quinta-feira, 31 de julho de 2014

Razorback (Razorback) 1984



Um javali selvagem aterroriza o interior australiano. A primeira vítima é uma criança, que é morta. O avô é levado a tribunal pelo crime, mas absolvido. Segue-se uma jornalista da TV Australiana, mas desta vez o seu marido vai até ao local do crime para procurar a verdade. Os habitantes da zona não o querem ajudar, mas ele junta-se a um caçador e a uma mulher para encontrar a fera.
"Razorback" é uma espécie de versão de "Jaws" de Steven Spielberg, com o mortífero tubarão a ser substituído por um enorme javali. Escrito por Everett de Roche, um dos melhores argumentistas da Ozploitation, e que ao mesmo tempo era a obra de estreia de Russell Mulcahy na realização, futuro realizador de "Highlander" 1 e 2, e de "The Shadow". Everett de Roche já por mais do que uma vez que tinha pegado em argumentos de animais-monstros, e já tinha mostrado o interior da Australia em road movies anteriores, por isso parecia natural juntar estas duas idéias no mesmo filme, a partir de uma novela de Peter Brennan.
A merecer um lugar no panteão dos melhores filmes de género do continente australiano, "Razorback" merece a fama de culto que tem, apesar da relativa obscuridade que teve ao longo dos primeiros anos. A culpa foi da desconfiança que as pessoas tinham relativa a filmes que eram rip-offs de "Jaws", ou o facto de que muitas pessoas não sabiam o que era um javali. Graças ao VHS a fama do filme foi crescendo, nos anos oitenta e noventa.
O trabalho de câmera de Dean Semler, de "Mad Max 2" e "Dances With Wolves", cria um ambiente quase místico para com o interior baldio da Austrália, com longas sombras e estrelas cadentes na noite a serem adicionadas às paisagens desoladas. Ao filme é adicionado levemente alguma crueldade para com os animais, com imagem de um matadouro, e violência para com os porcos e os cães. "Razorback" acaba por ser um divertido filme de terror da década de 80.

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quarta-feira, 30 de julho de 2014

O Asfalto do Medo (Roadgames) 1981



Pat Quid conduz um atrelado através da Australia. Pelo caminho ele encontra vários outros condutores, e os habituais viajantes a pedir boleia. Um passatempo da preferência de Pat é fazer jogos para passar o tempo. Pamela é uma das viajantes a quem ele dá boleia, e quando ela desaparece ele acha que o condutor de uma carrinha tem vindo a agir de modo suspeito, e provavelmente é um serial killer que vem sendo mencionado no rádio. Começa aqui o jogo do gato e o rato, que vai atraír a polícia...
Auto declarado aluno de Alfred Hitchcock, Richard Franklin trabalhou mais uma vez com o argumentista Everett de Roche, para criar uma espécie de homenagem a "Rear Window", excepto que não se passava num quarto, mas numa estrada, na cabine de um semi-reboque.  Para este passeio temos Jamie Lee Curtis, a filha da "Psycho" Janet Leigh, que junto com o motorista do camião, Stacy Keach, tenta chegar ao fundo de uma história que pode ligar uma série de corpos que têm aparecido ao redor do continente australiano. 
A história é muito simples, com a van e o camião a encontrarem-se sempre em todos os lados que vão. Embora o filme levante claramente a herança de Hitchcock (a personagem de Curtis é chamada de "Hitch", por Keach), "Roadgames" acaba por totalmente diferente de tudo o que vimos antes.
O desenrolar do filme faz-nos suspeitar do pior: o que está dentro dos sacos do lixo? o que está dentro da lancheira do homem da van? Mas o mais sensato será não tomar nada como garantido. Alguém deve ter reparado nas similaridades entre Franklin e Hitchcock, que ele acabaria por ser convidado para realizar a sequela de "Psycho", dois anos depois. E esta sequela até que não foi tão má como isso, tendo recebido algumas críticas agradáveis, e tendo alcançado óptimos resultados de bilheteira. A música é de Brian May (o compositor australiano, não o membro dos Queen).

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terça-feira, 29 de julho de 2014

Long Weekend (Long Weekend) 1978



Numa última tentativa para salvar o seu casamento, um casal parte para uma praia deserta num local distante. Tensão e brigas são uma constante, e só piora à medida que chegam ao destino. Ambos são egoístas, arrogantes, com um grande desrespeito ao meio ambiente em redor. Consumidos pelos seus próprios problemas, ambos espalham lixo descuidadamente, atropelam cangurus, e destroem os ovos das aves. No entanto, o casal vai pagar caro, quando a natureza contra-ataca, e os animais anteriormente dóceis se tornam agressivos.
Filme de culto/choque de Christopher Eggleston, lançado na época alta da New Wave australiana, é um filme de terror ecológico, reportando todos os aspectos da mãe natureza como estando interligados, e a humanidade poluente como tendo de ser erradicada. Com argumento de Everett De Roche, cujos outros argumentos como "Patrick" e "Razorback" também veremos neste ciclo, oferece-nos uma visão sinistra do sistema imunológico do planeta, fechando fronteiras, e lutando contra os corpos estranhos indesejáveis.
Colin Eggleston faz uma mudança bastante acentuada na sua carreira, depois do softporn "Fantasm Comes Again". Muito da atmosfera quase onírica e inquietante, é fornecida pela beleza da fotografia em exteriores, em vez da tentativa de pregar sustos baratos (embora haja alguns efeitos mínimos datados), e com o tempo a passar para os protagonistas destrutivos, a ensolarada figura pitoresca da praia, assim como a fauna e a flora, se tornam gradualmente mais escuras, sombrias e assustadoras.
Alguns criticos, na altura do lançamento do filme, reclamaram que a dupla de protagonistas (John Hargreaves e Briony Behets) tinham sido um erro de casting como protagonistas, mas é precisamente por se sentirem deslocados que o seu estado não natural dentro da narrativa é fortalecido. Embora não seja um filme sem falhas, consegue na sua "exploitation" e variação das convenções dos géneros, com temas como o terror ecológico ou o reposicionamento da humanidade como uma ameaça exterior, ser uma experiência eficaz e enquietante.
No auge do sucesso do terror australiano, ganhou vários prémios em Festivais, três eles no festival de Sitgés.

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segunda-feira, 28 de julho de 2014

Patrick (Patrick) 1978



Depois de uma morte chocante da sua mãe e da sua amante, o sinistro Patrick está em coma num hospital privado, e a sua única acção passa por cuspir. Quando uma jovem e bela enfermeira, separada recentemente do marido, começa a trabalhar no hospital, sente que Patrick tenta comunicar com ela, e que tenta usar os seus poderes psíquicos para controlar a sua vida.
Depois do sucesso de "Carrie" (1976), estava aberto mais um caminho para explorar no cinema. Os filmes sobre poderes psíquicos de repente faziam parte da linguagem dos filmes de terror, e estava na hora de apanhar boleia, e aproveitar a onda enquanto era possível. Estava na hora de prender os fios invisíveis aos objectos, e arremessá-los contra as paredes, graças ao poder da mente liberta. Estes filmes representavam o maior medo de todos os pais, e, simultaneamente, a sua grande esperança. Os poderes sobrenaturais que Carrie White usava para decretar a sua vingança sobre os seus colegas de escola, eram o sonho de qualquer jovem reprimido, maltratado ou abusado na infância.
A beleza de "Patrick", produção australiana, é não seguir pelo caminho mais fácil, em que nos sentimos identificados pelos personagem principal. Em vez disso, mostra o que ele realmente é - uma criança mimada num corpo de adulto, sem qualquer preocupação com os outros sempre que ele faz alguma coisa contra alguém ao seu redor.
"Patrick" foi essencialmente feito como uma resposta a "Carrie", mas conseguiu ir muito mais longe do que isso, graças ao seu realizador, Richard Franklin, discípulo de Hitchcock, que depois faria filmes como "Road Games"ou "Psycho 2". Na altura ele tinha feito apenas filmes para TV, e filmes de softcore como "Fantasm". Fez enorme sucesso em alguns países da Europa, e conseguiu prémios importantes, em festivais como Avoriaz ou Sitgés.

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sábado, 26 de julho de 2014

Ozploitation

A Austrália atravessou um deserto cinematográfico nos anos 60. Para além de duas produções de Michael Powell que por lá foram filmadas, pouco mais foi feito, e era preciso inverter o rumo dos acontecimentos.
Na década de 70 aconteceram duas coisas que alteraram tudo. Primeiro, para aumentar a produção cinematográfica, o governo australiano cortou drasticamente as taxas a aplicar no cinema, e isso veio a incentivar a que fosse investido em produções cinematográficas. Foi aqui que começou a chamada "New Wave do Cinema Australiano", da qual fazem parte filmes como "Walkabout"(1971), "Picnic at Hanging Rock" (1975), "The Last Wave" (1977), ou "The Chant of Jmmie Blacksmith" (1978), entre outros. Mas calma, que não é destes filmes que vamos falar...
Com um aumento tão significativo de produções cinematográficas, algumas de cariz sexual, os australianos viram-se obrigados a criar um "rating R", destinado a espectadores com mais de 18 anos. Este facto criou um mercado que muitos realizadores estavam ansiosos por explorar. Levou a um aumento substancial de filmes de "sexploitation", do qual "Alvin Purple" é um dos mais famosos exemplos.
Nos anos seguintes tivemos um grande aumento de filmes do tal "rated R", não só obras de cariz sexual, mas também um grande número de filmes de terror, suspense, comédias, etc. Tudo produções de baixo orçamento, que atraíam vários produtores a tentarem explorar este filão no mercado. O exemplo mais famoso deste tipo de filmes, foi, é claro, a saga de "Mad Max", o único que conseguiu fama a nível internacional.
Tarantino chamou a este movimento "aussiesploitation", do qual ele era grande fã, mas a partir de 2008, surgiu um documentário, por sinal produzido por Tarantino, e onde o realizador Mark Hartley resolveu abreviar o termo para "Ozploitation". Este termo é assim conhecido desde 2008, e para iniciarem este ciclo aconselho mesmo a verem o documentário. Podem tirá-lo daqui, legendado em português.
Esta semana vamos dar uma vista de olhos pela "Ozploitation", e para isso fiz uma selecção de cinco dos seus mais famosos filmes. Deixei os "Mad Max" de fora, porque obviamente toda a gente já os conhece.

Eis a programação desta semana:

Segunda: Patrick (1978), de Richard Franklin

Terça: Long Weekend (1978), de Colin Eggleston

Quarta: Roadgames (1981), de Richard Franklin

Quinta: Razorback (1984), de Russell Mulcahy

Sexta: Fair Game (1986), de Mario Andreacchio

quinta-feira, 24 de julho de 2014

O Gato Preto (Kuroneko) 1968



Uma mulher e a sua afilhada são violadas e assassinadas por um grupo de samurais, durante a guerra civil. Pouco tempo depois, uma série de samurais regressados da guerra a essa área, são encontrados mortos com a garganta rasgada. O governador chama um jovem herói para acabar com o que aparentemente é um fantasma. Ele acaba por encontrar as duas belas mulheres, e depois de uma purificação espiritual vai envolver-se num duelo emocionante com um demónio.
Em parte baseado numa história do folclore japonês chamada "A Vingança do Gato", este filme de Kaneto Shindô é provavelmente a entrada definitiva do bakeneko (gato-demónio), sub-género do cinema de terror japonês, que também contava com obras como "Ghost Cat of Nabeshime" (1949) de Kunio Watanabe, "Ghost Cat of Arima Palace" (1953) de Ryohei Arai, ou "The Mansion of the Ghost Cat" (1958), de Nakagawa, obviamente traduzidos para inglês. As tradições teatrais japonesas estão no core deste clássico "kaidan eiga", com fortes elementos do teatro de Noh em algumas encenações e coreografias, assim como uma clara influência de Kabuki nas acrobacias e nos espíritos dos gatos.
Além de enraizado no antigo folclore japonês, é um filme envolvido tanto no tormento psicológico como na vingança do outro mundo. É portanto, um desvio significativo em relação à maioria dos filmes do realizador, que são elogiados pelo realismo do pós-guerra e forte crítica social. O historiador do cinema japonês Donald Richie descreveu Shindo como um "dos melhores pictorialistas do Japão", uma afirmação bastante apoiada por este filme, filmado elegantemente num visceral e expressionista preto e branco, é mais um filme arrebatador visualmente, cuja estética ajuda a completar um conto (talvez excessivamente) familiar de amor, perda e vingança.
Muito mais um filme de terror do que "Onibaba", do mesmo realizador, com as suas duas belas mulheres, e elementos do vampirismo e a mudança sobrenatural de forma, foi ignorado injustamente durante muito tempo, talvez devido ao crescimento dos filmes de monstros do Japão, mas com o tempo foi-lhe reconhecido o valor. 

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Kwaidan (Kaidan) 1964



Um filme que contém quatro histórias distintas: "Black Hair", onde um pobre samurai se divorcia do seu verdadeiro amor para casar por dinheiro, mas tem um casamento desastroso acabando por voltar à sua antiga esposa, para descobrir algo de terrível sobre ela. "The Woman in the Snow": preso numa tempestade de neve um lenhador encontra um espírito da neve na forma de uma mulher, que lhe poupa a vida na condição de ele não contar a ninguém o que viu. Passam-se 10 anos, e ele esquece-se da promessa... "Hoichi the Earless": Hoichi é um músico cego a viver num mosteiro, que canta tão bem que até uma corte real fantasmagórica lhe ordena para cantar uma balada épica da sua morte, para eles. Por fim temos  "In a Cup of Tea", onde um escritor conta a história de um homem que vê refletida na sua chávena de chá a face de um homem.
É irónico que o autor das mais conhecidas e respeitadas histórias de fantasmas japoneses, não seja sequer japonês. Nascido na Grécia, filho de pais gregos/irlandeses, imigrado para os Estados Unidos com a idade de 19, Lafcadio Hearn trabalhou alguns anos como jornalista, em Cincinnati e New Orleans. Mais tarde apaixonou-se pelo Japão, e pelo modo de vida japonês, tendo-se mudado para aí e criado uma família. Continuou a escrever sobre uma enorme variedade de assuntos, alguns dos quais a serem adaptações em prosa dos contos sobrenaturais do folclore japonês. 60 anos depois da sua morte, o realizador Masaki  Kobayashi fez um filme sobre quatros das histórias deste autor. O resultado chamou-se "Kwaidan", literalmente "histórias de fantasmas", hoje em dia celebrado como um dos filmes mais importantes a saír do Japão nos anos sessenta.
As histórias são na sua maioria simples de estrutura (reflectindo a sua pouca duração literária), tal como devem ser as histórias de ficção e horror. Depois de tantos anos passados, e das histórias terem percorrido o Oriente e o Ocidente, continuam a ser tão assustadoras como eram antes. Por vezes surreal na sua evocação de acordar de um pesadelo, o drama é frequentemente expressionista, na exteriorização da angústia mental dos seus personagens. Visualmente o filme é impressionante, de uma beleza tão assombrosa que é de tirar o fôlego. A fotografia de Yoshio Miyajima, e a direção de arte de Shegemasu Toda servem a história em atmosfera, por vezes numa forma semi-abstracta ou simbólica.
"Kwaidan" é um filme difícil de classificar, e é um exemplo interessante das tentativas infrutíferas de tentar classificar um filme num determinado género. Inclui alguns elementos de terror e sobrenatural, mas também é um notável filme romântico, e por vezes estes tons conflitantes são montados em contraste um com o outro. No fim de contas, não são as histórias em si, mas o modo como elas são contadas, que fazem de "Kwaidan" um filme tão magnífico. Combinando a majestosa ópera com o minimalismo de uma peça de teatro.
"Kwaidan" foi originalmente lançado no Oeste numa versão de 125 minutos, mas fez-se uma restauração que lhe devolveu os 164 minutos originais. É essa a versão deste post.
Conseguiu uma nomeação para um Óscar de Melhor Filme em língua estrangeira.
Legendado em inglês.

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quarta-feira, 23 de julho de 2014

Onibaba (Onibaba) 1964



Uma velha mulher e a sua afilhada ganham a vida a matar samurais rebeldes, atirando o seu corpo para um grande buraco, para depois vender os seus pertences. Quando Hachi (um amigo do marido morto da jovem), regressa da guerra, começa uma relação aberta com a rapariga, causando que a jovem passe menos tempo com a velha, que se sente abandonada...
"Onibaba", de Kaneto Shindô, foi feito de forma independente, fora do sistema de estúdio japonês, e é um melodrama de terror atmosférico, com base num antigo conto popular budista. Passado no período feudal do Japão, conta a histórias de pessoas desesperadas, a tentar não apenas permanecer vivas num mundo de caos, como também tentando manter uma aparência de humanidade. Sentimentos e sexualidade são o coração da história,  com os instintos básicos - não só a fisicalidade animalesca mas também a necessidade de ligação - são o último refugio dos personagens.
Shindo teve a idéia brilhante de fazer o filme no meio das canas altas de Suski, que teve um efeito intenso na narrativa. É passado no tempo da guerra, e há até mesmo a sugestão da destruição quase apocalíptica, porque nunca vemos quaisqueres sinais genuínos de civilização, apenas os seus restos espalhados. O campo serve para isolar os personagens, criando uma espécie de microcosmos de humanidade que é, para todos os efeitos, tirado da guerra do mundo exterior.
A um nível puramente estético, "Onibaba" é uma excelente peça de cinema, enquanto Shindo carrega a sexualidade na mise-en-scene, em tudo, desde as folhas a balançar, o esvoaçar dos pássaros, ao nascer da lua. Há muito pouco diálogo, de modo que os recursos visuais são muito mais importantes, tanto narrativamente como simbolicamente. A atmosfera estranhamente atraente é agravada por uma partitura musical de Hikaru Hayashi que se articula de uma mistura de jazz livre com batidas tribais e vozes humanas que soam como gritos de uma sessão de tortura.

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terça-feira, 22 de julho de 2014

Jigoku (Jigoku) 1960



Jigoku conta a história do jovem Shiro, e do seu melhor amigo Tamura, que vão passear à noite de carro, e acidentalmente atropelam um bêbado. Secretamente eles deixam o corpo no local e fogem. Um gesto que vai levar Shiro e a namorada até às profundezas do inferno.
Os trabalhos de H.G. Lewis e do brasileiro Zé do Caixão são muitas vezes citados como os primeiros filmes Gore. A sua influência no género é inegável, mas Jigoku ainda precede, no tempo, filmes como "Bood Feast", o primeiro marco no género. A tradução de Jigoku é "inferno", e é exactamente aí que o realizador Nobuo Nakagawa nos leva, neste jogo de moralidade ilusória. Seguimos um homem através de vários infernos. O primeiro é vivido acima do subsolo, enquanto o outro é mais tradicional, um mundo cheiro de fogo e enxofre.
Muitos artistas tentaram visualizar o que o inferno seria. As pinturas de Hieronymus Bosch e Francis Bacon são talvez as visões mais conhecidas, e mais respeitadas, e nota-se a influência destes pintores no filme de Nakagawa. Também podemos encontrar algumas imagens clássicas do folclore japonês, e o estílo ímpar das suas histórias de fantasmas, assim como os tradicionais trajes dos senhores feudais. O inferno em "Jigoku" é uma paisagem de pesadelo, muito dos efeitos especiais que Nakagawa emprega preveem a estética psicadélica que apareceria no final da década de sessenta. No início do filme, o pai de Yukiko faz um discurso sobre as diversas versões do Inferno que existe no mundo religioso, mas foca-se mais na visão budista. O inferno aqui é como um sonho do qual não podemos saír. Qual mais viajamos menor é realmente a distância que precorremos. Não há nenhum lugar para ir, mas a compulsão de encontrar uma saída é irresistível.
Os últimos quarenta minutos do filme são verdadeiramente notáveis. Parece que pertencem a um filme diferente. A visão de Nakagawa do inferno é um deleite visual. A iluminação é de arregalar os olhos (com abundância das cores verdes e vermelha), os demónios japoneses são assustadores e a violência é extrema. Na altura em que saíu foi um filme chocante.

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segunda-feira, 21 de julho de 2014

Agosto na Fyodor Books


Durante todos os Sábados do mês de Agosto, vou estar na Fyodor Books, pelas 18h, para apresentar um maravilhoso ciclo de cinema de género italiano.
Ao longo do mês haverá dois ou três convidados especiais, e no dia 23 irá haver uma pequena festa dos seis anos dos thousand movies. Apareçam. 

Quem quiser pode aderir ao evento. Aqui.  

Morada da livraria:

Avenida Óscar Monteiro Torres, n° 13,B,
Campo Pequeno 
1000 Lisboa

The Ghost of Yotsuya (Tôkaidô Yotsuya Kaidan) 1959



Em  "The Ghost of Yotsuya", do realizador Nobuo Nakagawa, temos uma das melhores adaptações do conto de folclore japonês, "Yotsuya Kaiden". O filme é feito como o teatro kabuki, lidando com paixão, infidelidade e vingança, e tal como nas grandes tragédias de Shakespeare há sempre uma tentação nos calcanhares do protagonista, levando-o para um caminho de auto-destruição; e há sempre o traído, um inocente que só tem carinho para dar.
Iemon é um samurai egoísta que não tem problemas em assassinar o pai de Oiwa (a mulher que deseja), para assegurar o casamento. Naosuke, um empregado do assassinado, assiste ao crime, mas faz uma aliança com o criminoso para que possa tirar algum benefício. Depressa Iemon se farta de Oiwa, e começa a deitar os olhos em Oume, a herdeira de um nobre influente. Tenta então matá-la, inventando uma história de que ela tem um caso com o seu massagista, Takuetsu.
Histórias de fantasmas (kaidan) são muito populares na cultura japonesa, e esta é uma das suas mais famosas. Tal como é habitual nos filmes kaidan, perde-se muito tempo na construção do ambiente. Na verdade, neste caso, não é tempo perdido, porque os actos diabólicos de Iemon são suficientes para manter o filme interessante. O climax vai-se construindo até ao terceiro capítulo, e o que vamos testemunhar não vai ser de todo agradável para o protagonista, e nem a sua mente diabólica lhe vai servir para fugir a uma vingança atroz.
A iluminação do filme é impecavelmente feita, e mostra a sensibilidade e a capacidade de Nakagawa de construir um clima de medo. Acima de tudo é um filme sobre atmosfera, imagine-se como seria um filme da Hammer realizado por Hitchcock. A grande opulência da fotografia e da cenografia são muito bem conseguidas, e Nakagawa é um realizador que sabe muito bem quando deve envolver a extravagância, e que sabe quando o ambiente deve passar a ter o papel principal.

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sábado, 19 de julho de 2014

Terror Clássico Japonês

O terror japonês já pode ser encontrado desde o final do século 19, quando curtas como "Jizo the Ghost" ou "Ressurection of a Corpse" foram produzidas, mas o verdadeiro boom deste cinema, só se deu depois do final da Segunda Guerra Mundial. Os filme de terror sempre tenderam reflectir as ansiedades sociais dominantes em certa altura e lugar, onde esses filmes foram produzidos: a corrente do expressionismo alemão é disso um belo exemplo.
O pós-guerra foi um tempo turbulento para o Japão. O país tinha sofrido uma derrota militar humilhante, com baixas catastróficas, 2,7 milhões de mortos, e um grande número de desaparecidos ou feridos. Centenas de milhar faleceram nas obliterações nucleares de Hiroshima e Nagasaki, e a sua radioatividade. Para a derrota ser ainda mais humilhante, nos sete anos posteriores à derrota o Japão foi ocupado pelas tropas americanas, para se prevenirem do rearmamento.
A escala da destruição japonesa encontrou o seu mais óbvio espelho no ciclo de filmes "Kaiju Eiga" (monster movies) dos anos cinquenta, com o primeiro exemplo em "Godzilla", de 1954. Este filme, seguido de tantas sequelas e imitações, encenava a destruição de Tóquio, enquanto que a parada de monstros mutantes simbolizavam a ameaça da radiação, e a poluição ambiental. O medo do apocalipse e da destruição foram sempre uma constante no cinema de terror japonês, desde a segunda grande guerra até aos tempos actuais, enquanto as faces de mulheres assustadas (um sinal comum nas vítimas nucleares), encontraram corpo em certos filmes japoneses de horror da década de 60, como em "Ghost Story of Yotsuya" ou "Onibaba", que iremos ver neste ciclo.
Durante o período da ocupação os valores tradicionais colidiram com as forças de modernização ocidentais. O código Shinto em que a nação tinha sido construída, baseado na ética confucionista e que estabelecia responsabilidades entre o imperador e os seus súbitos, assim como entre membros de uma familia e amigos, foi substituido pelos valores da democracia ocidental, com uma nova ênfase no capitalismo individual. Muitos dos filmes de terror produzidos na década de cinquenta e sessenta dramatizaram esta colisão com o código, a busca egoísta do ganho pessoal, e a ausência de valores colectivos estão na origem de algumas destas histórias de fantasmas.
A estes filme foi dado o nome de Kaidan Eiga (histórias de fantasmas), normalmente baseadas em contos do folclore budista, ou em peças Kabuki. Fiz uma selecção destes filmes, que vos vou mostrar durante a semana.



Aqui ficam os seus nomes.

Segunda: The Ghost of Yotsuya (1959), de Nobuo Nakagawa

Terça: Jigoku (1960), de Nobuo Nakagawa

Quarta: Onibaba (1964), de Kaneto Shindô

Quinta: Kwaidan (1964), de Masaki Kobayashi

Sexta: Kuroneko (1968), de Kaneto Shindô