quinta-feira, 30 de julho de 2015

Crimes do Futuro (Crimes of the Future) 1970

Um jornalista, curiosamente chamado de Adrian Tripod, investiga a morte de quase todas as mulheres adultas na terra. Descobre que as mortes podem ter sido causadas por cosméticos venenosos, fabricados por uma empresa que também está envolvida na gestão de uma rede internacional de prostituição juvenil.
Realizado por David Cronenberg com um orçamento quase mínimo, é a segunda aventura do realizador no campo da realização, depois de "Stereo". Filmado a cores e a 16 milímetros, usando a arquitetura moderna de Toronto, e, no fundo, é um pseudo-documentário mudo com uma voiceover como narração, numa voz com pouca emoção. É um filme de sci fi surreal, apresentado como uma farsa de humor negro.
Cronenberg neste filme escolar imaturo explora um mundo de mutações genéticas, e apresenta temas que no futuro serão parte importante da sua obra, como a incapacidade do homem moderno de tratar de doenças que ele próprio causou, corpos monstruosos, e problemas de cariz sexual. É, sobretudo, um filme para os fãs mais antigos do realizador, que provavelmente não conhecem esta obra.

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quarta-feira, 29 de julho de 2015

Umut (Umut) 1970

"Umut" é a história de um homem analfabeto, e da sua família, cuja existência depende do seu salário como taxista de charretes. Quando um dos seus cavalos é morto por um carro, e quando fica claro que nem a justiça nem a caridade o irão ajudar, o homem, interpretado por um dos realizadores, Yilmaz Güney, começa uma lenta queda para o desespero. Seguindo o conselho de um homem santo local, e alimentado por um optimista incansável, ele parte para o deserto em busca de um tesouro mítico perdido.
Parte realismo social na sua descrição da situação dos mais desfavorecidos contra a economia transformada de uma Turquia cada vez mais modernizada, e parte existencialismo poético no retrato psicológico de um homem desesperado prestes a sucumbir à fé ilusória, "Umut" de Yilmaz Güney e Serif Gören capta o ambiente precário de uma nação numa encruzilhada política e económica.
Nunca estreou em Portugal ou no Brasil, e esta dupla de realizadores só conseguiu fama internacional quando venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 1982, com "Yol". Ainda estávamos a 10 anos de distância, e nesta altura era difícil a filmes turcos de serem exibidos fora do país.
Uma nota de interesse, a casa do personagem principal é também a casa onde Yilmaz Güney cresceu. 

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A Vontade de Um General (Uomini Contro) 1970

Norte da Itália, a Primeira Guerra Mundial atravessa um impasse sangrento. Atolados nas suas trincheiras, é dado um objectivo a uma divisão de infantaria italiana: retomar um alto posto de comando que está nas mãos do inimigo. Infelizmente, a ingenuidade táctica do General Leone, o pouco popular comandante da divisão, consiste em atacar o inimigo com ataques frontais contra poderosas metralhadoras. As tropas estão desmoralizadas, o número de vítimas aumenta, e a indignação espalha-se entre as fileiras. Perturbado pela decisão dos seus superiores, o tenente Sassu é progressivamente levado a questionar-se sobre o propósito da guerra...
Realizado por Francesco Rossi, "Uomino Contro" está provavelmente, para sempre destinado a ser comparado com "Paths of Glory" de Stanley Kubrick, e as similaridades não são apenas superficiais. Em primeiro lugar sublinham a desumanidade pura e absurda do que era lutar nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, através de uma variedade de técnicas formais cuidadosamente afinadas, para chegarem a uma condenação apaixonada, e persuasiva da guerra. Mas o filme de Kubrick nunca atinge os níveis de raiva ostensiva que o de Rosi atinge. A fúria da guerra é visceralmente sentida cena após cena, num movimento pulsante, e numa explosão sonora.
Sendo um filme de Francesco Rossi, tem contornos políticos, e a presença habitual de Gian Maria Volonté num dos principais papéis.

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A Orelha (Ucho) 1970

Uma breve noite paranóica na vida de  Ludvík (Radoslav Brzobohatý) e Anna (Jiřina Bohdalová), um casal cáustico. Ludvík é um oficial do ministério que se encontra sob suspeita quando o seu superior e outros colegas são presos e detidos para interrogatório. Ao chegar a casa, depois de cumprir funções no partido, ele e Anna encontram a energia e o telefone desligados. Também há carros estacionados perto, e homens rondando o jardim. O pânico instala-se dentro da casa escura e desarrumada, e o casal teme que a "orelha" ouça tudo o que eles dizem e fazem.
Realizado pelo checo Karel Kachyna, "Ucho" teve de esperar 30 anos para finalmente ser visto, no festival de Cannes de 1990. Kachyna escreveu, dirigiu e produziu um filme que audaciosamente questionava os métodos do Partido comunista. Filmado a preto e branco, este estudo sobre a paranoia e o desespero foi compreensivelmente proibido pelo Pacto de Varsóvia pouco tempo depois de estar terminado. 
Um belo exemplo do cinema político que se fazia na Europa do leste nesta altura. 

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terça-feira, 28 de julho de 2015

Anos Setenta, Esses Esquecidos...



A década de setenta abria com Hollywood a passar por uma depressão financeira e artística, mas acabou por se tornar um ponto alto criativo na produção cinematográfica. Restrições à linguagem, conteúdo adulto, sexualidade, violência, soltaram-se e tornaram-se mais difundidos. O movimento hippie, o movimento dos direitos civis, o amor livre, o crescimento do rock and roll, a mudança de sexo, e o uso de drogas tiveram um grande impacto nas mentalidades, e no cinema em si. Hollywood e o cinema renasceram com o colapso anterior do cinema de estúdio e as obras de muitos jovens e experimentais cineastas tornaram-se mais difundidas.
A contra-cultura da época ensinou o cinema a ser mais livre, a assumir mais riscos, e a experimentar novas alternativas. Muitas das audiências do final dos anos 60, já tiveram um vislumbre de novas possibilidades, novas técnicas de contar histórias e opções artísticas mais significativas, pelas influências dos movimentos das "novas vagas" europeias, e obras originais de cineastas de outras línguas.


No mês de Agosto o "My One/Two Thousand Movies" completa 7 anos a distribuir filmes pelas gentes da língua portuguesa, e para comemorar o facto convida os seus leitores a uma viagem pelos anos da década de 70, mas uma viagem ao contrário. Vamos deixar de lado todos esses grandes sucessos, quer de crítica como de público, os premiados e Óscarizados, e vamos ver os menos conhecidos. Primeiras obras ignoradas de futuros grandes realizadores, últimas obras de realizadores esquecidos, obras intermédias que foram um fiasco, ou filmes simplesmente esquecidos. Vai ser uma longa viagem pela contra-contra cultura dos anos 70, onde visitaremos os quatro cantos do mundo.

Ao todo serão setenta filmes, que serão postados aqui a um ritmo muito maior do que é normal, e por isso com textos mais curtos, mas sobretudo, esperemos que seja uma viagem divertida. Obrigado a todos por seguirem o blog, e o ciclo começa já amanhã, até ao fim de Agosto. Espero que gostem.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Tirania (Goyokin) 1969

Tatsuya Nakadai interpreta um samurai perseguido pela culpa pela sua parte inconsciente no massacre de uma pequena aldeia. Agora é um ronin, e fica a saber que o seu antigo clan pretende fazer outro massacre a outra aldeia. Determinado a detê-los, ele irá passar por grandes dificuldades, na tentativa de se redimir do erro do passado.
"Goyokin", de Hideo Gosha, é um filme absorvente, incrível visualmente, embora pouco visto, de entre os filmes de samurais, que consideras temas como a honra, o dever e a lealdade, mas fá-lo com um toque dinâmico, e uma sensação não muito subtil de indignação com o derramamento de sangue, para ganho pessoal ou político. 
Ao longo do filme, Gosha encontra maneiras criativas de ensaiar a acção (uma sequência envolvendo um Nakadai capturado é extremamente inteligente), com confiança,  que demora o seu tempo para que o público compreenda os pormenores do que está a acontecer, e usando o mesmo método de Kurosawa, que coreografava as suas cenas de modo a que o espectador pudesse perceber o local geográfico onde estavam situados, e a relação entre os personagens que estavam de cada lado.Outros aspectos da produção eram impecáveis, como a fotografia deslumbrante de Kozo Okazaki, ou a superba banda sonora de Masaru Sato.
O filme parece ter sido uma colisão feliz de talentos de fontes diferentes. Era uma co-produção entre a Tokyo Eiga (uma divisão da Toho) e a Fuji Television, com quem Gosha tinha contrato. A maior parte dos actores eram free-lancers, embora Ruriko Asaoka há anos que tinha contrato com a Nikkatsu, e Natsuyagi  fosse emprestado pela Toei. O sucesso desta e de outras grandes produções do final dos anos sessenta levaria a mais do mesmo em 1970-71, muitas vezes com combinações entre Nakamura, Asaoka, Toshiro Mifune, Shintaro Katsu, e Shintaro Ishihara, mas nenhum deles iria atingir a grandeza de "Goyokin".
 

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domingo, 26 de julho de 2015

Kill! (Kiru) 1968

Dois Ronins Genta (Nakadai) e Hanjiro (Takahashi) viajam até uma cidade empoeirada atraídos pelo facto de saberem que um chefe local procura espadachins. Uma vez lá ficam a saber que este chefe é um bandido, e cruza com sete jovens samurais, que pretendem assassinar o chefe.Genta avisa os sete jovens sobre o mal que eles estão a fazer, e é ignorado. Os dois ronins vão dar consigo em diferentes lados da barricada, quando Hanjiro se junta ao lider local Ayuzawa (Koyama), e Genta fica com os jovens samurais. Ayuzawa ordena aos seus homens para localizarem os samurais, e contrata um grupo de ronins para os matarem.
Realizado por Kihachi Okamoto, é um filme reminiscente do spaghetti western, salpicando a sua história de sete aprendizes de samurais em luta contra um corrupto poderoso, com uma banda-sonora muito peculiar de Masuru Sato, claramente influenciada por Morricone, e onde não faltam as cidades empoeiradas dos spaghetti westerns. De facto, pode ser visto como próximo da sequela de "Yokimbo", "Sanjuro", já que ambos os filmes partilham a mesma fonte. No entanto, enquanto "Sanjuro" girava em torno da personagem de Mifune, falta ao filme de Okamoto o foco numa personagem idêntica, e é fácil para o espectador se perder no meio das duplas e triplas traições que ocorrem ao longo do enredo. Mas, para um filme desta envergadura, o enredo acaba por ser o menos importante, já que a acção é para onde deve estar virada a nossa atenção.
Em vez de defender a lealdade e o serviço como a maioria dos filmes de samurais fazia, termina com os samurais a deixarem o seu mestre, e as prostitutas e as prostitutas libertadas das suas obrigações. Em 1968, um filme com esta mensagem, tinha muito mais a ver com os ideais de JFK ou Martin Luther King. Com todo este material intelectual, as lutas também acabam por ser muito bem feitas, e o humor funciona como o de muitos filmes cómicos americanos. E depois, também temos o prazer de ver um Tatsuya Nakadai em forma, que é sempre um filme dentro de outro filme.

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Samurai Rebellion (Jôi-Uchi: Hairyô Tsuma Shimatsu) 1967

No Japão, em 1725, durante um tempo de paz, Isaburo um samurai veterano pertence a um clã local, leva uma vida tranquila com o filho e a esposa. Mas um dia, a sua honra e os seus princípios morais entram em conflito aberto com os do seu clã. O confronto é inevitável e vai ter consequências inesperadas.
Masaki Kobayashi apresenta-nos um exame sublime e assombroso da desumanidade, conformidade e abuso do poder, em Samurai Rebellion. Através de composições altamente formalizadas e meticulosas, Kobayashi reflecte o rígido código de conduta, o comportamento estruturado e a supressão da vontade individual que definem a existência diária sob o domínio de Tokugawa. As sequências panorâmicas em exteriores contrastam com o isolamento do interior do país, que servem também para reforçar um sentimento de aprisionamento e inevitabilidade da classe social, a intrasigência de Takahashi em aceitar a recusa da oferta a  Isaburo.
Em "Samurai Rebellion", tal como no mais famoso filme de Kobayashi, "Harakiri", todo o sistema político do Japão feudal, e o código samurai de fidelidade (Bushido),são colocados em conflito directo com as bases sociais mais íntimas do casamento e da família. Desta forma, Kobayashi expõe a falência moral e a falta de compaixão de um código que não valoriza o ser humano individual. Ichi é a catalisadora desta revelação. A sua união sexual com Matsudaira é falsa porque não é construída sobre o amor e respeito mútuo. O bushido falha como sistema para governar as suas vidas de verdadeiros seres humanos, quando se exige que deixe um verdadeiro relacionamento a fim de proteger a honra.
Ganhou o FIPRESCI Prize no festival de Veneza de 1967.

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quinta-feira, 23 de julho de 2015

Harakiri (Seppuku) 1962

No Japão feudal do século 17, Hanshiro Tsugumo (Tatsuya Nakadai), um velho samurai desempregado, bate à porta de um poderoso senhor. Recebido por Kageyu Saitô (Rentarô Mikuni), o líder do clã, Tsugumo pede-lhe permissão para cometer suicídio por harakiri na sua residência. Mas quando o velho samurai indaga sobre um samurai mais jovem que cometeu suicídio, um pouco antes da sua chegada, as coisas tomam um rumo inesperado.
"Seppuku" é uma história de tradições injustificadas que levam a actos vergonhosos e mortes. É uma crítica à sociedade japonesa dos anos sessenta, que uma uma história de samurais como objecto, mas cujos principais pontos são mais comuns tanto ao ocidente como ao oriente dos dias actuais, assim como a idéia de trabalhar uma vida inteira para uma empresa, já não existe. O filme explora muitas questões, incluindo obrigações conflitantes, a adesão ao ritual e à tradição, honra virtual vs. honra verdadeira, corrupção política, a lealdade para com a profissão vs lealdade para com a família.
Masaki Kobayashi não se opõe ao gosto pelos filmes violentos, por isso ele não vê qualquer necessidade de destruir o envolvimento do público ou tornas as sequências de batalha extremamente desagradáveis com excesso de gore, ou abuso de efeitos especiais. As lutas são espectáculos deslumbrantes e absolutamente emocionantes de se ver, principalmente graças ás horas de montagem que levaram o filme a ser concluído.
"Harakiri" é uma pequena obra-prima com uma tensão em crescendo, revelando os factos progressivamente, e com contenção cinemática, cujo drama é potentemente infundido com conotações político-sociais, nada paradas no tempo e no lugar.
Kobayashi dois anos mais tarde viria a realizar outro dos grandes filmes japoneses dos anos sessenta, "Kwaidan", e aqui ganhou o grande prémio do Jurí no Festival de Cannes, de 1963.

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quarta-feira, 22 de julho de 2015

Sanjuro (Tsubaki Sanjûrô) 1962

"O sucesso comercial e de crítica de "Yojimbo" foi tal que Akira Kurosawa foi pressionado a escrever, contra vontade, uma sequela. Os elementos marcantes no primeiro filme (mistura inusitada entre comédia, tragédia e ultra-violência) mereceriam um novo doseamento em "Sanjuro": em termos de swordplay, menos quantidade, mais qualidade; o negrume seria quase extirpado, em virtude de um acréscimo de humor físico, entre o slapstick e a auto-caricatura.
 "Sanjuro" é um entretenimento assumidamente light, ao pé de "Yojimbo", sem, no entanto, fugir àquilo que é apanágio desta faceta da obra de Kurosawa: narrativa inteligente e simples, acção minuciosamente coreografada e personagens carismáticas.
Na realidade, apesar de ambos serem autênticos cocktails cinematográficos (western + musical + filme de acção puro e duro), "Sanjuro" é assumidamente mais directo e acessível que "Yojimbo": a acção e a comédia consomem cada partícula do filme, não havendo tanta preocupação em retratar as personagens e o seu modus vivendi na sociedade japonesa de meados do século XIX.
O filme começa com um grupo de 9 jovens, e inexperientes, samurais dispostos a arriscar as suas vidas no combate contra a corrupção. A sua reunião é interrompida pela intromissão de Sanjuro, que, aparentemente de forma desinteressada, se junta ao grupo. O seu sangue-frio e argúcia tornam-no num líder incontestável no seio do movimento, mas, do lado dos "maus", haverá quem lhe faça frente. E é o duelo final, aquele que Kurosawa descreveu no seu argumento como sendo "inefável", o zénite de "Sanjuro": a simetria e a suspensão irrespirável que se estilhaçam num golpe relampejante. Kurosawa não cedeu, mesmo após dois filmes, e manteve Sanjuro, ou o "homem sem nome", que vai e vem, deixando um rasto de sangue atrás, como um invencível Deus da guerra. Não me interpretem mal, Sanjuro é justo e bom, mas também é alguém que odeia a paz: enquanto esta subsistir, ele diz "See ya later"."
Por Luís Mendonça, daqui.

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terça-feira, 21 de julho de 2015

Yojimbo, o Invencível (Yojimbo) 1961

Sanjuro, o samurai solitário, qual John Wayne nipónico, chega a uma pequena comunidade, dividida entre dois gangs, com um objectivo em mente: negociar o seu futuro. A sua chegada é notada, depois deste exibir uma extrema agilidade no manejo da espada, deitando abaixo, sem pestanejar, um punhado de malfeitores. O sangue-frio e a forma implacável como ceifa vidas - "uma morte por segundo", queria Kurosawa - fazem deste o mais cobiçado guerreiro da vila. Mas Sanjuro é arguto, tacteando cinicamente o terreno nos dois lados da barricada, antes de tomar partido.
"Yojimbo" é um filme de acção, pincelado com um humor negro mordaz, ou um western tresloucado e, para o seu tempo, ultra-violento (membros decepados e algum sangue jorrado) desenrolado em pleno Japão do século XIX. O (anti-)herói desta trama é apresentado como sendo o mais consciencioso "homem de guerra", enriquecendo à custa dos autênticos massacres que executa. Mas até tem, vamos descobrindo, o coração no sítio...
Na senda de "Seven Samurai", Akira Kurosawa cria um objecto raro: visual e sonicamente assombroso, com a utilização magistral do widescreen e de efeitos sonoros inovadores (para além dos temas musicais desconcertantes, o som do esquartejar da espada e do vento empoeirado são elementos fulcrais nas cenas de acção) e exemplar na escrita, pejada de reviravoltas, jogos mentais e algumas deliciosas bizarrias (exemplo da buñueliana "mão de boas-vindas" que Sanjuro vê na boca de um cão vadio, mal entra na conturbada vila).
Para mais, "Yojimbo" vai beber ao carisma imenso do seu actor principal, o braço direito de Kurosawa: Toshirô Mifune. Ele reinventa o género do cowboy solitário, lacónico (falando, sem falar), cerebral e, acima de tudo, cool. Em certa medida, esta composição de Mifune esteve na origem da carreira de Clint Eastwood, já que "Per un pugno di dollari" de Sergio Leone, o seu primeiro grande sucesso, é um remake de "Yojimbo".
O círculo completou-se em 2006, quando Eastwood homenageou o legado Kurosawa-Mifune com uma obra colossal: "Letters From Iwo Jima".
Por Luís Mendonça, daqui.

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segunda-feira, 20 de julho de 2015

A Fortaleza Escondida (Kakushi-Toride no San-Akunin) 1958

A princesa Yukihime sobreviveu à destruição da sua família na sequência das grandes guerras civis que assolavam o Japão feudal e esconde-se nas montanhas, fazendo-se passar por uma simples camponesa. Sob a protecção do general Rokurota, a princesa - que conseguiu esconder parte do ouro que pertencia ao fabuloso tesouro da sua família - parte em busca de um território seguro e de um foraleza secreta. Dois marginais errantes, Tahei e Matashiki, juntam-se à princesa e ao general nesta incrível odisseia recheada de perigos e aventuras.
Há sempre um ligeiro choque estético ao assistir a um filme de Akira Kurosawa. As suas obras, mesmo que sejam de entretimento, como este "A Fortaleza Escondida", são tão sensualmente vivas, e hoje em dia parecem muito mais modernas do que os filmes de Hollywood daquela época. "A Fortaleza Escondida" é um épico de comédia de acção, produzido pelos Toho Studios, e mesmo por resvalar para a comédia, era um dos filmes menos esperados do realizador Kurosawa, sobretudo por ter sido feito no ano a seguir a "Trono de Sangue". Mas trata de uma maneira divertida temas que o próprio Kurosawa poderia transformar na mais cruel anatomizações da natureza humana.
"A Fortaleza Escondida" foi citado por George Lucas como base para o seu primeiro "Star Wars", principalmente na forma como a história de desenvolve, através dos olhos de dois personagens cómicos. Toda a narrativa de "Star Wars" mostra a forte influência do realizador japonês. Rokoruta (Toshiro Mifune) faz lembrar tanto Han Solo como Luke Skywalker, na sua relação protetora e obediente, de amor e ódio com a princesa. Também há o vilão preferido do público, quando Rokoruta encontra um velho amigo Hyoe Tadokoro (Susumu Fujita), que comanda as tropas para Yanama. Tadokoro é derrotado num duelo mas Rokoruta não o mata, e o villão vai aparecer mais tarde cheio de cicatrizes no rosto. Tudo isto é comum a este filme, e a "Star Wars".

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