sábado, 25 de outubro de 2014

Dom Roberto (Dom Roberto) 1962



A vida miserável de João Barbelas, um vagabundo sonhador, a quem os miúdos alcunham "Dom Roberto", por exibir fantoches. Conhece Maria, rapariga com passado triste, julgando inocentemente ter arranjado habitação para ambos. O amor, a alegria de viver... Porém, a felicidade é traiçoeira: João e Maria perdem a casa que nunca for a deles, mas conservam a esperança e a ternura, embora a fome continue a persegui-los.
"Na sua fragilidade, no seu isolacionismo, nas suas condições de produção, nas vagas heranças de que se reclama, na ruptura que pratica em relação ao estado das coisas no cinema português desse início dos anos 60, por tudo isto se não pode negar a Dom Roberto o carácter de augure do que viria a seguir, de João Baptista do Cinema Novo, que iria irromper com as dimensões de movimento cultural de uma geração. Quando este filme chega, o cinema português acabara de atravessar essa década de vileza que havia sido os anos 50. Aparece em pleno pântano, graças ao movimento cineclubista (de onde sai o essencial da organização da Cooperativa do Espectador que produz o filme) que era, recorde-se e sublinhe-se, o grande bastião da resistência cultural cinematográfica desses anos. Dom Roberto fez-se com a emanação dos cineclubes, como cinema pobre de meios, como atitude. Não admira nem o tom negro (tocado por um poético que os anos tornaram irremediavelmente bafiento - deixando o negro como coloração essencial), nem as cruzadas reminiscências neo-realistas, chaplinianas ou de um certo populismo do cinema português dos anos 40 (o pátio como comunidade boa e feliz), ainda menos espanta a mensagem de esperança (sem raiz, nem motivo, porque sim) que o encerra. Porque se há coisa que este filme queira é acreditar que o negro há-de gerar luz - mesmo que não saiba o processo de viragem.
A atitude de mudar não encontra um saber fazer técnico e estilistico que a transforme em cinema eficaz. Há pobreza de conteúdo, estereótipo nos personagens, a carpintaria fílmica é tosca e creio que os anos que passaram erodiram em larga escala Dom Roberto. Quase nada sobra senão Raúl Solnado, desarmado e tocante (o personagem de Glicínia Quartin deixou de ter qualquer ossatura), e essa estranha crença de que é possível construir um automóvel (um filme) à força de vontade. O Cinema Novo português anuncia-se como aquilo que tomo (arbitrariamente?) como metáfora: uma traquitana que é impossível funcionar e, porém, move-se.", por Jorge Leitão Ramos.

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quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Resumo do 5x5

Está assim terminado o primeiro 5x5 deste blog. Espero fazer mais rubricas destas em breve. Vamos ao resumo dos filmes escolhidos:

5 filmes do Rui Alves de Sousa
- Bom dia, de Yasojiro Ozu
- A Oitava Mulher do Barba Azul, de Ernst Lubitsch
- Hana-Bi, de Takeshi Kitano
- O Vento Será a tua Herança, de Stanley Kramer
- O Clã dos Sicilianos, de Henri Verneuil

5 filmes do Nuno Fonseca
- Doze Homens em Fúria, de Sidney Lumet
- Blade Runner, de Ridley Scott
- O Homem Que Matou Liberty Valence, de John Ford
- O Estranho Mundo de Jack, de Henry Selick
- Shane, de George Stevens

 Como veem, é fácil de fazer uma lista destas. Segue-se a "discussão" amigável, no nosso grupo do facebook.
Amanhã ou sábado teremos novidades. Mais um filme português.

Bom Dia (Ohayo) 1957



Uma casa na vizinhança, pertencente a um jovem casal, possui um aparelho de TV. Todas as crianças do bairro se reúnem lá diariamente para assistir ao wrestling. O jovem casal veste o pijama todo o dia, ouve música jazz, tem cartazes de filmes de Hollywood (The Defiant Ones), nas suas paredes. Vivemos no Japão dos anos 50, e escusado será dizer que eles são os excluídos da sociedade.
Durante muitos anos os filmes de Yasujiro Ozu raramente eram vistos fora do Japão. A narrativa mínima, e o estilo idiossincrático assemelhavam-se a poucos filmes, e os distribuidores temiam que eles fossem "demasiado japoneses" para um público internacional. Durante os anos 50 e 60, o seu trabalho era centrado em volta do mesmo motivo: a tentativa de um pai envelhecido de casar a filha obediente, para que ela pudesse viver a sua própria vida. Alguém caracterizou este ponto de vista como "uma tristeza simpática". 
Mas com "Bom Dia", Ozu visitava os subúrbios e regressava uma pessoa mais alegre. Ele leva-nos para um lugar diferente, um novo Japão, mais brilhante, onde a cultura popular americana se infiltra na vida quotidiana do povo local. A história gira à volta dos altos e baixos da vida suburbana da classe média, num pequeno bairro onde as casas estão rodeadas por cercas brancas, e cheias de mobilia colorida e eletrodomésticos. Donas de casa saltando de casa em casa, trocando comida, bebida, bisbilhotices, por vezes cruéis. As crianças entram e saem da casa dos vizinhos, principalmente para verem TV. O senhor Hayashi não quer comprar uma televisão, porque segundo ele, esta já produziu "100 milhões de idiotas. Desesperadamente querendo uma, os seus filhos primeiro praticam uma resistência passiva, mas acabam por fazer uma greve de silêncio. 
Apesar de ser considerado um remake do filme mudo de Ozu, "Nasci, mas...", "Bom Dia" é muito parecido com as Sitcoms americanas do mesmo período. Está cheio de personagens de acção, Mr. Hayashi, o velho e distraído pai (interpretado por Chishu Ryu, quem é dito ser o alter ego de Ozu, presente na maioria dos seus filmes), vizinhos bisbilhoteiros, que causam grande dor para a senhora Hayashi, uma avó corajosa, que não se deixa intimidar nem por parentes nem por vendedores porta a porta. Mas o melhor de tudo são os vizinhos da Boémia.
A critica mais aguda de Ozu, vai directamente para a cultura japonesa. Embora a maior parte dos seus filmes sejam feitos em volta do diálogo banal e comum da vida diária, aqui ele critica a propensão do povo japonês pela vida sem sentido, pelas conversas para preencher o vazio. É o vazio das conversas dos adultos que revolta os jovens que todos dias assistem TV em casa dos vizinhos, e que os transforma em críticos sociais. Não querem crescer num mundo de rituais sem sentido, um mundo onde a conversa de dois jovens apaixonados não pode ir para além do estado do tempo. 
Os filmes de Ozu são meditativos e relaxantes. Revelam-se lentamente e obliquamente, através dos diálogos, de um trabalho de câmera mínimo. A câmera coloca-nos em contacto com os seus personagens, e quando começamos a entender as suas vidas somos convidados a tomar a nossa própria opinião.
Filme escolhido pelo Rui Alves de Sousa.

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Doze Homens em Fúria (12 Angry Men) 1957



A defesa e a acusação estão a descansar, e o júri reuniu-se na sala para decidir se um jovem hispano-americano é culpado ou inocente de ter assassinado o seu pai. O que começa como um caso aberto de assassinato, logo se torna um mini-drama para cada um dos juris despirem os preconceitos acerca da culpa ou não culpa do réu.
Entre 1955 e 1962 mais de meia dúzia de episódios de várias antologias de dramas de televisão foram adaptados para o grande ecrã, que representava um dos primeiros esforços da indústria cinematográfica americana em criar "filmes de arte" nos moldes europeus. O primeiro destes filmes, "Marty", que era adaptado de um drama de Paddy Chayefsky, e que foi realizado tanto para o grande como para o pequeno ecrã por Delbert Mann, foi apenas o segundo filme americano a ganhar em Cannes, foi um êxito tanto de crítica como comercial entre portas, como também ganhou quatro Óscares. Não admirava então, que outros o sucedessem.
 Entre os argumentistas de antologias que estavam neste grupo, encontrávamos Reginald Rose. Os dramas de Rose destacavam-se, porque em vez de seguir uma trama solta e se focarem na psicologia individual do cinema de arte europeu, escrevia dramas tensos, estruturados em torno do sistema jurídico e o seu papel crucial no apoio à justiça social.
A este respeito, Rose escrevia o argumento de 12 Angry Men, um filme incisivo e emocionante, realizado pelo estreante Sidney Lumet, e que era um exemplo perfeito da arte de Rose. Passado quase inteiramente dentro dos limites de uma pequena sala de júri, num dia quente de verão e contado em tempo real, "12 Angry Men" usa a deliberação dos jurados de um caso de assassinato, como meio de explorar tanto um olhar crítico sobre os preconceitos do ser humano, como na busca da verdade de um sistema judicial, que pode ser falível. Em "12 Angry Men" Rose mostra que o sistema judicial funciona quando as pessoas envolvidas tomam os seus papéis da forma mais humana possivel, mas deixa no ar que isso também pode não acontecer.
A resistência dos outros jurados para discutir um caso aparentemente fechado é um meio convincente para mostrar que o sistema funciona apenas quando os envolvidos aceitam o peso moral do seu papel, como acontece no caso de Henry Fonda, e que assim continuamente flexiona os outros, que começam a reavaliar o que eles achavam que sabiam, e chegam à conclusão de que a prova não é tão convincente como eles pensavam.
Elenco brilhante, além de Fonda contava com Martin Balsam, Lee J. Cobb, Jack Warden, Ed Begley, Robert Webber, entre outros. Ganhou o Leão de Ouro no Festival de Berlim.
Filme escolhido pelo Nuno Fonseca.

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quarta-feira, 22 de outubro de 2014

A Oitava Mulher do Barba Azul (Bluebeard's Eighth Wife) 1938



Michel Brandon (Gary Cooper) é um milionário norte-americano que gosta de casar, mas que não consegue permanecer casado. Teve já sete mulheres e está à procura da número oito. Na Riviera Francesa, conhece Nicole de Loiselle (Claudette Colbert), filha de um marquês francês falido que vê no casamento da filha uma oportunidade de negócio. Mas ao perceber que vai ser a 8ª mulher de Michael, Nicole engendra um plano para que não venha a ser apenas mais um número na lista das ex-mulheres de Michael.
Com um argumento escrito por Charles Brackett e Billy Wilder, e realização de Ernst Lubitsch, esta comédia romântica só poderia resultar em pleno. O filme era uma releitura do romance "The Taming of the Shrew", mas tem a distinção de ser uma das mais originais screwball comedies. Colbert a demonstrar que tem muito talento cómico, talvez até mais do que Cooper, com destaques ainda no campo das interpretações para Edward Everett Horton, no papel do pobre pai, e o britânico David Niven como outro pretendente.
O argumento era o primeiro de uma série de colaborações de sucesso entre Billy Wilder e Charles Brackett ((Ball of Fire, Ninotchka, Sunset Boulevard), e está cheio de grandes tiradas (”I only have to look at your pants to know everything”). Não é tão cruel como as obras posteriores dos dois, em especial de Wilder, mas ainda assim é um grande argumento. Também é um filme de Ernst Lubitsch, ele que é famoso pelo seu toque especial no campo da comédia, assim como aproveita da melhor maneira os cenários luxuosos da velha Europa, e da classe rica de Nova Iorque, repleta de maravilhosos hotéis, vestidos, jóias, e uma divertida série de empregados de hotel, tudo temperado com a fria batalha dos sexos, que era normal nas comédias da altura.
Não foi um sucesso de crítica na altura da sua estreia, mas com o tempo tornou-se num dos filmes mais importantes do realizador.
Foi uma escolha do Rui Alves de Sousa.

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Blade Runner - Perigo Eminente (Blade Runner) 1982



Numa visão cyberpunk do futuro, o homem desenvolveu tecnologia para criar replicants, clones humanos usados para servir as colónias fora da Terra, mas com expectativas de vida curta... Na Los Angeles de 2019,  Deckard (Harrison Ford) é um Blade Runner, um policia que se especializa em destruir replicants... Já depois de reformado, é obrigado a voltar ao activo, para apanhar quatro replicants que estão em fuga.
Muito vagamente baseado numa novela de Philip K. Dick, "Do Androids Dream of Electric Sheep", é um "filho" de Ridley Scott a todos os níveis. Apesar de ter sido um fracasso na altura da sua estreia, transformou-se num filme de culto a todos os níveis.
Com efeitos especiais deslumbrantes, este belo e instigante conto futurista contava também com uma grande banda-sonora de Vangelis. Muito mais do que uma simples história de detectives, era uma obra que tinha vários significados, e que tratava de assuntos de peso para a humanidade, como memórias, sonhos, e uma visão do futuro que mudaria a face da ficção científica para sempre.
Os argumentistas Hampton Fancher e David Peoples estavam mais interessados em criar um clima específico e levantar uma série de questões sobre o que significava ser humano. Será os replicants menos importantes porque foram criados? As emoções de Rachael (Sean Young) foram criadas, e as suas memórias são falsas, mas ainda assim ela interage com os humanos como uma pessoa.  Deckard mas demonstra qualquer emoção, enquanto Batty (Rutger Hauer) e Pris (Daryl Hannah) são barris de pólvora e de amor, raiva e arrependimento. Por outro lado, Bryant e Gaff são figuras cínicas que se parecem preocupar pouco com os outros. Parecem manipular Deckard enquanto Batty tenta salvar a vida. Estas complexidades são o que eleva o filme acima do nível da sci-fi. A versão do realizador implica fortemente que Deckard seja um replicant, o que apenas solidifica o tema questionado se os andróides são realmente dispensáveis. Os humanos destruíram a sociedade e deslizam pelas ruas chuvosas, cheias de néon e artificialidade transformando o personagem principal numa máquina, o que apenas solidifica os sentimentos negativos da sociedade. Se o personagem que seguimos a maior parte do filme pode ser uma criação (nunca fica claro), diminui seriamente as esperanças para um futuro.  
Esta versão aqui postada é a do realizador (final cut).
Filme escolhido pelo Nuno Fonseca.

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terça-feira, 21 de outubro de 2014

Fogo de Artifício (Hana-Bi) 1997



Hana-bi, de Takeshi Kitano, é um filme muito peculiar, ocupado por inúmeros silêncios, olhares vazios, e mudanças de velocidade entre a reflexão e a ultra violência. Kitano (que também escreveu o argumento e fez a montagem) interpreta Nishi, um polícia conhecido pela sua natureza impulsiva e violenta, mas que normalmente cumpre o seu trabalho, mesmo que por cima de algum sangue derramado. No entanto, Nishi já teve melhores dias. A sua esposa está a morrer lentamente de leucemia, e o seu parceiro de confiança, Horibe (Ren Osugi) é abatido e paralisado em serviço. Nishi, sentido-se culpado pela lesão do companheiro e subsequente degradação do estado mental deste, e querendo passar mais tempo com a esposa, é obrigado a retirar-se da policia, e ao fazê-lo é obrigado a recorrer a alguns meios um pouco sujos para financiar o seu tempo de inatividade e desespero. Mas as coisas ficam um pouco complicadas...
Kitano quase nunca fala, mas a sua presença em frente à câmera é extremamente eficaz. No seu silêncio, a personagem de Nishi torna-se um paradoxo completo, mas também se torna na segunda metade da sua esposa (que também quase nunca fala), e ambos fazem um grande contraste com os outros personagens do filme, que exibem abertamente os seus sentimentos em cada momento do filme.
Horibe, por causa da sua lesão, e da consequente partida da sua esposa e filha, tornou-se suicida, preso a uma cadeira de rodas e aborrecido com a vida em geral. Passa a vida a pintar (os quadros na verdade foram pintados por Kitano, depois de uma tentativa de suicídio em 1994), e está a ser monitorado pelos ex-parceiros que temem pela sua sanidade. De certa forma, a situação de Horibe não é tão dramática como a de Nishi. Enquanto os outros personagens são movidos pela necessidade de estar sempre a fazer alguma coisa, Nishi e a esposa são caracterizados por raramente mostrarem as suas emoções ou movimentos, e expressões apenas quando são necessárias. Parece que num mundo com falta de sinceridade, a sua esparsa interacção não é um sinal de uma ligação quebrada, mas uma necessidade de dar espaço ao outro, quer juntos ou separados.
O tom minimalista do filme é o que faz a violência trabalhar de forma tão eficaz, para transmitir a loucura de Nishi. A estática do filme serve para trabalhar com o ritmo lento, enquanto assistimos à descida de Nishi rumo ao desespero. Kitano infecta a beleza lírica e meditativa do cinema clássico japonês, e o que emerge é uma declaração profunda e original sobre a mortalidade, o quanto rica a vida humana pode ser, e quanto rápida ela pode ser tirada...
Ganhou vários prémios por esse mundo fora, incluindo o Leão de Ouro em Veneza.
Filme escolhido pelo Rui Alves de Sousa. 

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O Homem Que Matou Liberty Valence (The Man Who Shot Liberty Valance) 1962



Quando o Senador  Ransom Stoddard regressa para casa em Shinbone, para o funeral de Tom Doniphon, conta a um editor do jornal local a história por detrás da sua vida. Ele tinha chegado à cidade muitos anos antes, um advogado por profissão. A diligência tinha sido roubada pelo rufia local, Liberty Valance, que tinha deixado Stoddard sem nada, a não ser uns livros de direito. Consegue um trabalho na cozinha de um restaurante, onde conhece a sua futura mulher, Hallie. Em flachback vamos ficar a saber como é que a vida destas quatro pessoas se cruzou.
A mudança da guarda, a perseverança de um homem, e a necessidade de um herói são temas recorrentes neste grande clássico de John Ford, The Man Who Shot Liberty Valance. Mais elegante do que a maioria dos westerns de Ford, resultou na única vez que contracenaram dois dos mais míticos actores da história do cinema, John Wayne, o cowboy maior do que a vida, e James Stewart, o bom rapaz que toda a gente gostava em Hollywood. O resultado seria um dos maiores westerns jamais feitos.
De certa forma, Wayne nunca esteve tão bem como aqui, nem mesmo em "The Searchers", e Stewart, que costuma estar sempre bem, mantém-se firme num papel oposto ao de Wayne, e mantém um contraste interessante com a dureza do outro actor. O personagem de Stewart é o mais efeminado dos dois, e usa mesmo avental a maior parte do filme, incluindo no duelo com o vilão. A fotografia de William H. Clothier dá ao filme uma atmosfera quase noirish, e Ford, como é habitual faz um grande uso do seu naipe de actores secundários, em especial Woody Stroode, e Lee Marvin como vilão. 
É evidente que Ford ficou cada vez mais desiludido com a sociedade, que é visível principalmente a partir da Segunda Guerra Mundial, e quanto mais profundo se tornou o seu desespero, mais visível isso ficou nos seus westerns. Mesmo nos filmes menores do final da sua carreira, como Cheyenne Autumn, a sua fé deu lugar ao pessimismo, tal como se vê nos filmes da cavalaria onde ele mostra os seus soldados a derrubarem os índios desarmados.
Foi o último filme que Ford fez com Wayne como protagonista. Os dois morreriam na década seguinte, Ford em 1973 e Wayne em 1979.
Filme escolhido pelo Nuno Fonseca.

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segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O Vento Será a Tua Herança (Inherit the Wind) 1960



Todos os nomes foram alterados, mas os eventos descritos em Inherit the Wind, de Stanley Kramer, baseavam-se numa das mais espectaculares batalhas judiciais da primeira metade do século 20. O nome do julgamento é normalmente conhecido como "Scopes Monkey Trial" que numa única frase combinava o nome do réu (o professor do Tennessee John T. Scopes), o principal ponto de discórdia (a teoria da evolução de Darwin), e a natureza do caso em geral, uma farsa de todo o tamanho. Aconteceu no calor sufocante de Julho de 1925, e marcou uma das batalhas mais quentes e públicas entre as forças do cristianismo fundamentalista, e o progresso científico.
O que fez este julgamento ter sido tão notável não foi apenas o que estava em jogo (particularmente a intromissão de uma religião dominante no campo da educação financiada pelo estado), mas também as pessoas que estavam em jogo. Na defesa estava o advogado agnóstico Clarence Darrow, que era bem conhecido por trabalhar com sindicatos, e um grande opositor à pena capital. A acusação era chefiada pelo grande orador William Jennings Bryan, um senador fundamentalista que já tinha concorrido à presidência três vezes.
"Inherit the Wind" debruça-se sobre os factos mais gerais do caso, desde a prisão do professor na pequena cidade de Hillsboro, no Tennessee (a verdadeira cidade foi Dayton), seguindo-se do julgamento no tribunal. É sobretudo um filme de actores, por completo, desde o advogado da defesa interpretado por Spencer Tracy, que lhe valeu uma nomeação para o Óscar, aos grandes papéis de Fredric March, como advogado de acusação, Gene Kelly, mostrando todas as qualidades dramáticas como um repórter cínico, e um elenco de apoio cheio de nomes conhecidos. O  Hornbeck de Gene Kelly é o infiel numa sala cheia de partidários, e proporciona um alívio cómico consistente.
Adaptado de uma peça da Broadway por Jerome Lawrence e Robert E. Lee, capta o calor e o clamor deste julgamento, embora perca a oportunidade de fazer entender os dois lados do caso. Por ser adaptado por Nedrick Young e Harold Jacob Smith, "Inherit the Wind jogo com um discurso virulento após o outro, em que o discurso científico choca  violentamente com o zelo religioso profundo.
O produtor e realizador Stanley Kramer, habilmente manipula o material incendiário visual, fazendo um bom uso do foco profundo e composições cuidadosas que enfatizam as oposições na sala. Algumas das melhores cenas no filme, são, na verdade, as menos controversas, em que Drummond e Harris, que antes eram velhos amigos, se sentam a conversar, em vez de gritarem um com o outro.
Nomeado para quatro Óscares, foi um filme escolhido pelo Rui Alves de Sousa.

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O Estranho Mundo de Jack (The Nightmare Before Christmas) 1993



Uma fantasia que nos conta a história de Jack Skellington, o cabeça de abóbora, rei de Halloween Town. Jack está um bocado aborrecido com o que se tornou um trabalho redundante de coordenar os sustos de Halloween todos os anos, e ambiciona algo melhor. Uma caminhada leva-o até Christmas Town, que lhe dá uma idéia genial, ele deseja desesperadamente ser o rei deste feriado, mas este já tem um dono, o Pai Natal. Com a ajuda de alguns dos seus amigos mais macabros, o Pai Natal é raptado, e Jack toma as rédeas deste novo lugar...
Sem dúvida, que o aspecto mais forte de "The Nightmare Before Christmas" vem da sua arte, animação e do design de produção. Os visuais são impressionantes, a profundidade do detalhe é bastante rica, e os personagens são bastante realistas nos seus movimentos. O design da arquitetura e os cenários mostram que existe um coração a bater debaixo de cada frame do filme. Apesar do filme estar ligado a Tim Burton, este não o dirigiu, mas não há dúvida que toda a parte visual teve a sua influência, e a inclusão do seu colaborador musical desde há muito, Danny Elfman, mostra que eles são um encontro no céu quando se trata de virar a mesma página artística.
"The Nightmare Before Christmas" é um filme perfeito, tanto para o dia das Bruxas, como para o Natal, e as crianças provavelmente vão adorar, desde que não sejam tão jovens que se assustem com fantasmas ou cabeças cortadas, ainda que em desenhos animados. A música flui, para dentro e para fora da narrativa, de tal forma que é praticamente perfeita. Desde o início que estava destinado a ser um clássico destas quadras festivas que retrata. Já passaram 20 anos.
Foi escolhido pelo Nuno Fonseca.

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domingo, 19 de outubro de 2014

O Clã dos Sicilianos (Le Clan des Siciliens) 1969



Um jovem e ambicioso mafioso planeia um elaborado roubo de diamantes, enquanto seduz a filha de um implacável patriarca de uma família da mafia siciliana, com um comissário da polícia no encalce de todos eles.
"O Clã dos Sicilianos" é um filme sobre o mundo do crime, interpretado por três dos maiores nomes do cinema francês, Alain Delon, Lino Ventura, e Jean Gabin, dirigido por um grande especialista no género, Henri Verneuil, e baseado numa história de Auguste Le Breton, que também escreveu "Rififi", e "Bob le Flambeur". Com tanto talento por trás deste projecto, era impossível algum falhanço.
É um filme elegante, compulsivo, extremamente acessível para os olhos de qualquer espectador, poderia ser acusado como um filme superficial, porque de facto não tem a angustia existencial dos filmes de Melville, por exemplo, mas ganha pontos a construir um ritmo bastante elevado, e com algumas cenas de acção muito bem executadas. Neste aspecto, parece-se mais com um filme italiano do que um filme francês, impressão que é reforçada pela excelente banda-sonora de Ennio Morricone, que inclui algumas notas que normalmente seriam mais esperadas nos western spaghetti.
De facto, o filme deve muito a outro regular colaborador de Morricone, Sérgio Leone. A história tem muitas semelhanças com Por Alguns Dólares Mais (onde um gangster descobre como abrir um cofre enquanto está preso), e em alguns cenários é sentido o ambiente de um spaghetti (como no climax, quando Gabin, Delon e Irina Demick se enfrentam).
O filme é um prodígio para os padrões do cinema francês da altura, com cenários enormes, interiores muito interessantes e bem construidos. A direcção de arte de Jacques Saulnier é fantástica.
É um filme escolhido pelo Rui Alves de Sousa.

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Shane (Shane) 1953



Shane envolve-se num conflito entre o vaqueiro Ryker e um grupo de colonos, os Starretts, cuja terra Ryker quer. Quando Shane vence um dos homens de confiança de Ryker, Chris, Ryker tenta comprá-lo, sem sucesso. Depois de Shane e Joe, o pai do clã Starrett terem derrotado os homens de Ryker, este contrata um famoso pistoleiro, para derrotar os nossos heróis.
Seria tão fácil descartar "Shane" como um dos westerns mais bem filmados de sempre. A sua história já foi feita tantas vezes, que se tornou um cliché. Um pistoleiro solitário tentando deixar o passado para trás, chega a uma cidade onde tem de usar as armas novamente em nome do bom povo da cidade, contra os assassinos do barão do gado local. Apesar do enredo ser bastante simples superficialmente, há muito mais a acontecer do que parece.
Desde os primeiros momentos em que o pequeno Joey grita, "Somebody's comin', Pa!", e vemos pela primeira vez Alan Ladd como Shane, cavalgando para a herdade dos Starrett, que percebemos que há algo misterioso nesta personagem solitária. Que ele é um pistoleiro com um passado negro é óbvio, mas os detalhes do seu passado nunca são revelados, assim como de onde ele vem, nem para onde ele vai. É através dos olhos do pequeno Joey que vemos quase todo o filme, para ele Shane é o herói ideal, e aos seus olhos qualquer pecado lhe é perdoado, embora ele sinta que existem acções obscuras no passado de Shane.
Realizado por George Stevens, e ao contrário de muitos outros westerns, este é um filme de actores. A personagem de Ladd ficou mítica, assim como o jovem Joey interpretado por Brandon de Wilde, um actor bastante prometedor falecido muito cedo. Jean Arthur tinha o seu último papel no cinema, mas o grande destaque vai para o vilão de Jack Palance, um dos seus primeiros papéis do cinema, e um dos melhores vilões alguma vez trazidos ao grande ecrã. Valeu-lhe logo uma nomeação ao Óscar.
Foi uma forte inspiração para o homem sem nome de Clint Eastwood na trilogia dos dólares, e em muitos filmes posteriores.
Foi uma escolha do Nuno Fonseca.

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