quarta-feira, 29 de março de 2017

A Cidade Tenebrosa (Dark City) 1950

Depois de ter a sua casa de apostas fechada pela polícia, Danny Haley (Charlton Heston) e os seus amigos Augie (Jack Webb), Soldier (Harry Morgan) e Barney (Ed Begley) ficam sem dinheiro. Os quatro fazem um jogo de póquer com Arthur Winant (Don DeFore) e ganham-lhe todo o seu dinheiro, inclusive um cheque de 5 mil dólares que não pertencia a Arthur, que, desesperado, se suicida. Depois desta tragédia, os quatro amigos achavam que estavam com todos os seus problemas resolvidos mas não fazem idéia que Sidney, o irmão de Arthur cujo rosto ninguém conhece, é um psicopata que, para vingar a morte do irmão, começa a matar todos os envolvidos no jogo.
Charlton Heston faz a sua estreia oficial como actor principal de um filme de Hollywood, que apesar de ser uma obra pouco ambiciosa, destaca-se pelo excelente elenco: Lizabeth Scott, Viveca Lindfors, Dean Jagger, Ed Begley, entre outros. Heston não tem ainda muita dimensão para além da sua arrogância e distancia emocional, mas a sua presença sólida ajuda a levar o filme a bom porto. Dean Jagger é o policia inteligente e silenciosamente eficaz que dá uma boa réplica ao actor principal. É o mais interessante de um trio de dramas de crime que a Paramont realizou no inicio da década de 50. Os outros dois são "Union Station" (1950), de Rudolph Mate, com William Holden e Barry Fitzgerald, e também "Appointment With Danger", (1951) de Lewis Allen, com Alan Ladd no papel de um inspector no rasto de criminosos violentos, entre os quais Harry Morgan e Jack Webb, uma vez mais do lado errado da lei.
A posição de "Dark City", realizado por William Dieterle, no território do film noir, é geralmente vista como um bom exemplo, apesar de um argumento medíocre. Os argumentistas John Meredyth Lucas e Larry Marcus estendem as coisas um pouco longe demais, e durante demasiado tempo, mas ainda assim há uma quantidade razoável de bons momentos para saborear.

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terça-feira, 28 de março de 2017

O Retrato de Jennie (Portrait of Jennie) 1948

Eben Adams (Joseph Cotten) é um pintor talentoso mas fracassado lutando na era da Depressão em Nova Iorque, mas que nunca foi capaz de encontrar inspiração para uma pintura. Um dia, depois de encontrar, finalmente, alguém em comprar um quadro seu, conhece uma estranha jovem chamada Jennie Appleton (Jennifer Jones), com quem começa uma amizade invulgar.
 Numa tarde de Inverno de 1932, um artista frustrado encontra uma jovem misteriosa no Central Park, e a sua vida será transformada pela sua presença assombrosa. Uma produção prestigiosa de David O. Selznick, "Portrait of Jennie" (1948) é uma incursão de Hollywood na espiritualidade romântica, reminiscente de filmes como "The Enchanted Cottage" (1945), "The Ghost and Mrs. Muir" (1947), assim como do conto sobrenatural de 1990, "Ghost". Selznick tentou dar a "Portrait of Jennie" um certo brilho artístico,   contratando um argumentista e escritor de prestigio como Ben Hecht, que já tinha então brilhado em vários filmes, e conquistado várias nomeações aos Óscares, uma delas em "Notorious", de Alfred Hitchcock, outra em "Wuthering Heights", de William Wyler, só para dar dois exemplos. Hetch escrevia apenas o perfácio, embora não fosse creditado.
Dirigido por William Dieterle, realça-se o tom estranho, com sequências de cor deslumbrantes, como o furação de New England na parte final do filme, cujas nuvens da tempestade são de um verde doentio, e no retrato final magistral de Adams a pintar Jennie, revelado num impressionante Technicolor. 
Selznick estava tão apaixonado por Jennifer Jones que depois de a roubar do seu anterior marido, Robert Walker, dominaria a actriz emocionalmente e profissionalmente. Segundo o que é contado, ele só escolhia para contracenar com a actriz, actores com relações estáveis, e que fossem conhecidos pela sua fidelidade, como eram os casos de Gregory Peck e Joseph Cotten, que contracenou com Jones em diversos filmes, incluindo este. Embora a produção de "Portrait of Jennie" fosse um sacrifício emocionamente por causa da relação da actriz com o produtor, acabaria por ser um impulso para as suas estrelas. Joseph Cotten ganharia o prémio de Melhor Actor no Festival de Veneza, e mesmo que Jennifer Jones não tivesse sido nomeada para um Óscar, foi elogiada pela crítica em geral como a problemática heroína. O filme ganhou o Óscar de Melhores Efeitos Especiais. 

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domingo, 26 de março de 2017

Cartas de Amor (Love Letters) 1945

Quando um homem, com pouco talento para escrever, pede a outro para escrever cartas de amor por ele, há sempre complicações. O homem sem talento casa com a rapariga, e confessa uma noite que não escreveu as cartas para acabar com uma faca nas costas. O escritor das cartas apaixona-se pela mulher a quem as escreveu para se tornar no seu segundo marido, mesmo que ela tenha assassinado o seu amigo. Singleton (Jennifer Jones), não se lembra do crime, nem de nada dos seus primeiros 22 anos de vida como Victoria Remington. No segundo casamento ela pensa porque terá dito "Eu aceito-te, Roger", em vez de "Eu aceito-te. Alan".
William Dieterle dirige este melodrama romântico de mistério, com argumento de Ayn Rand, baseado no livro "Pity Mr. Simplicity" de Chris Massie. Ayn Rand, escritora e argumentista nascida na Rússia, foi das muitas personalidades que emigrou para os Estados Unidos no período da Segunda Guerra Mundial, ficando conhecida, sobretudo, por "The Fountainhead", por ter escrito o argumento baseado num livro seu. "Love Letters" era uma variação do conto de "Cyrano De Bergerac". Há uma interpretação enorme de Jennifer Jones, já que o filme foi feito à sua medida, e um trabalho de câmara excepcional de Lee Garmes para nos manter totalmente focados na personagem principal, e uma banda sonora assombrosa de Victor Young. A dupla Jones e Dieterle ainda funcionaria melhor na sua colaboração seguinte, "Portrait of Jennie", realizado três anos depois, e que seria dps melhores filmes do realizador.
"Love Letters" foi nomeado para quatro Óscares, incluindo a nomeação de Jennifer Jones para Melhor Actriz, a terceira que conseguia aos 26 anos. 

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sábado, 25 de março de 2017

O Homem Que Vendeu a Alma (All That Money Can Buy) 1941

Jabez Stone (James Craig) é um agricultor azarado que num momento de desespero diz que venderia a alma em troca de dinheiro e uma boa colheita. O diabo aparece, e eles selam o acordo e o agricultor fica rico - mas também se torna num tirano frio e ganancioso. Quando o diabo vem cobrar a conta, Jabez fica desesperado e pede a ajuda do maior orador e entendido em leis da região: Daniel Webster (Edward Arnold).
Um pedaço da memorável paródia americana, "The Devil And Daniel Webster" é uma excelente adaptação da história de Fausto, que desloca o mito alemão para uma pequena comunidade de New Hampshire em meados do século XIX, onde a tentação do diabo ao agricultor vem representar a batalha pela alma da nação norte-americana incipiente.
O moral da história gira em torno do eventual reconhecimento de Stone dos erros do seu caminho quando a sua dívida com o diabo se torna devida. Ele pede ao célebre político e advogado de Massachusetts, Daniel Webster, que pede que, como cidadão americano, Stone seja protegido pela Constituição, e que lhe seja concebido um julgamento por um júri. O confronto final pela paz da alma de Jabez Stone vai colocar frente a frente Webster e os valores patrióticos americanos de liberdade contra as forças satânicas da ganância, luxúria e orgulho que aprisionaram a alma de Stone.
Apesar do tema altamente moralizante e ocasionalmente reacionário, este é um filme impressionantemente experimental do realizador William Dieterle, que mantém o poder de impressionar o seu público tantos anos depois da sua estreia. Bernard Herrmann ganhou um Óscar para a Melhor Música, e Walter Huston foi nomeado para Melhor Actor, no papel de Diabo. O filme tem dois títulos, "All That Money Can Buy" e "The Devil And Daniel Webster".

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quinta-feira, 23 de março de 2017

Nossa Senhora de Paris (The Hunchback of Notre Dame) 1939

A França no século 15 está à beira do fim da Guerra dos Cem Anos, e é retratada como sendo destruída pela ignorância, crueldade e superstição. Mesmo o rei sendo uma figura amável e um homem de pensamento moderno está cercado por reacionários e o seu regime é intolerante. O Conde Jean Frollo (Cedric Hardwicke) é o mais alto representante da justiça do rei e opõe-se ao progresso e a qualquer tipo de reforma. Um exemplo, ele quer ver a imprensa destruída porque ela vai encorajar as massas a pensarem por si, mas o rei, liberal, não deixa isso acontecer.
A nossa história conta como uma cigana (Maureen O'Hara) vai ver a sua vida andar para trás quando é acusada injustamente de um assassinato, e ser perseguida por isso.A única pessoa que o pode ajudar é um homem deformado conhecido como o Corcunda de Notre Dame, Quasimodo, que aqui é interpretado pelo grande Charles Laughton. 
Hollywood no seu melhor. Era o filme de maior orçamento da RKO (2 milhões de dólares, em 1939), um filme de período dramático que foi um dos maiores sucessos do ano, a nível de público e critica. Não esquecer que este foi o ano de filmes como "Gone With the Wind", "The Wizard of Oz",  "Mr. Smith Goes to Washington", "Jesse James", "Goodbye Mr. Chips", "Dodge City", Wuthering Heights", entre outros. Era uma adaptação sensível e séria do clássico livro de Victor Hugo, que nos fornece uma mistura equilibrada de história e horror, enquanto nos conta as aventuras de um tocador de sinos deformado, o corcunda surdo Quasimodo (tão bem interpretado por Charles Laughton), figura já mítica da literatura mundial, e o seu amor impossível por uma bela cigana, Emeralda (Maureen O'Hara, no seu primeiro papel principal, com 19 anos). Tudo isto no meio da agitação medieval que era o governo do rei Luis XI (Harry Davenport).
Sob a direcção de William Dieterle, o filme transmite um trabalho meticuloso e um sentido vivido do grotesco, com ricos cenários (projectados por Van Nest Polglase), e um grande trabalho do director de fotografia Joseph H. August, sem esquecer a brilhante caracterização de Quasimodo. O argumento de Sonia Levien e Bruno Frank era actualizado para o ano corrente, com as perseguições ciganas permitidas pela monarquia a serem comparadas com as perseguições aos judeus ocorridas durante o Holocausto. 

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terça-feira, 21 de março de 2017

A Vida de Zola (The Life of Emile Zola) 1937

A vida ficcionada do famoso escritor francês Emile Zola. Como é retratado no filme ele era um escritor sem dinheiro que divide um apartamento em Paris com o pintor  Paul Cezanne, até escrever o seu primeiro best-seller. Teve sempre dificuldades em aguentar os empregos por ser demasiado franco, sendo advertido várias vezes pelo ministério público, que arrisca a ser acusado se não mudar o seu comportamento. Grande parte do filme é sobre o seu envolvimento no caso do capitão Alfred Dreyfus, que foi falsamente acusado de fornecer informações secretas aos alemães e condenado a prisão perpétua na Devils Island. 
Emile Zola, além de um famoso escritor também era um lutador pela justiça e pela liberdade de expressão. Muitas vezes se opôs ao governo françês e aos militares, o que o tornaram impopular em certos círculos, enquanto popular noutros. O filme é principalmente sobre o caso Dreyfus, e não tanto sobre a pessoa Emile Zola. Era o segundo "biopic" a sair da dupla William Dieterle/ Paul Muni, embora aqui a acção não se concentrasse no personagem real mas sim numa história interessante em torno dele. Quanto ao retrato de Emile Zola neste filme, ele é constantemente mostrado como um homem grande e justo, com resposta sempre pronta para tudo. É quase um super-homem, e por isso não é suficientemente credível, mas se conseguirmos passar ao lado deste pormenor, é um filme muito interessante.
Foi um êxito absoluto na altura da sua estreia. Ganhou três dos Óscares mais importantes, Melhor Filme, Argumento, e actor secundário (Joseph Schildkraut). Além disso ainda conseguiu mais sete nomeações, incluindo de Melhor Realizador e Actor. Foi a única vez que Dieterle foi nomeado para um Óscar na sua carreira. O filme é vagamente baseado no livro "Zola and His Time" de Matthew Josephson, e conta com valores de produção bem elevados para a época, e um elenco de luxo, que inclui ainda Gale Sondergaard, Donal Crisp, Louis Calhern, Vladimir Sokoloff, Harry Davenport, entre outros.

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segunda-feira, 20 de março de 2017

A Vida de Pasteur (The Story of Louis Pasteur) 1936

Paris, 1860. O químico Louis Pasteur é considerado um charlatão entre a comunidade  médica por advogar que os médicos e os cirurgiões devem lavar as mãos e ferver os seus instrumentos para destruir micróbios que podem matar os seus pacientes. Depara-se com esta crença ao descobrir organismos microscópios no vinho azedo, organismos que podiam ser mortos se aquecidos convenientemente. A crença da comunidade científica em geral é que os organismos são o resultado da doença e não a causa. Esta crença persiste apesar de cerca de 30% das mulheres morrerem durante o parto originando 20 mil mortes por ano apenas em Paris. Esta discussão vai levar Pasteur numa grande cruzada, até a uma reunião com o imperador Napoleão III e o seu físico Dr. Charbonnet, que é um dos maiores opositores de Pasteur. 
Este foi um dos filmes, talvez o principal, que ajudou a estabelecer o que hoje chamamos de "biopic" como um género legítimo de filmar, e o primeiro a tomar como herói uma figura importante da ciência. Ninguém era capaz de prever se o filme seria suficientemente interessante para uma audiência mainstream, e nem sequer o produtor, Jack Warner, tinha fé no projecto. Mas o resultado final ultrapassaria em muito as expectativas, e os seus padrões seriam reproduzidos em muitos filmes subsequentes, como "The Life of Emile Zola", "Dr Ehrlich’s Magic Bullet", "A Dispatch From Reuters", "Edison The Man", "The Adventures of Mark Twain", continuando a ter influência em muitos filmes contemporâneos como "A Beautiful Mind", ou "The Great Debaters". O visionário heróico e a sua visão única ultrapassaram as forças da reação, da intolerância, normalmente recriadas por algumas personagens inventadas que têm de se converter ou comer o seu chapéu no final. Esta personagem aqui é o Dr Charbonnet (Fritz Leiber), físico da corte de Napoleão III. 
O sucesso do filme de William Dieterle chegaria aos Óscares, conquistando três estatuetas. Paul Muni ganhava o Óscar de Melhor Actor, no papel de Pasteur, e o filme levava ainda para casa os prémios de Melhor História Original e de Melhor Argumento, para além de uma nomeação para Melhor Filme. Muni apesar de já ter trabalhado com Dieterle em "Dr, Sócrates" iniciaria aqui uma colaboração com Dieterle no terreno dos biopics, retratando diversos heróis da história nos anos seguintes, tais como Benito Juarez ou Emile Zola.  

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sábado, 18 de março de 2017

Sonho de Uma Noite de Verão (A Midsummer Night's Dream) 1935

Teseu vai casar com Hyppolyta, rainha das Amazonas. Demetrius está apaixonado por Hermia, mas Hermia ama Lysander. Helena ama Demetrius. Oberon e Titania, do reino das fadas têm uma ligeira discussão na floresta, mas eles não estão ali sozinhos.Hermia e Lysander têm ali um encontro, Helena e Demetrius também lá estão, assim como um grupo de actores que estão a ensaiar para uma peça que vai ser exibida no casamento de Teseu e Hyppolyta.Devido a alguns mal-entendidos de Puck as coisas vão ficar confusas...
O primeiro filme falado de uma versão de William Shakespeare, "A Midsummer Night’s Dream" ergue-se como uma das criações mais originais da Hollywood dos anos 30. A peça foi originalmente escrita para os palcos de Londres por volta de 1595, com o seguinte slogan: “Three hundred years in the making!”. Este filme, por sua vez, também bate vários recordes. 
Foi a primeira adaptação de uma peça de Shakespeare a ser nomeada para um Óscar de Melhor Filme, embora o viesse a perder para "Mutiny on the Bounty". Foi a primeira e única vez que alguém não nomeado levou um Óscar para casa (aconteceu com o director de fotografia Hal Mohr). Também foi o filme de estreia de Olivia de Havilland, apesar de só ter estreado depois do lançamento dos seus segundo e terceiro filmes: "Alibi Ike" e "The Irish in Us".
Esta interpretação cinematográfica da peça foi inspirada pela produção altamente influente do génio do teatro Max Reinhardt. O próprio Reinhardt tinha descoberto a jovem de 18 anos, de Havilland, numa peça do Mills College em Oakland, e fez questão de a incluir no elenco deste filme, no papel de Hermia.
Na sua ilustre carreira pelos palcos europeus Reinhardt inspirou uma série de cineastas, como F.W. Murnau, Fritz Lang, Ernst Lubitsch, Otto Preminger e William Dieterle Na verdade, Dieterle seria escolhido para co-realizador, porque Reinhardt estava pouco familiarizado com as produções pomposas de Hollywood, e Dieterle tinha chegado a Hollywood cerca de quatro anos antes, e tinha nesta altura já cerca de duas dezenas de filmes realizados, embora a maioria fossem obras menores. O resultado seria uma obra-prima visual que caracterizava uma mistura interessante de estilos, juntando o clássico inglês com a Grécia antiga.
O elenco era formado por algumas estrelas da Hollywood de então, James Cagney, Dick Powell, Ian Hunter, mas quem rouba o filme é um jovem actor chamado Mickey Rooney, com apenas 14 anos, no papel do perverso Puck. É dele a famosa linha “Lord, what fools these mortals be!”

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quinta-feira, 16 de março de 2017

William Dieterle

"Though the director's filmography includes memorably dull biopics (Zola, Pasteur, Juarez and the discoverer of a cure for syphilis) his finest work reveals a flair for romanticism… Though a minor, erratic talent, Dieterle is deserving of more serious critical attention than he has so far received." - Geoff Andrew (The Director's Vision, 1999)

Começou a sua carreira como actor, no teatro de Berlin, juntado-se à companhia de Max Reinhardt, em 1918. Daí para a frente participou em muitos filmes como actor, como "Waxworks" (1924) de Paul Leni, ou "Fausto" (1926), de F.W. Murnau. Em 1923 começou a dirigir, e uma ainda muito nova Marlene Dietrich apareceu no seu primeiro filme, "Der Mensch am Wiege". Na década de 30 Dieterle partiu para os Estados Unidos, tornando-se num artesão de confiança da Warner Bros, com algumas obras notáveis. Em 1935 dirigia a sua primeira grande obra, "A Midsummer Nights Dream", em colaboração com o seu antigo mestre Max Reinhardt. Daqui para a frente tornou-se no favorito do estúdio para trabalhar em biopics, e em poucos anos realizava "The Story of Louis Pasteur" (1936), "The Life of Emile Zola" (1937) e "Juarez" (1939)., todos eles interpretados por Paul Muni, com o actor a conseguir ganhar um Óscar no primeiro, e uma nomeação no segundo.
Em 1939 Dieterle mudava-se para a RKO, mudança que lhe iria valer alguns dos seus melhores filmes, incluindo a melhor versão feita de "The Hunchback of Notre Dame (1939), e "All That Money Can Buy" (1941). Debaixo da influência de David O. Selznick, para a Paramont, realizou ainda dois projectos com Jennifer Jones, "Love Letters" (1945) e "Portrait of Jennie" (1948.
A sensibilidade romântica de Dieterle diz que ele poderia ter sido um realizador de grande sucesso, tal como Douglas Sirk, dos melodramas românticos dos anos 50, mas o seu envolvimento em políticas liberais acabaria por o atraiçoar ficando com o seu nome ligado ao Macartismo. Com pouco mais de cinquenta anos a sua carreira acabaria por entrar em declínio, sendo ele obrigado a regressar ao seu país, onde ainda realizaria alguns filmes, sobretudo para televisão.
Neste ciclo, que não se pretende que seja muito extenso (9 filmes), vamos ver alguns dos melhores filmes da sua carreira nos Estados Unidos. A partir de sábado no M2TM. Espero que gostem.


domingo, 12 de março de 2017

La Pelota Vasca. La Piel Contra la Piedra (La Pelota Vasca. La Piel Contra la Piedra) 2003

Com mais de 100 entrevistas e imagens de arquivo, "Basque Ball" é um documentário incisivo sobre a Espanha, a ETA e a região basca. O realizador Julio Medem é mais conhecido pelas pelas suas histórias de amor elegantemente eróticas, mas neste documentário exaustivo (com sobrecarga de informação), ele oferece-nos uma visão fascinante da política tortuosa da região basca e da região do famoso grupo de terroristas separatistas. 
Controverso ao extremo, o documentário de Medem provocou a censura das autoridades espanholas, com o ministro da culta espanhola a marcar o filme como "suspeito". Esta resposta do ministro era típica das questões a que a questão basca suscita. Felizmente, a abordagem imparcial de Medem chega a ambos lados do espectro político, tratando a complexa teia da história, identidade e política em torno do seu tema com grande maturidade.
Entrevistando uma série de artistas, políticos, padres, activistas, jornalistas e académicos, Medem entrega-nos uma torrente de opiniões contraditórias, pintando uma história vívida, tanto do país basco como do seu status contestado. É uma mistura inebriante de vozes concorrentes: desorientadoras, estonteantes e exigentes. 
Por vezes há tanta coisa a ser atirada ao espectador que é impossível recebê-la toda. Um pormenor importante, é que os representantes do governo de Jose Maria Aznar, e da ETA não estão aqui representados, recusando-se a participar. Assim, com a "guerra do terror" escondida, em segundo plano, e os espectros do atentado de Madrid a acrescentarem um interessa adicional à discussão do filme sobre o terrorismo, este é o documentário oportuno e exaustivo possível. 

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Lúcia e o Sexo (Lucia e el Sexo) 2001

Lúcia é empregada de mesa num restaurante em Madrid. Depois de acabar com uma relação de longa data, procura refúgio numa ilha mediterrânica. Aí, numa atmosfera impregnada de ar fresco e luz, começa a reviver os momentos obscuros desse passado, como se fossem passagens proíbidas de uma novela que o autor, agora, autoriza-a a ler.
Escrito e realizado por Julio Medem, "Lucia e o Sexo" segue uma estrutura similar ao seu filme anterior, o notável "Os Amantes do Círculo Polar", em que o seu significado é composto por imagens, linguagem e narrativa, todas desdobrando-se umas nas outras, e enrolando-se umas nas outras ao mesmo tempo. Os personagens espelham-se e refratam-se uns aos outros, as suas histórias são similares e paralelas etrelaçando-se, fluidas e fragmentadas. Todas as histórias são sobre sexo, a intensidade e intimidade oferecidas pelo sexo bem como a ilusão da segurança. Isto significa, em parte, que o filme está cheio de cenas de sexo consumado, close-ups e explicito, mas tudo muito artistico.
Medem circula sempre tão próximo da linha entre a ficção e a realidade que nunca sabemos realmente o que é real e o que não é. Mas isso também não interessa, o que é realmente importante é o poder do desejo e da sexualidade, as tentações da fantasia. Existem poucos filmes que representam o sexo na tela com maior beleza ou sensibilidade, capturando acima de tudo a diversão do grande sexo. O sexo visualizado por Medem é profundamente feliz e puro, com uma intimidade que estabelece a real afeição entre os seus personagens.

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sexta-feira, 10 de março de 2017

Os Amantes do Círculo Polar (Los amantes del Círculo Polar) 1998

O Destino não pode ser negado. Otto e Anna ainda são míudos quando se conhecem… Encontram-se por acaso, relacionam-se por acaso, numa história de vidas circulares, com nomes circulares e um local "circular"(o Círculo Polar). Neste local o sítio o dia jamais acaba ao sol da meia-noite, á semelhança de outras coisas que não mais acabam, como o Amor! 
Julio Medem cria uma história assombrosamente bonita e intensamente atmosférica sobre o destino e a perdição, em "Os Amantes do Círculo Polar". Semelhante a "A Dupla Vida de Verónica", e "Vermelho", de Krzysztof Kieslowski, na medida em que expõe os seus temas
circulares e padrões recorrentes. Além da história se desdobrar numa narrativa circular, os eventos específicos também se repetem dentro da narrativa do filme, contadas a partir de perspectivas diferentes, por Ana e Otto. Episodicamente o filme começa e termina com a imagem de Otto reflectida nos olhos de Ana. Os seus nomes palindrómicos e os encontros com o honónimo de Otto, Otto Midelman (Joost Siedhoff), refletem ainda a estrutura circular do filme. No monólogo de abertura de Ana, ela pergunta: "Podes correr de volta? Algumas horas atrás, uma vida de volta?".
Na terra do sol da meia-noite, na surrealidade do Circulo Ártico, ainda não se está longe o suficiente para escapar do destino Se o coração é um caçador solitário, também circula em todas as direcções. Uma vez crescido e atirado fora através de todo o tipo de trauma emocional, Otto e Ana procuram um pelo outro. É uma jornada fascinante, cheia de ironia e discernimento, levando à noite do ano em que o sol nunca se põe.
 
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quinta-feira, 9 de março de 2017

Terra (Tierra) 1996

"Tierra" abre com uma viagem hipnótica através do espaço, enquanto a câmara sobe através da atmosfera etérea, descendo para uma área agrícola, para, de seguida, se concentrar num viajante solitário que está a ter uma conversa motivacional consigo próprio. Uma localidade foi infestada por uma praga de insectos, conferindo um sabor a terra ao vinho produzido localmente. Um exterminador, um homem que se auto-descreve como complexo chamado Angel (Carmelo Gomez), foi contratado pelo presidente para fumigar a região. A voz interior de Angel, o anjo figurativo do seu subconsciente que morreu mas voltou a existir dentro do seu eu corporal, acredita que foi enviado para a terra numa missão divina. 
O argumento surreal de "Tierra" pode ser uma alusão ao seu compatriota Luis Bunuel, mas a história subjacente é exclusivamente de Julio Medem. Em "O Objecto Obscuro do Desejo", de Bunuel, o protagonista  Mathieu (Fernando Rey) é um homem vil e hipócrita que tenta incansavelmente conquistar a atenção de uma jovem esquiva chamada Conchita, e é a sua ambivalência  que se reflete na vacilação física das duas actrizes que interpetam o papel, Carole Bouquet (fria e recatada) e Angela Molina (sensual e agressiva). Em "Tierra" Angel está dividido entre a doce e melancólica Angela (Emma Suarez), a esposa negligenciada de um agricultor chamado Patricio (Karra Elejalde), e a sensual e desinibida  Mari (Silke), amante de Patricio. Ao contrário da obsessão de Mathieu, Conchita, cuja personagem é interpretada por duas actrizes diferentes, o objecto do desejo de Angel são duas mulheres diferentes, e é o protagonista que sofre de uma personalidade dividida. À medida que Angel é gradualmente seduzido pela encantadora e brincalhona Mari, o seu anjo omnipresente é cada vez mais atraído pela alma e o calor de Angela. Com um conflito tão polarizado dentro da sua própria mente, a decisão de Angel assume um significado maior do que a simples selecção de uma amante, tornando-se uma luta metafórica pela posse da alma. 
A capacidade de Medem em trabalhar em trabalhar em múltiplos níveis de significado entrelaçando eventos internos e externos, eleva "Tierra" do estigma de servir como filme de homenagem. Estruturalmente Medem não transmite a história através de uma narrativa circular ou elíptica. O filme em essência desdobra-se sobre si próprio. O dilema de escolher entre Angela e Mari é uma manifestação da luta interna dentro de Angel pela posse da sua alma, e reflete a sua própria personalidade dividida. "Tierra" é um filme assombroso, uma viagem fascinante ao mundo estranho do comportamento humano - atração e ligação, amor e ciúme, o espiritual e o corporal.

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terça-feira, 7 de março de 2017

La Ardilla Roja (La Ardilla Roja) 1993

Jota está quase a cometer suicídio. Enquanto trava uma luta contra si próprio para se atirar de uma ponte uma jovem cai de uma ponte enquanto conduzia uma moto. Jota corre para ajudá-la, e vai com ela até ao hospital. Ela não se lembra de nada, nem do seu nome, e Jota inventa-lhe uma vida, dá-lhe um nome, e conta-lhe que vivem juntos desde há alguns anos como um casal. A questão é, até quando pode durar esta mentira?
Julio Medem apresenta-nos um filme inteligente e perspicaz sobre a natureza do amor e da ilusão. Através da imagem recorrente da água Medem cria uma metáfora visual para a imagem criada e insustentável de Jota sobre Lisa:a sequência de abertura de um nadador subaquático, o reservatório no lago na parque de campismo, a referência lúdica de Jorge sobre Lisa como "sereia", a imagem de um carro a mergulhar no mar. Em essência, a amnésia de Lisa fornece a oportunidade perfeita para criar figurativamente um ideal semelhante a "Pigmaleão", uma mulher que foi mentalmente modelada do amor não realizado de Jota, e da sua relação falhada. No entanto, ao contrário de Galatea, o que resulta é uma imagem superficial e vazia de uma fantasia elusiva, e inevitavelmente, é o enigma da identidade real de Lisa que o atormenta.
O segundo filme de Julio Medem foi exibido no Festival de Cannes, onde ganhou o Prémio da Juventude. Os protagonistas Emma Suárez e Nancho Novo eram actores recorrentes na filmografia de Julio Medem, assim como alguns secundários. A presença de Maria Barranco no elenco também é uma boa ajuda.

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segunda-feira, 6 de março de 2017

Vacas (Vacas) 1992

A acção começa em 1875, nas trincheiras da Biscaia. Manuel (Carmelo Gomez) é um soldado novato, saído de uma quinta basca perto de uma floresta. Quando o seu vizinho, o sargento Carmelo (Karra Elejade) fica a saber que ele entrou no seu batalhão torna-se seu amigo, desesperado por notícias do seu recém-nascido filho. Manuel não foi feito para lutar, e em pouco tempo a sua covardia trás trágicas consequências, que mergulharão a sua família em décadas de disputas. Passam-se trinta anos, e os filhos destes homens continuarão a disputa iniciada antes.
Na sua longa-metragem de estreia, Julio Medem cria uma pesquisa interessante sobre o tema do amor, e uma visão inteligentemente elaborada e visualmente estimulante sobre o tema do dever, e do nacionalismo. O título do filme refere-se à omnipresença passiva das vacas, e serve também como uma alusão contrastada à tradição nacional das touradas. Usando a repetida perspectiva de um espectador, filmado através da simulação de uma dioptria circular, Medem dá-nos uma crónica objectiva que capta a coexistência da paz e da violência, amizade e traição, tranquilidade e caos. Confrontando a rivalidade das familias Mendiluze e Iriguibel no contexto da história espanhola, Medem ilustra ainda a natureza cíclica da luta não resolvida, e da aliança vacilante usando o mesmo actor para retratar várias gerações de personagens. Nota-se a transformação do actor Carmelo Gómez no covarde Manuel Iriguibel nas guerras carlistas, no filho de Manuel, Ignacio, em 1905, e eventualmente no fotógrafo maduro Peru Mendiluze, que regressa à região basca no inicio da Guerra Civil Espanhola, em 1936. Enquanto o filme segue a estranha união dos soldados bascos com os monarquistas e a igreja católica durante as guerras carlistas, à aliança invulgar com os socialistas e comunistas para a preservação da república contra as forças fascistas lideradas pelo general Franco durante a Guerra Civil Espanhola, Medem apresenta um relato imparcial, mas profundamente pessoal e provocador, da continua devastação, nacionalismo e aliança inconstante do povo basco, enquanto lutam pelas causas aparentemente indescritíveis da autonomia, autodeterminação e identidade cultural. 

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domingo, 5 de março de 2017

O Mundo Mágico de Julio Medem

Julio Medem é um fabuloso contador de histórias. Os seus filmes de extrema complexidade apenas são igualados pelo seu simbolismo - o que não quer dizer que sejam difíceis de serem vistos, muito pelo contrário. Sensuais, estimulantes, por vezes eróticos, ocasionalmente cómicos, os filmes de Médem convidam o espectador a se sentar, relaxar, e deixarem-se envolver pelo som e as imagens.
Medem apaixonou-se pelo cinema quando viu "O Espírito da Colmeia", do grande realizador basco Victor Erice. Inspirado por este filme pegou na câmara de super 8 do seu pai, e começou a fazer os seus próprios filmes, depois de já ter terminado um curso de medicina. Acabou por fazer a sua primeira longa metragem em 1992, "Vacas", já com 34 anos.
Os seus filmes lúdicos, eróticos e poéticos renderam-lhe uma reputação de um dos mais metafisicos realizadores do cinema moderno. O conflicto interno é um tema recorrente nos seus filmes de ficção que fez desde que se separou do seu pai autoritário com 21 anos. Muitas das suas histórias transformam-se em mentiras, enquanto as suas obsessões crescentes com o mito se desenvolveram ao lado do seu nacionalismo basco. Nesta altura, depois da transição da Espanha para a democracia, após a morte do General Franco em 1975 e o fim da ditadura, a maioria dos filmes bascos foram épicos históricos projectados para propagar uma noção dramática da nação basca. Medem trabalhou como assistente de realização e montador num filme sobre as guerras carlistas do século XIX, antes de subverter esses mesmos mitos e histórias em "Vacas", de 1992. Nesta sua primeira longa-metragem as suas obsessões temáticas e visuais aparecem já totalmente formadas: subjectividades e a dança romantico-violenta entre aqueles que amam e aqueles que odeiam, cuja atração e repulsão mantém a narrativa caracteristicamente girando em ciclos.
Nos próximos dias vamos conhecer um pouco do mundo mágico de Julio Medem, e vamos ter oportunidade de ver as suas primeiras cinco longas-metragens. Espero que gostem.


Coonskin (Coonskin) 1975

Um pregador (Charles Gordone) e o seu amigo Sampson (Barry White) dirigem-se para uma prisão distante onde esperam trazer de volta o amigo Randy (Philip Michael Thomas), de uma fuga da cadeia. Randy conseguiu alcançar o outro lado do muro com a ajuda de outro prisioneiro, Pappy (Scatman Crothers), mas Pappy não está lá muito convencido do plano de Randy, principalmente se Sampson e o pregador não chegarem a tempo. Enquanto esperam junto ao muro, Pappy conta a Randy a história de três homens, Rabbit (Thomas), Fox (Gordone), e Bear (White) que viajaram da sua terra natal conhecer a grande vida que os negros do Harlem supostamente vivem. Em vez do paraíso encontram um sitio podre, cheio de ressentimento e de raiva, onde as pessoas estão mais interessadas a lutar umas contra as outras para ganho pessoal, do que rebelar contra a opressão branca.
Durante muitos anos "Coonskin", de Ralph Bakshi, foi considerado um filme perdido. Depois do filme estar terminado, em 1975, membros do Congresso de Igualdade Racial, lidarados por Al Sharpton e Elaine Parker, fizeram pressão para o cancelamento da estreia do filme, apesar da maioria dos membros não o ter visto. Depois de uma exibição no Museu de Arte Moderna, que foi abalada por um piquete, a Paramont concordou em passar os direitos para outra empresa, a Bryanston, que faliu duas semanas depois do acordo ter sido assinado. Assim, durante muitos anos, entre 1975 e 2012, o filme só podia ser visto em cópias em VHS. 
Realizado por Ralph Bakshi, o autor de "Fritz, the Cat", a idéia do filme vinha do interesse do realizador pela história afro-americana nos Estados Unidos, e era focada no racismo e nos estereótipos racistas. Quando uma certa tendência filmica atinge o ponto de saturação começa a ser satirizada, e foi isso que aconteceu com a blaxploitation, da qual ainda faz parte este filme. Uma mistura surpreendentemente imunda e violenta de live-action e animação, é parte conto de fadas, parte drama de crime, ainda estendendo um olhar ao estilo de vida racial ao longo do caminho.
Apesar de tudo o que possam dizer dele, ou disseram no passado, "Coonskin" é uma desconstrução inteligente e pungente não apenas do individuo afro-americano, como também dos pobres caucasianos ruais, italo-americanos, homossexuais, entre muitos outros. E contava com grandes prestações do músico Barry White, na sua única aparição como actor, e Charles Gordone, que ficaria conhecido como o primeiro negro a ganhar o prémio Pulitzer. 

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sexta-feira, 3 de março de 2017

Truck Turner (Truck Turner) 1974

Truck (Isaac Hayes) é um caçador de recompensas que aceita um trabalho para localizar um homem chamado Gator. Quando Truck e o seu parceiro o encontram uma perseguição acontece, e Gator acaba por morrer. Isto faz com que a mulher de Gator, Dorinda, fique muito irritada e coloque, ela própria, a cabeça de Truck a prémio. O homem que concorda em matá-lo chama-se Blue, e parte com o seu gang no encalce de Truck.
Isaac Hayes não se contentou com os bastidores do cinema de  Blaxploitation, a escrever bandas sonoras para filmes deste movimento, que ainda pouco tempo antes lhe tinha rendido um Óscar para a melhor canção original, com o tema-título do filme "Shaft". Ele queria espalhar o seu talento, e Hollywood deu-lhe a hipótese de protagonizar um filme ainda muito cedo, este "Truck Turner". Provou ter carisma  neste filme, e acabou por se tornar  num actor de Hollywood, com um currículo recheado de filmes nos anos seguintes, até à data da sua morte, em 2008.
Jonathan Kaplan, um branco no meio de um movimento de negros, e que mais tarde ficaria conhecido por realizar "Os Acusados", o filme que valeu o primeiro Óscar a Jodie Foster, conduz bem a história, cheia de acção e violência que eram habituais neste tipo de obra. Tiroteios com proxenetas, prostitutas com facas, violência aleatória contra um gato doméstico, vale de tudo para encaixar mais uns dólares, e manter vivo o espírito negro do cinema da altura. Mas "Truck Turner" era mais do que isso, era um filme bem acima da média, e que vale a pena descobrir. Destaque ainda para Yaphet Kotto no papel de blue, e dois actores que seriam bastante reconhecidos como secundários: Scatman Crothers e Dick Miller.
Legendas em espanhol.

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quarta-feira, 1 de março de 2017

The Mack (The Mack) 1973

Goldie regressa às ruas depois de cinco anos em numa prisão, e torna-se o rei entre os proxenetas. Entretanto, deve enfrentar dois policiais brancos corruptos e um grande chefe do crime organizado, que o quer de volta como empregado.
Embora seja normalmente agrupado entre os filmes da Blaxploitation, "The Mack" está ligeiramente separado deste subgénero, devido à sua história mais séria, e ao profundo comentário social, que não era habitual nos filmes deste movimento. É mais um estudo de uma personagem, retratando a queda, subida, e novamente queda de um negro saído da prisão que se torna um dos maiores proxenetas da sua área, uma dica que Oliver Stone seguiria mais tarde com "Scarface". Foi um filme muito bem sucedido no seu tempo, apesar de não carecer dos valores de produção de "Shaft", da MGM, ou o impacto dramático de "Superfly", mas muitas das suas idéias sobre a capacitação em vingar na vida de um homem negro levaram o filme a um estatuto de culto, reconhecido por muitos críticos e especialistas. 
Michael Campus, um antigo documentarista, adopta uma abordagem mais pessoal ao argumento muita vezes revisto e improvisado de Robert J. Poole, mostrando todas as personagens como pessoas plenamente realizadas, cada uma delas com as suas próprias fraquezas e forças, nenhuma delas é branca ou preta em termos de idealizações, mas sim cinzentas, tanto no sentido figurativo como literal. O personagem principal, interpretado por Max Julien, traz a combinação certa de inteligência e percepção, para acreditar que podia fazer o que quisesse se simplesmente colocasse a sua cabeça a pensar.
Num período em que os filmes roubam tanto uns aos outros, "The Mack" emerge como um dos mais únicos, e apesar de não ter a estrutura para ser considerado um grande filme, para audiências maiores, vale sem dúvida uma espiadela, e não apenas para os fãs da Blaxploitation.
Legendas em espanhol.

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terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Foxy Brown (Foxy Brown) 1973

Um dos filmes mais marcantes do cinema de blaxploitation, Foxy Brown é, talvez, o filme mais popular de Pam Grier, e dos mais populares do género. Grier (Black Mama Branco Mama, Jackie Brown) é a personificação de Foxy Brown - sexy, forte, e alternativamente capaz de seduzir ou maltratar o pior dos homens. Aqui ela interpreta a namorada de um ex-agente federal disfarçado, que foi baleado e dado como morto pelos senhores do crime local. Algumas semanas no hospital e algumas cirurgias plásticas mais tarde, ele pode andar de novo pelas ruas, sem medo de ser reconhecido, como Michael Anderson - ou assim pensa. O irmão de Foxy, Link (Antonio Fargas), tem um preço pela sua cabeça, e para consertar as coisas, denuncia Dalton...
Foxy Brown é um filme de culto para muita gente, especialmente para os fãs de Grier, ou do realizador Jack Hill, ou para o cinema de blaxploitation da década de 70. Como em muitos filmes deste género, a falta de qualidade das interpretações nunca permite que ele ser convincentemente realista. Pelo contrário, é o tipo de filme que gostamos pelas suas falhas, em vez das suas qualidades. O diálogo, muitas vezes horrível, o guarda-roupa tolo, as lutas amadoras, caracterizações excêntricas, e Pam Grier mudando de roupa de uma cena para outra, e se isso for suficiente para entretê-lo, então este é um filme a não perder.
Tal como a colaboração entre Hill e Grier anterior, "Coffy", Foxy Brown é muito violento e sangrento, embora nunca pareça ser muito sério nesse sentido. A reputação de Foxy Brown trancende a sua qualidade real, então se estiverem à procura de um bom filme, vão por certo ficar decepcionados. No entanto, se estiveram apenas à procura de acção, excitação, porrada, e uma enorme variação de estilos dos anos 70, Foxy Brown definitivamente encaixa-se no pretendido

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