas" marca a estreia na realização de Fabian Bielinsky, um realizador que vinha lutando para realizar a sua primeira longa metragem até que conseguiu ganhar um concurso para a redação de um argumento, à frente de outros 300 concorrentes. Este filme, "Nove Rainhas", tornou-se um sucesso enorme na sua terra natal, varrendo bilheteiras por completo, tornando Bielinsky num realizador famoso e arrecadando alguns prémios importantes. Mais tarde estreou nos Estados Unidos, e em países da Europa como Espanha, França, e Reino Unido onde também conseguiu um sucesso notável.
Foi premiado em vários festivais pelo mundo fora, inclusivé Portugal, onde em 2002 ganhou o prémio do Argumento no Fantasporto. O seu segundo filme, "Aura", lançado em 2005, foi considerado uma obra-prima do neo-noir, mas a sua carreira terminou cedo, pois ele faleceu em 2006, com apenas 47 anos.

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Mundo Grua (Mundo Grua) 1999


Rulo, um operador de gruas de 50 anos, carrega com dignidade o peso de uma vida com demasiados dissabores e alguns, fugazes, momentos de glória. Nos anos 1970 foi tocador de baixo numa famosa banda de rock mas, hoje, está divorciado e enfrenta a sua dura profissão de operador de gruas. A seu cargo tem Cláudio, o seu filho adolescente, e procura sustentar a sua vida e lutar contra a ameaça do desemprego. Quando um novo trabalhador chega e toma o seu lugar, Rulo é forçado a trocar Buenos Aires por um emprego precário em Comodoro Rivadavia, 2000 quilómetros a Sul da capital. Rulo acaba por ter que deixar o seu novo amor, Adriana – uma vendedora de sandes que costumava ser uma grande fã da sua banda -, e o seu filho, que espera seguir os passos do pai e formar a sua própria banda.
"Mundo Grua" é a primeira longa-metragem do argentino Pablo Trapero, realizada quando ele tinha apenas 28 anos, sendo ele um dos primeiros realizadores desta nova geração a revelar-se. A sua premissa, à primeira vista, parece a mesma de uma das suas primeiras curtas, chamada "Negócios", uma curta de 17 minutos que ele filmou em 1995. Conta uma história simples, de um modo simples, com personagens credíveis. Ao princípio esta premissa parece pouco, mas com o tempo converte-se em algo mais.
Trapero aposta forte na naturalidade, basicamente gravando cenas flexíveis, ao estilo de um documentário-ficção, abrindo o jogo para a improvisação dos actores, muitos deles amadores. Isto funciona melhor com os profissionais de carreira (Adriana Aizemberg e Daniel Valenzuela), e alguns não profissionais, e não tanto com o protagonista, que se arrasta com tiques da curta metragem em que já tinha participado: "Negócios".
Em termos de divulgação, "Mundo Grua", correu o mundo em Festivais, tendo ganho dois prémios no festival de Veneza de 1999. Em Portugal passou pelo IndieLisboa de 2005.

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sábado, 6 de dezembro de 2014

Cinema Argentino Contemporâneo

A Argentina tem sido conhecida, especialmente no mundo da língua espanhola, pela qualidade na sua indústria cinematográfica, ainda que tenha enfrentado a repressão e a censura durante a década de 70, que reduziu drasticamente a quantidade de filmes realizados no país. Os efeitos deste período foram transportados para a década seguinte, com os filmes a tratarem do assunto que viria a ser conhecido como a "guerra suja". Apesar da ausência de risco nos filmes da década de 80, houve excepções, como o caso de "A História Oficial" (1985), que ganhou o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro.
A década de 90 marcou uma nova fase no cinema argentino, com a estagnação das décadas anteriores a levarem um grupo de jovens realizadores a lutarem para recuperar a identidade cinematográfica do país, e mostrar a nova realidade que se focava menos nos eventos do passado, e mais nos problemas sociais enfrentados pelos argentinos.
O crescimento das escolas de cinema em meados dos anos 90 e a criação de novos festivais, como o Mar de Plata e o Bafici tornaram-se uma plataforma e um modo dos novos realizadores mostrarem o seu trabalho.
Assim, os realizadores que emergiram em meados dos anos 90, são colectivamente considerados parte do "Novo Cinema Argentino", mas são, na verdade, um grupo muito díspar, com tendências estilísticas muito particulares. No entanto, eles estão ligados por uma determinada contemporaneidade, misturando levemente a realidade e a ficção. Este novo cinema estava mais preocupado em criticar a sociedade moderna da Argentina e mergulha nas vidas das personagens com um tal detalhe que nos podemos ver em alguns detalhes que são comuns a qualquer ser humano.
Escolhi para este ciclo cinco filmes, cada um de um realizador diferente, para que fiquem com uma idéia do que era o cinema daquele país. São cinco, podiam ser mais, e também deixei de fora, "El Secreto de Sus Ojos", de Juan José Campanella, por ser o mais popular, e assim vos dar a conhecer outro menor do mesmo realizador. Espero que gostem do ciclo, a partir de Segunda-Feira.

Segunda: Mundo Grúa (1999), de Pablo Trapero

Terça: Nueve Reinas (2000), de Fabián Bielinsky

Quarta: El Abrazo Partido (2004), de Daniel Burman

Quinta: Luna de Avellaneda (2004), de Juan José Campanella

Sexta: La Mujer Sin Cabeza (2008), de Lucretia Martel

Kin-Dza-Dza! (Kin-Dza-Dza!) 1986


Os dois personagens principais do filme, o Tio Vova e Wef, o violonista acidentalmente vão parar a outro planeta, depois de apertarem o botão errado de um estranho dispositivo que se encontrava na posse de um estranho, que eles pensam ser um alien. Vão parar ao planeta "Plyuke" na galáxia "Kin-Dza-Dza", onde todos têm aparência humana e compreendem russo depois de lerem a mente do Tio Vova. Os habitantes deste planeta comunicam de forma telepática, e o seu alfabeto tem apenas 11 palavras. A civilização do planeta parece ser mais avançada, mas por outro lado, do ponto de vista social Plyuke é um mundo completamente bárbaro, e está dividido em duas classes, os mais poderosos de um lado, e os mais pobres do outro.
A redução ao absurdo é conseguida através da humilhação a que os humanos se têm de sujeitar, para encaixarem numa sociedade estranha e injusta, e conseguir regressar à Terra. Os comportamentos bizarros dos aliens, são estranhos à primeira vista, mas tornam-se familiares e lógicos à medida que os personagens humanos (e o espectador) os vão aprendendo.
Uma das definições mais interessantes sobre este filme é que já o consideraram o "melhor filme de ficção científica que ninguém ouviu falar". Um filme que é tanto uma sátira politico-social como um filme russo distópico, algo poucas vezes visto na história do cinema. Obra-prima da ficção científica minimalista e inteligente dos anos 80. Escrito e realizado por Georgi Daneliya, "Kin-Dza-Dza" é uma rica crítica ao comunismo carregado com o humor pungente que seria de esperar de um filme da era soviética, numa paisagem influenciada pelos filmes da familia do "Mad Max".
Poucas vezes visto, tornou-se numa obra de culto. Em Portugal foi exibido no Fantasporto de 1988, tendo ganho o Grande Prémio do Júri. Recentemente teve um remake animado.

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