segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Hotel do Alpinista Morto ('Hukkunud Alpinisti' Hotell) 1979

Algures num futuro próximo, a policia recebe um estranho pedido de ajuda de um hotel isolado, situado nos Alpes. Quando o Inspector Peter Glebsky (Uldis Pucitis) chega ao local tudo parece estar bem. O crime que ele iria investigar parece não ter ocorrido. Pensando que tudo se tratava de uma brincadeira, ele liga ao seu chefe da recepção do hotel, e negoceia uma estadia de uma noite, disfrutando da vista espectacular, e da decoração moderna do resort. Mas esta noite vai ser tudo menos uma noite calma.
Baseado num livro do mesmo nome de 1970, também publicado com o título “Inspector Glebsky's Puzzle”, o filme tem argumento dos irmãos Strugatsky, que também são os autores da história original, estes irmãos também são conhecidos por terem escrito os livros que deram origem ao filme "Stalker", e "Hard to be a God", duas das produções mais importantes da ficção científica soviética. 
É interessante como este filme partilha temas em comum com o trabalho de  Phillip K. Dick. Pessoas estranhas com nomes estranhos, e um homem solitário a lutar contra a sua percepção da realidade, e o que significa ser humano. O filme em si tem alguns paralelos com "Blade Runner", tanto na trama como na estética. O ritmo lento, os visuais escuros, e as armadilhas retro-futuras, acompanhadas pela estranha banda sonora de Sven Grünberg, que soa um pouco a Vangelis. 
A nível do argumento, é um filme muito complicado para fazer sentido num primeiro visionamento, e há alguns saltos e cenas abruptas que nos diminuem a oportunidade de absorver cenas importantes ou eventos estranhos. Mas, bem perto do final, tudo fará sentido.
Seria o derradeiro filme de Grigori Kromanov, um realizador nascido na Estónia, e que faleceria bastante cedo.

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domingo, 15 de janeiro de 2017

As Averiguações do Piloto Pirx (Test Pilota Pirxa) 1978

O filme é sobre "finite nonlinears," robots que assemelham a humanos, mas são ainda mais perfeitos do que os humanos. Eventualmente, eles destinam-se a substituir os seres humanos nos voos espaciais. Um pouco apreensiva sobre a sua inutilidade, a Unesco marca um voo espacial para testar as suas reacções aos seres humanos que também compõem a tripulação. Pirx é escolhido como comandante do voo, e a identidade dos robots não lhe foi revelada...
Co-produção entre a URSS e a Polónia, "Test Pilot Pirxa" tem sido citado por alguns críticos como um precursor (se não mesmo uma influência) para "Blade Runner" (1982), dadas as preocupações da sua história, e a relação instável entre robots e seres humanos.
Baseado na história "The Inquest” de Stanislaw Lem, a versão cinematográfica de Pirxa é uma amálgama de ficção científica cerebral com James Bond, com alguns momentos irregulares, para não falar da velocidade do filme, que é capaz de enervar os mais impacientes, mas também há uma série de outros momentos únicos, que elevam o filme ao estatuto de culto. 
Apesar de começar como um típico filme de ficção científica da Europa do Leste, com bastantes diálogos e pouca acção. Esta primeira parte é passada na Terra, e tem o formato de filme de espionagem, com os empresários norte-americanos a serem tratados como criminosos acima da lei. Mas, o filme, torna-se bem mais interessante a partir do momento em que a missão é lançada, parecendo um trabalho conceptual semelhante às obras de Philip K. Dick. Aqui, o filme torna-se num drama fascinante para descobrir quem a bordo da nave é android ou não. 

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sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

The Silence of Dr. Evans (Molchaniye Doktora Ivensa) 1973

Dr Evans, a sua esposa, e alguns outros passageiros são salvos por extraterrestres de um acidente de avião. Um dos aliens humanoides desenvolve um relacionamento especial com o Dr Evans, cujo trabalho científico aspira a prolongar a vida humana. Como primeiro encontro para ambas as partes os dois parecem ter ficado um pouco desapontados com o outro lado, apesar dos aliens terem menos coisas a corrigir.
Este argumento poderia corresponder a um episódio da popular série de televisão "The Twilight Zone", mas acaba por ser uma desculpa para a observação da condição humana a partir de um ponto de vista imparcial. Ou seja, com destaque para os aspectos contraditórios e difíceis de explicar sobre a nossa espécie, para os extraterrestres, que em principio viajam pelo universo para fugir da solidão, e se surpreendem pela forma como os ricos deixam os pobres morrerem de fome, ou não conseguem entender a humanidade como um todo, regido pelas mesmas leis, estabelecendo fronteiras entre similares, levando a disputas na forma de guerra.
A ênfase é no diálogo, e o filme tem acção e efeitos especiais limitados. A exibição de um scotch whisky, e de uma famosa marca de cigarros tentam dar ao espectador a impressão de que o filme é passado em algum sitio da Europa Ocidental. As interpretações são bastante boas, principalmente a de Sergey Bondarchuk, no papel principal, uma espécie de Marcello Mastroianni russo, que contava já com um número elevado de filmes no seu país natal, mas também era conhecido por ser o pai de Natalya Bondarchuk, a protagonista de "Solaris", filme que tinha visto a luz do dia no ano anterior. Era apenas o segundo e último filme de Budimir Metalnikov. 
É um filme muito raro, só o consegui com legendas em inglês.

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quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Amphibian Man (Chelovek-Amfibiya) 1962

Marinheiros e pescadores numa pequena cidade costeira perto de Buenos Aires estão em pânico depois de avistarem uma estranha criatura marítima. No entanto, este demónio do mar prateado parece ser algo benevolente, ao resgatar a bela Gutiere (Anastasia Vertinskaya) do ataque de um tubarão. Longe de ser um monstro, Icthyander (Vladimir Korenev) é uma espécie de superhomem marítimo, dotado de pulmões de tubarão pelo seu pai, Professor Salvatore (Nikolai Simonov). O recluso génio confia ao bom coração Olsen (Vladlen Davydov) o seu plano de criar uma comunidade utópica debaixo do mar, uma sociedade onde ricos e pobres viverão de modo igual. 
Baseado num livro de ficção científica escrito por Alexander Beliaev, "Amphibian Man" é um filme pouco conhecido no ocidente, mas foi um grande sucesso na União Soviética dos anos sessenta, e continua a ser um filme duradouro. Com uma estimativa de 65 milhões de bilhetes vendidos, só no seu país de origem, o filme fez de uma estrela a sua fantástica protagonista, Anastasia Vertinskaya, que logo depois seria protagonista no épico de Sergei Bondarchuk "Guerra e Paz" (1966), assim como a sua música-tema se tornaria num sucesso, cantada até aos anos 90.
É considerado um conto de fadas com toques de ficção científica, por vezes semelhante ás fábulas de Tim Burton sobre estranhos e extravagantes personagens, fundindo elementos de "Creature from the Black Lagoon" (1954) com "The Little Mermaid" (1990). As sequências submarinas hipnóticas podem ter influenciado "Vertigem Azul" (1988), de Luc Besson, embora este filme fosse mais acessível e ambicioso. Alexander Beliaev reclamou com grandes influências Jules Verne e H.G. Wells, evidentes nas conversas entre Professor Salvatore (que detesta a humanidade), e Olsen (que acredita que a humanidade deve ter uma hipótese. 
Realizado a quatro mãos, por Vladimir Chebotaryov e Gennadiy Kazanskiy.

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segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Planet of Storms (Planeta Bur) 1962

Cosmonautas soviéticos aterram na superfície quente e desigual do planeta Vénus, que se revela um planeta muito inóspito para os seres humanos, mas perfeito para criaturas gigantes. Além de fluxos de lava, plantas assustadoras, dinossauros, há uma corrente de água, que esconde evidências de habitações anteriores de seres inteligentes e artísticos, que provavelmente podiam ser parecidos com os humanos. Mesmo com a ajuda de um robot amável e pensativo, os humanos estão constantemente em perigo.
O realizador russo Pavel Klushantsev, agora considerado um dos verdadeiros visionários da ficção científica, é pouco conhecido no Ocidente, no entanto, a sua atenção meticulosa para os detalhes visuais, à realidade científica e probabilidade, tornarem estes vôs cinematográficos cheios de imaginação ainda mais influentes no género ficção científica, principalmente influenciando filmes posteriores mais sérios, como "2001: a Space Odissey".  Na altura em que o filme foi produzido ainda não se sabia se existia vida em Vénus ou não, mas, a existir, os cientistas soviéticos pensavam que fosse assim.
Klushantsev trabalhava no Leningrad Film Studio for Science and Technology, primeiro como director de fotografia, depois como realizador. Esta mudança permitiu-lhe tornar-se num pioneiro e inventar técnicas lendárias para filmar os planetas, as estrelas e a ausência de gravidade, muito antes de qualquer outra pessoa. À medida que a corrida espacial se intensificou, entre os Estados Unidos e a União Soviética, a partir do final da década de cinquenta, Klushantsev já estava à frente dos rivais, com os seus filmes inventivos. Adicionava sempre uma certa dose de comentário pró-soviético, para manter os seus filmes fora dos censores, mas era óbvio que ele estava mais interessado nas viagens espaciais, ambientes estranhos, e as possibilidades de novas formas de vida noutros planetas. Do seu corpo de trabalho destacam-se "Meteors" (1947), "The Universe" (1951), "Road to the Stars" (1957), "Planet of Storms" (1962), "The Moon" (1965), e "Mars" (1968). Dos quais se destaca este "Planet of Storms".
De acordo com alguns historiadores, "Planet of Storms" estabeleceu novos padrões para os filmes de ficção científica. Klushantsev teve ajuda de alguns dos mais notáveis cientistas russos, que lhe asseguraram autenticidade no seu projecto, e compreensão nas viagens ao espaço. Mas também foram adicionados elementos humanos ao filme, os seus personagens não eram simplesmente autómatos, nem sequer o robot que os acompanha. A questão filosófica da vida noutros planetas é respondida afirmativamente.
O produtor americano Roger Corman ficou tão envolvido pelo filme que comprou os seus direitos, mas, em vez de o distribuir, precedeu a uma série de cortes e remontagens, adicionando algumas cenas com Basil Rathbone a conversar com os astronautas. O filme foi dobrado para inglês mas permaneceu intacto visualmente, e levou depois um novo nome, "Voyage to the Prehistoric Planet" (1965), que durante anos foi a única forma dos ocidentais verem "Planet of Storms", mas sem toda a poesia ou filosofia de Klushantsev.

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domingo, 8 de janeiro de 2017

Cosmic Journey (Kosmicheskiy Reys: Fantasticheskaya Novella) 1936

Apesar da sua precisão em vários aspectos sobre as viagens espaciais, "Cosmic Journey" era um filme pouco conhecido até recentemente. Até o filme de Fritz Lang "Woman in the Moon" (1929), recebeu uma distribuição muito maior, e ainda é um prazer ser visto, apesar de não ser tão preciso como este "Cosmic Voyage". 
Em 1932 a Komsomol, uma organização comunista juvenil na União Soviética de Staline, insistissem que os cineastas criassem obras que atraíssem os jovens. Alguns temas, incluindo a ficção científica, foram propostos. O realizador Vasily Zhuravlyov perguntou ao argumentista Aleksandr Filimonov, com quem já tinha trabalhado antes, se ele podia escrever um argumento sobre a primeira viagem da humanidade à Lua. Seguiram-se conversas com o lendário realizador Sergei Eisenstein, que tinha sido relegado para executivo num dos estúdios soviéticos de cinema. Eisenstein já não podia fazer filmes depois de regressar dos Estados Unidos e México, mas a proposta para este filme de ficção científica foi aceite, e Zhuravlyov com Filimonov começaram a trabalhar.
Para garantir a precisão científica contactaram Constantin Tsiolkovski, um professor, cientista e escritor. Este ficou tão animado com a possibilidade de ver algumas das suas teorias científicas sobre viagens espaciais serem colocadas num filme, que ofereceu os seus serviços como consultor. Embora compreendendo que a forma cinematográfica e o conteúdo dramático exigiria alguma flexibilidade de probabilidade científica, Tsiolkovski exigiu que alguns elementos devessem aparecer no filme: o foguete devia ser enviado de uma rampa em vez de verticalmente por causa do seu tamanho ser enorme, as cabines individuais deviam encher-se de água durante a descolagem para facilitar os efeitos da pressão externa no corpo humano, as estrelas no espaço não piscariam, os astronautas poderiam saltar na superfície da lua, o regresso da nave à terra devia ser feito com para-quedas. 
Durante uma série de reuniões, o realizador e os outros membros da equipa aprenderam muito sobre uma possível viagem à Lua, e a sua provável realidade. Tsiolkovski, com 78 anos na altura, ajudou com cálculos e apresentou 30 desenhos para manterem a nave o mais científica possível. A sua experiência como professor de matemática e geometria ajudou-o a tornar as suas idéias mais simples e compreensíveis. Muito depois da sua morte, Werner von Braun, um dos vários cientistas alemãs levados para os Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial, para dirigir o programa espacial americano, elogiou os cálculos de Tsiolkovski, e como foram importantes para se fazerem as primeiras viagens espaciais. 
Em Dezembro de 1935 a montagem final do filme estava pronta. Estreava a 21 de Janeiro de 1936, e apesar de ser mudo, e a maioria dos filmes daquela altura já serem falados, conseguiu um enorme sucesso na União Soviética. A idéia de ser mudo, era para que pudesse ser visto até nas pequenas localidades do país, que ainda não tinha sistema de som. No entanto, e apesar da sua popularidade, o filme foi retirado da circulação pouco tempo depois. Os censores, além de decepcionados com a frívola viagem à Lua, sentiram que os personagens estavam mais interessados em atingir conhecimento científico em vez de promoverem a causa socialista. O filme permaneceu assim obscuro durante anos, até ser exibido em 1984, na televisão russa. 
Para o público ocidental é uma obra quase desconhecida, e que merece ser descoberta. Aproveitem esta versão, com intertitles em português. Nunca estreou, nem em Portugal nem no Brasil.

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sábado, 7 de janeiro de 2017

Aelita - A Rainha de Marte (Aelita) 1924

O filme passa-se no início da NEP (Nova Política Económica), em dezembro de 1921. Uma mensagem de rádio misteriosa é transmitida em todo o mundo, e entre os terrestes que a recebem estão Los, o herói do filme, e o seu colega Spiridonov. Los é um sonhador individualista. Aelita é filha de Tuskub, o governante de um estado totalitário em Marte em que a a classe trabalhadora era congelada quando não era necessária. Com um telescópio, Aelita é capaz de ver Los. Como que por telepatia, Los fica obcecado em ser visto por ela, e depois de algumas peripécias envolvendo o assassinato da sua esposa com um detetive na perseguição, Los assume a identidade de Spiridonov e constrói uma nave espacial para se deslocar a Marte...
Antes de Eisenstein, Vertov, Pudovkin capturarem a atenção do mundo com uma abordagem nova e emocionante para o cinema, o cineasta soviético Yakov Protazanov forjou uma carreira impressionante com uma abordagem mais tradicional. A sua prolífica carreira cinematográfica começou no início da indústria do cinema soviético. Começou como ator, em 1905, mas em 1909 mudou-se para a cadeira de realizador. Entre 1909 e 1917, dirigiu 40 filmes, muitos dos quais eram épicos de grande escala histórica, adaptações literárias, entre outros... No entanto, quando a Revolução de Outubro trouxe a turbulência e a incerteza, Protazanov fugiu da Rússia. Primeiro instalou-se em Yalta na Crimeia e, posteriormente, andou à deriva por Odessa e Constantinopla. Protazanov e os seus companheiros continuaram a fazer filmes, mas recebiam apenas o apoio financeiro dos estúdios locais. Uma vez chegado a França, a carreira de Protazanov mais uma vez tomou raízes, mas depois da estabilidade voltou a restabelecer-se na Rússia, o novo incipiente da indústria do cinema soviético pediu a Protazanov para voltar e contribuir com o seu talento para novas produções. E ele regressou. Uma vez de volta à Rússia, começou a planear um filme vagamente baseado numa novela de Alexei Tolstoy - Aelita, a Raínha de Marte. E seria o seu filme mais conhecido no Ocidente. Um espectáculo de ficção científica socialista com cenários magníficos que evocam motivos construtivistas e cubistas, Aelita foi o primeiro filme de grande orçamento feito na Rússia. Um ano e meio em filmagens, Aelita foi concebido como entretenimento de massa ideologicamente correcto que poderia competir nas bilheterias com os filmes de Hollywood. 
Com um hype de pré-estreia que faria os estúdios contemporâneos verdes de inveja, Aelita recebeu uma enorme cobertura: aviões a lançaram milhares de panfletos e figuras gigantes de Aelita e Tuskub nas fachadas decoradas dos teatros. O público mal podia esperar que as portas do teatro se abrissem. De acordo com algumas histórias, a comoção ditou a ausência de Protazanov de participar na estreia. Enquanto Aelita foi um sucesso popular, os críticos soviéticos não foram tão amáveis. Lamentaram o estilo ocidental escapista do filme. E mais tarde, depois da chegada de Eisenstein, Pudovkin e Vertov, Aelita foi retirado de circulação. No entanto, a influência do filme é difícil de sobrestimar. Os cenários avant-garde incriveis - desenhados por Alexandra Exter e o seu protegido Isaak Rabinovich - logo seriam ecoados por Fritz Lang em Metrópolis, e os cenários do planeta Mongo em Flash Gordon refletem fortemente a visão de Marte de Aelita. De qualquer forma, não é a qualidade da propaganda do filme que leva ao seu status de clássico, mas a sua visão de Marte, que ficou bastante famosa.
Notavelmente sofisticado para a época, tanto a nível da narrativa como da técnica visual, Aelita é uma mistura inteligente de ficção científica e cinema pró-comunista, embora não seja uma peça de propaganda directa. Pelo contrário, faz avisos sobre a facilidade com que as revoluções podem ser corrompidas, retrata uma sociedade russa que está longe de ser perfeita, com as pessoas a aproveitarem-se umas das outras e funcionários do governo a enganarem o sistema, e adverte que a única maneira de preservar uma sociedade saudável é através da vigilância e do trabalho duro. Esta é uma abordagem intelectual para a política que seria sufocada na Rússia, não muito tempo depois, e que, nos próximos anos, surgia apenas indirectamente através do trabalho de grandes realizadores como Tarkovsky e Eisenstein, que enfrentaram a censura. Aqui está tudo a nú, e honestamente, o filme em si é um exemplo do trabalho que defende.
Intertitles em inglês. 

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quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Ficção Científica Soviética: O Futuro que Nunca Chegou

Em 1898 o britânico H. G. Wells escreveu "The War of the Worlds", um livro de ficção científica em que os marcianos invadem a Terra, e quase dizimam a humanidade.
Uma década depois, naquele que era na altura chamado de Império Russo, o escritor e revolucionário Marxista Alexander Bogdanov, escreveu "Red Star", um livro igualmente sobre os marcianos a chegarem à Terra. No livro de Bogdanov os marcianos não são violentos ou monstruosos, em vez disso convidam o personagem principal, um jovem estudante russo chamado Leonid, a visitar o planeta vermelho, para ver de perto a civilização marciana: uma utopia próspera, pacífica e comunista.
Tomáš Pospiszyl, um escritor e estudioso de arte checo, disse na conferência "Futures of Eastern Europe", realizada em 2014, que o optimismo de "Red Star" era uma característica fundamental da ciência soviética. Pospiszyl disse também que no inicio do século 20, quando os dois livros foram escritos, muitas pessoas acreditavam que havia uma civilização avançada em Marte. Mas, enquanto H. G. Wells interpretava o "avançada"como militante e conquistadora, Bogdanov interpretava o "avançada" como comunista, e, portanto, pacífica e próspera.
No entanto, não muito depois da União Soviética se ter estabelecido em 1922, a ficção científica, e muitos outros tipos de literatura, foram banidos nos estados. Era visto como um género ocidental decadente. Tanto a ficção científica como a ideologia comunista estavam muito preocupadas com o futuro. A ideologia comunista baseava-se no futurismo, ou numa clara perspectiva histórica, que conduzia do capitalismo no passado, ao comunismo no futuro.
Na década de 50, depois da morte de Joseph Stalin, a ficção científica foi mais uma vez permitida na União Soviética. No entanto, isso não queria dizer que os escritores pudessem escrever aquilo que lhes apetecia. Esta limitação foi abandonada em 1956, mas, mesmo sem ela, o estado ainda impôs restrições, tanto explicitas como implícitas, à ficção científica soviética.
Os cineastas soviéticos foram pioneiros na ficção científica, lançando filmes inovadores como "Aelita", em 1924, numa altura em que o desenvolvimento das histórias ainda era uma coisa nova para as imagens em movimento. Ao longo de décadas a União Soviética continuou a produzir cinema inovador com efeitos especiais impressionantes, apesar da estrita supervisão do governo, produzindo histórias de planetas distantes, super armas futuristas, e experiências científicas aterrorizantes.

A ideia deste ciclo foi-me dada por uma amiga minha, a Ágata, já há alguns meses atrás, tendo depois desenvolvido o conceito neste artigo do A. V. Club. Pretende ser uma viagem pelo mundo da ficção científica soviética, no cinema, um mundo muito pouco desbravado pelas populações ocidentais, mas que merece, sem dúvida, uma divulgação, mesmo que seja rápida. Será um ciclo simples, com 10 filmes, e especial enfoque no período da Guerra Fria. De fora ficarão alguns filmes que já se encontram no blog, como os de Tarkovsky ("Stalker" ou "Solaris"), e também "Kin-Dza-Dza", de Georgiy Daneliya. Mas, posso garantir que será uma viagem agradável.

Deixo-vos com imagens de um dos filmes que poderemos ver neste ciclo:


domingo, 1 de janeiro de 2017

Douglas Sirk em Março no M2TM

"Eu tinha vagamente ouvido falar de um cineasta alemão que fugiu do regime nazi e se radicou nos EUA no final dos anos 30. Tinha lido qualquer coisa sobre o facto de nos anos 50 ter feito melodramas populares que foram sucessos de bilheteira, mas não demoveram os críticos mais empedernidos e exigentes. Não liguei muito a isso. De facto, o melodrama nunca foi um género que me entusiasmasse particularmente. 

Um dia, depois de ver o Far From Heaven de Todd Haynes, li uma entrevista em que o cineasta americano se referia a Douglas Sirk e particularmente ao filme All That Heaven Allows (Tudo O Que o Céu Permite). A argumentação de Haynes era de tal modo apelativa e encomiástica relativamente ao génio de Sirk, que não resisti e fui tentar perceber os motivos de tanta admiração. Tive a sorte de começar pela obra prima do melodrama social, Imitação de Vida. e desde aí nunca mais parei." 



É desta forma começará o ciclo, em Março, dedicado ao grande Douglas Sirk. Mais uma vez com a colaboração do professor Jorge Saraiva na parte dos textos.
Aqui o blog tem agora uns dias de descanso, e continua na quinta.

Malvadez (Malvadez) 1991

Vindo do Fundão para Lisboa, onde não estava desde o serviço militar, Matias descobre que a realidade da cidade não é exactamente a que se lembrava.
""Malvadez" começa a mostrar um tanto o que é isso de um telefilme primeira obra de um realizador. Isto é, uma ficção sangrenta e ingénua, uma história algo esfiapada mas uma nítida vontade de cinema (veja-se como os planos são todos plasticamente pensados - mais os planos que a cena, é curioso), indecisões, acertos, desvios, fixações (ah, "Os Verdes Anos"). Ainda não um argumento talhado a preceito (quantas irrespondidas ou personagens sem precisa utilidade dramática: porque é que aquele tipo está no Fundão, quem é e para que serve a personagem de Maria Amélia Matta, quem utilidade tem o personagem de Isabel Ruth?..). Ainda não tem um espaço social definido com rigor. Mas já credibilidade. Mas já actores a fazer de gente possível (Pedro Hestnes, Miguel Guilherme, Vitor Norte e Sónia Guimarães a cumprir bem e com acuidade). Mas já uma atenção sonora (muito boa a música de Bochmann, embora Luis Alvarães a use, com destreza, para colmatar problemas de montagem, fazendo um "continuum" musical para que as coisas colem com mais maleabilidade - e quem lhe atira a primeira pedra?). Mas já cinema a acontecer. A começar a balbuciar-se com jeito. A mostrar vontade e vocação. O que é o essencial, porque estamos a falar de começo, de prova de aptidão profissional, de primeiros sinais.
Tudo adicionado e ponderado, estamos de parabéns. Vimos nascer um cineasta. Se grande, se minorca, se audaz ou se rotineiro, isto só veremos ao longo do futuro, se o futuro não for avaro para Luis Alvarães. A primeira barra foi transporta, sem lugar para entusiasmos desmedidos, nem imprecações sumárias. É isso apenas o que sabemos, e isso é bom."
Texto publicado no Expresso, em 13-71991.

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Aqui na Terra (Aqui na Terra) 1993

Miguel, um economista bem estabelecido na vida, fica profundamente afetado pela morte do seu pai. Começa a sofrer de alucinações, perde interesse no seu trabalho e desliga-se da sua mulher. Entretanto, longe da sua cidade, dois jovens provincianos, António e Cecília, estão apaixonados. O primeiro mata um homem que abusava de Cecília, que por sua vez está grávida. António, apesar de não ser o pai da criança, aceita-o como seu. A família e a comunidade rejeitam Cecília que, por ironia, encontra apoio e auxílio junto da viúva do homem que António matou. 
João Botelho realizou e escreveu "Aqui na Terra" em 1993, confirmando, mais uma vez, a qualidade e a inteligência do seu cinema. Refletindo sobre um país de altos contrastes e clivagens sociais, económicas e culturais, Botelho tenta estabelecer inesperadas ligações emocionais entre o campo e a cidade, a partir das distintas histórias de dois casais em crise. Dois casais que, apesar de evoluírem em distintos universos, acabam por cruzar as suas trajetórias, angústias e problemas, ?Aqui na Terra? de todos e de ninguém, num país desconcertante e ambíguo. Botelho, como sempre, domina de forma soberba as atmosferas plásticas de um filme envolvente e tocante, servido por um belo elenco que conta com as participações de Luís Miguel Cintra, Jessica Weiss, Pedro Hestnes e Rita Dias. 

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

2016 - Um ano em ciclos

Termina assim mais um ano de cinema nos Thousand Movies, o oitavo a partilhar filmes.
Estes foram os 17 ciclos realizados durante 2016, mesmo tendo em conta que o de Fassbinder começou ainda em 2015.

- Fassbinder Integral: I Don´t Just Want Me to Love Me
- Solidão
- Raoul Walsh - Parte 3
- Novo Cinema Português
- Richard Harris
- Dostoiévski no Cinema
- New Wave Russa
- Coppola - O Início
- O Film Noir Japonês
- Reviver Cannes 1982
- Resnais - de Fio a Pavio
- Tennessee Williams no Cinema
- Valerio Zurlini
- A Primeira Divisão dos Spaghetti Westerns
- Play it Again, Nicholas Ray
- O Tempo do VHS
- Jerzy Kawalerowicz 

Aqui não houve melhores nem piores do ano. Todos foram partilhados com o mesmo carinho e atenção. Para o ano haverá muito mais, esperemos nós.

E eu espero que este 2016 no M2TM tenha valido a pena. Boas entradas em 2017.

Quo Vadis? (Quo Vadis?) 2001

Marcus Vinicius (Pawel Delag), um alto oficial militar romano, apaixona-se pela filha do rei, Lygia (Magdalena Mielcarz). Ela foi feita refém por Nero, mas goza da protecção do tio de Marcus, Petronius (Boguslaw Linda), que representa a epítome da civilização romana (ele foi o autor de "Satyricon"), e é habilidoso o suficiente para ser o único homem de confiança do cada vez mais perturbado Nero. Marcus comete o erro de exigir Lygia como sua concubina, apesar da sua atração mútua, mas ela não pode aceitá-lo nestes termos...
O veterano Jerzy Kawalerowicz, aos 79 anos, faz uma versão extremamente elaborada do famoso livro de Sienkiewicz, "Quo Vadis?", que já tinha visto várias versões, sendo este considerado o filme mais caro de sempre do cinema polaco. Teve um orçamento de 18 milhões de dólares, que era superior a muitas produções de Hollywood da altura. Por exemplo, "The Silence of the Lambs", de Jonathan Demme, teve apenas mais um milhão de budget.
A história conheceu diversas versões cinematográficas, com a mais famosa a ser a de Hollywood, realizada por  Mervin LeRoy em 1951, e com Robert Taylor e Deborah Kerr nos principais papéis. Esta seria a quinta versão da história, e Kawalerowicz sonhava realizá-la há 35 anos, porque sentia que as versões anteriores não feito justiça suficiente ao estilo e conteúdo do livro. Figurinos, cenários, e efeitos especiais muito realistas, transformam o filme numa tentativa credível de permanecer fiel aos eventos históricos e pessoas em que se baseia.  

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Austeria (Austeria) 1982

Verão de 1914. Primeiro dia e noite da grande guerra. Um grupo de refugiados judeus encontra-se preso numa pousada fronteiriça: representantes da rica burguesia e dos camponeses pobres, radicais políticos e radicais religiosos...Um confronto das atitudes das pessoas numa situação de incerteza e perigo. Apenas Tag, o velho e sensato porteiro, mantém uma calma estoica. Com os seus dons para o drama psicológico íntimo Jerzy Kawalerowicz pinta um retrato vivo de um mundo desaparecido, os judeus polacos com as suas crenças, tradições, e humor original...
Debaixo do regime Comunista na Polónia (1944-1989) não havia uma livre discussão sobre etnias ou minorias: não só sobre os Judeus e o Holocausto, mas também sobre as minorias ucranianas, bielorussas ou alemãs. O partido comunista polaco fabricou uma visão de propaganda de uma nação homogénea, "unida sob a sábia liderança do Partido dos Trabalhadores". Isto criou uma visão distorcida e falsificada da história, porque a Polónia sempre foi multiétnica e multicultural, desde o inicio. "Austeria", de Kawalerowicz, era tão importante para a cultura polaca do pós-guerra porque era uma das poucas excepções, quando durante um curto período de liberalização, os artistas foram autorizados a dizer a verdade. 
A história por trás de "Austeria" está cheia de dificuldades e drama. O filme não é apenas um tributo a um mundo que foi irrevogavelmente destruído mais tarde pelo Holocausto, mas também é um testemunho da tenacidade do realizador, que lutou 15 anos para conseguir fazer o filme.
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Faraó (Faraon) 1966

O estado egípcio enfrenta dificuldades, os assírios pressionam por fora, o estado está à beira da bancarrota, profundamente endividados aos mercadores fenícios, e as pessoas não podem ajudar, porque estão pobres. Ramses XII morre, e o seu filho Ramses XIII é proclamado faraó. Para acabar com o rápido declínio do Egipto, o jovem Ramses XIII decide aproveitar os tesouros armazenados por gerações nos templos, para gasta-los em reformas sociais e travar a guerra contra a Assíria. Mas o Clero opõe-se, e começa uma guerra política e religiosa entre os sacerdotes e o jovem faraó. 
"Faraó" traz-nos uma mistura inebriante de visuais deslumbrantes e cenários que trazem o mundo antigo de areias e superstições vividamente para a vida, ao mesmo tempo concentrando-se no drama humano íntimo com um estilo de exposição que tem muito a ver com as obras de Shakespeare. Contrastando com "The Ten Commandments" (1956), de Cecil B. DeMille é um exercício útil, porque confunde a sua história com a história da Páscoa, fazendo referências óbvias ao Holocausto nazi para formar um continuo sofrimento judaico, que apesar de subestimado, funciona como um valente soco. Onde DeMille criava um mundo tão fantástico que o seu filme se tornava uma lenda por direito próprio, Kawalerowicz criava um mundo primitivo em que o poder do mito e do ritual é realmente aterrorizante. 
O filme é adaptado de um romance do século 19 do escritor polaco Bolesław Prus, com o mesmo nome. A produção demorou três anos, começando no Outono de 1962 com a criação de um estúdio em Lodz. As filmagens tiveram lugar na Europa, Asia e Africa, com a maioria das cenas dos interiores a serem filmadas num estúdio em Lodz. As cenas de massas foram filmadas, em maioria, no deserto de Kyzyl-Kum, no Uzbequistão. O exército soviético forneceu 2000 soldados para trabalharem como figurantes, e o exército Egípcio mais 2000. O filme seria nomeado para o Óscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, assim como participou em Cannes, no festival de 1966.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Curso Livre O Ensaio Audiovisual e a Escrita sobre Cinema

No próximo ano, entre 30 de Janeiro e 17 de Fevereiro, o My Two Thousand Movies vai associar-se ao Luís Mendonça e ao Luis Miguel Correia na organização de um curso intitulado "Curso Livre O Ensaio Audiovisual e a Escrita sobre Cinema" O curso será realizado na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas – Universidade Nova de Lisboa (FCSH/NOVA) e ao mesmo tempo será realizado um ciclo do mesmo tema no blog. Podem ler tudo aqui. Evento no facebook, aqui.
Link para a inscrição, aqui.


Madre Joana dos Anjos (Matka Joanna od Aniolów) 1961

Passado no século XVII. Um convento numa pequena cidade está a ser visitado por altos oficiais católicos que tentam exorcizar a freira supostamente possuída por demónios. Um sacerdote foi queimado por se ter deixado tentar pelas freiras, principalmente a Madre Superiora que traz a histeria colectiva ao grupo. Entretanto chega ao local um jovem sacerdote que vem ajudar no exorcismo. O seu primeiro encontro com a líder do Convento, a Madre Joana dos Anjos, deixa-lhe marcas, e demonstra que não vai ser uma trabalho fácil...
Baseado em acontecimentos reais reportados em Loudon, França, "Madre Joana dos Anjos" funciona como uma sequela histórica ao filme de Ken Russell sobre o mesmo assunto, "The Devils", contudo feito 10 anos antes. A igreja desencadeou uma investigação ao padre anterior de Loudon, o padre Urbain Grandier, e suspeitou que ele dormia com as freiras. O convento inteiro, sob um notável feitiço de possessão, também o acusou de bruxaria, acabando por ser queimado na fogueira.
O filme precede "The Exorcist", de William Friedkin, em dois temas, tanto na virgen inocente transformada em objecto do demónio, como no seu tratamento a assuntos relacionados com demónios. Contudo, Jerzy Kawalerowicz, um estudante da Escola de Cinema Polaca, utiliza muito bem a frenética Lucyna Winnicka, interpretando de forma quase sobrenatural, como uma rebelde contra as tendências realistas do passado cinematográfico do seu país. O país estava sob o regime comunista, e os filmes eram feitos sob estritas directrizes, para poderem ser exibidos na União Soviética.
"Madre Joana dos Anjos" é um filme pesado, visualmente vigoroso, e profundamente perturbador da fé, da repressão e do fanatismo. Trouxe problemas inultrapassáveis para o realizador, que teve problemas com a igreja durante muitos anos. Exibido em Cannes em 1961, ganhou o prémio especial do júri. É o filme mais famoso do realizador internacionalmente.
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terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Comboio Correio (Pociag) 1959

Um homem, Jerzy, entra num comboio para a costa do Mar Báltico. Ele parece estar em fuga de alguma coisa, tal como parece a estranha mulher com quem ele tem de compartilhar o compartimento. Entretanto, a polícia anda atrás de um assassino, que pode estar a bordo do comboio.
"Night Train" de Jerzy Kawalerowicz, possui todas as características de um clássico "filme de comboio". Um assassino em fuga, um encontro casual entre dois viajantes atraentes forçados pelas circunstâncias a partilhar uma cabine durante a noite, uma mise-en-scène restrita. No entanto, Kawalerowicz, procura outra coisa, e por detrás da relação entre os dois passageiros espreita um vazio profundo. no final do filme muitas questões do enredo permanecem sem resposta, algumas das relações centrais não são cumpridas, e o seu objectivo inescrutável. E isso não acontece por acaso. Para um filme ostensivamente preocupado com a sexualidade, há um sentido latente de solidão e perda, nas acções e palavras das personagens. O filme também é sobre a falta de coração na cultura polaca, assombrada pelo seu passado recente, relacionado com a guerra. 
"Night Train" é um retrato psicológico tenso, convincente e perspicaz da necessidade emocional, da histeria e do comportamento das pessoas. Utilizando ângulos agudos, iluminação de alto contraste, e enquadramentos estreitos e claustrofóbicos, Jerzy Kawalerowicz cria um sentido de ambiente elevado, que reflecte a consciência dos passageiros e as emoções sublimadas.
O filme foi feito na época pós-estalinista na Polónia, quando os artistas podiam produzir arte que não fosse partidária, e este filme é uma examinação subtil tanto do persistente trauma da guerra, como do facto que o comunismo não ofereceu ser uma alternativa redentora ou significativa. Assim, as falhas da passada ordem social, e a ruptura violenta do antigo regime no pós-guerra são inseparáveis da cultura sexual e social representada pelos passageiros do comboio. 

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segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Shadow (Cien) 1956

O filme consiste em três histórias de suspense. Começamos no presente, em 1956, quando um jovem casal passeia no seu carro, por uma estrada rural ladeada de terras planas, e acabam por ver um homem cair de um comboio expresso a alta velocidade. O oficial encarregue da investigação tem a certeza que a sua identidade será descoberta, já o médico legista não tem tanta certeza, dado o estado em que o cadáver foi encontrado. Ele começa a relatar uma história passada em 1943, durante a ocupação Nazi da Polónia, quando um traidor da resistência causou um incidente mortal, e nunca foi descoberto. 
O segundo conto é relatado por outro detective. Em 1946 há instabilidade e luta contra o governo provisório. Existe um grupo de terroristas activos, e o detective e outro homem conseguem infiltrar-se, mas a ajuda desse outro homem vai ser ineficaz.
De volta ao presente, um jovem trabalhador das minas de carvão é preso quando sai do comboio. É suspeito da morte do homem que caíu do comboio no inicio do filme, e começa a contar a sua história à volta de todo este mistério. 
Estas três histórias negras estão enraizadas na realidade polaca, que tem a ver com temas e acções políticos, ao contrário das histórias americanas do período do cinema Noir, que têm mais a ver com o comportamento criminoso do homem. Mas em comum com o Film Noir americano, as histórias em "Cien" geram um ambiente de suspeita, medo, traição e incerteza, com os exteriores escolhidos a acrescentarem um enorme realismo. Há sequências no comboio que são reais, nas quais os actores perigosamente perseguem alguém com apenas um corrimão estreito a separá-los de caírem para a rua. Nesta, e noutras sequências o filme situa-se perfeitamente entre o "film noir" e o neo-realismo", alcançando o elemento documental que marca o neo-realismo  italiano. 
Um dos primeiros filmes de Jerzy Kawalerowicz, que lhe valeu a sua primeira participação em Cannes. Legendas em Inglês.

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domingo, 25 de dezembro de 2016

Jerzy Kawalerowicz

Durante a Segunda Guerra Mundial era permitido filmar em todos os países debaixo da ocupação alemã, excepto na Polónia, pelo medo do uso subtil de referências patrióticas. Os filmes polacos que emergiam dos escombros da guerra, tendiam a lidar com temas como a ocupação nazi, os horrores da guerra, e os heróis da resistência, mas os filmes dirigidos por Jerzy Kawalerowicz eram uma excepção.
O seu mais famoso filme, "Mãe Joana dos Anjos" (1961), passado num convento do Século XVII, foi o primeiro filme polaco do pós-guerra a não lidar com a guerra: era a história de um padre que investigava possessões demoníacas entre freiras, para se tornar objecto do desejo da Madre Superiora. O tema, supostamente baseado em factos verídicos, também inspirou um livro de Aldous Huxley, um filme de Ken Russell, e uma opera de Krzysztof Penderecki, era uma poderosa alegoria do bem versus o mal, a castidade versus o erotismo.
De acordo com Kawalerowicz, de quem era de conhecimento público que era ateu, é tomada uma posição clara contra o dogma humano. Não seria de estranhar que a igreja se colocaria contra o filme desde o início, colocando panfletos nas igrejas avisando as pessoas que era pecado mortal ver o filme. Seriam precisos muitos anos até à reconciliação de Kawalerowicz com a igreja, até ao ano de 2001, quando o Papa polaco João Paulo II assistiu à estreia do último filme do realizador "Quo Vadis".
Kawalerowicz nasceu na cidade de Gwozdziec, que em breve se tornaria parte da rússia ucraniana. Nesta cidade 60% da população era composta por judeus, 30% ucranianos, 10% polacos, e era uma cidade muito típica da segunda guerra, destruída pelo holocausto. Este cenário serviria de base para um dos melhores filmes do realizador, "Austeria" (1982), passado no primeiro dia da Primeira Guerra Mundial, quando um grupo de judeus foge do exército cossaco do Czar, ficando encurralado numa estalagem. Com a sua inclinação habitual para o drama psicológico íntimo, e a sua inclinação para a história, Kawalerowicz pinta um retrato vívido, de um mundo recentemente desaparecido.
Kawalerowicz estou arte em Cracóvia, antes de entrar no instituto cinematográfico. Tornou-se assistem de realização com 20 e poucos anos, e começou a realizar em 1952. Em 1955 tornou-se líder da prestigiada unidade de produção KADR. Durante o seu mandato sempre resistiu a pressões do regime comunista para produzir abertamente filmes de propaganda. No entanto, ficou mal visto aos olhos de muitos, quando em 1983, assinou um documento que criticava alguns realizadores, como Andrzej Wajda, que antes apoiava solidariamente.
Os filmes que realizava, muitas vezes com alguns anos de diferença, mudavam muito de estilo e de assunto, de um para o outro. "Night Train" (1959), está algo entre o estudo psicológico e um thriller. Conta a história de uma mulher que sofre uma crise interna, compra um bilhete para um comboio de férias lotado, e se vê a dividir o compartimento com um médico infeliz. A policia embarca no comboio em busca de um assassino.
O último filme de Kawalerowicz foi feito com a idade de 79 anos, e era o impressionante "Quo Vadis?" (2001), quinta e talvez melhor adaptação para o cinema da famosa obra de Henryk Sienkiewicz, romance do século XIX sobre Roma e o domínio de Nero. Kawalerowicz sonhava realizá-la há 35 anos, porque sentia que as versões anteriores não feito justiça suficiente ao estilo e conteúdo do livro. Com um orçamento de 7,5 milhões de libras, o mais alto de sempre para um filme polaco, foi-lhe dada a hipótese de tornar o conto épico mais fiel à história original possível.
O realizador falecia seis anos depois, com a idade de 85 anos.


 Esta semana vamos homenagear este realizador polaco. Não veremos todos os seus filmes, mas veremos as suas obras mais importantes:

- Shadow (Cien) 1956

- Night Train (Pociag) 1959

- Madre Joana dos Anjos (Matka Joanna od Aniolów) 1961

- Faraó (Faraon) 1966

- Austeria (Austeria) 1982

- Quo Vadis? (Quo Vadis?) 2001