terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Nos Meus Lábios (Sur Mes Lèvres) 2001



Uma secretária surda está cansada de ser tratada como um burro de carga no seu local de trabalho, onde os colegas de escritório, invariavelmente, ficam com os créditos pelo seu trabalho duro. Socialmente também está destinada a fazer o papel de Cinderella, a fazer de babysitting para uma amiga, enquanto ela anda pela cidade. A salvação, ou pelo menos a hipótese de vingança, chega na forma do novo assistente de Carla, o ex-condenado Paul. Utilizando a habilidade de leitura labial de Carla, o duo inventa um plano para fazer um assalto.
"Uma história de amor onde os personagens nunca fazem amor". É assim que o realizador/argumentista Jacques Audiard descreve este inventivo filme de suspense. Desde o início Audiard manipula na banda-sonora para emergirmos no mundo frágil e solitário de Carla, que não é uma personagem deficiente estereotipada de santa, amarga e ciumenta,  apreciando o acerto de contas antigo.
Elegantemente composto pelo director de fotografia Mathieu Vadepied, "Sur Mes Lèvres" é substancialmente mais do que uma mera homenagem a "Janela Indiscreta", de Hitchcock, ou "Fim-de-Semana no Ascensor", de Louis Malle, dois filmes para os quais incorrem certos ecos narrativos. Graças ao brilhante argumento, e a interpretações de luxo de Emmanuelle Devos e Vincent Cassel, torna-se um bom estudo de duas figuras solitárias e estranhas, que recorrem gradualmente à sua dependência mútua.

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The Lonely Voice of Man (Odinokiy Golos Cheloveka) 1987



Um jovem soldado regressa do campo de batalha, e tenta conquistar uma relação com uma jovem local. A incapacidade de comunicarem e lidar com as suas vidas lembra-nos das pessoas que não conseguem sobreviver. A combinação de imagens de vídeo, tanto em fotografias como em imagens em movimento, é bastante bem conseguida aqui, unindo duas décadas, entre 1902 e os anos 20. No final tudo é húmido, escuro, e ameaçador.
Originalmente concebido por Sokurov como defesa do seu diploma na VGIK, "The Lonely Voice of Man" foi banido na URSS até à "glasnot". Depois de ser lançado foi imediatamente aclamado e nomeado para um elevado numero de prémios, sendo o mais importante o Leopardo de Bronze no Locarno International Film Festival.
Todos os actores do filme eram amadores, que combinados com as paisagens provincianas criam um senso de realismo. Sokurov já começa a aproximar-se do seu tema principal - a separação trágica entre o corpo e a alma. No seu diário, Sokurov escreveu que no livro de Platonov, de que é adaptada esta história, ele viu a história de um "coração fraco", para o qual a felicidade era um trabalho difícil. O amor e a vida em curso são eternas, mas inatingíveis para os sonhos das personagens.

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Chungking Express (Chungking Express) 1994



 A ligação entre o amor e o desgosto são o tempo e a solidão. "Chungking Express" é dividido em duas partes, sendo a primeira sobre o desgosto de amor. O amor traz-nos luz e alegria, no entanto, as pessoas mudam, e por vezes o amor é substituído por um vazio emocional e uma capacidade de realização. Os dois personagens principais na primeira metade do filme são o Polícia 223 e uma contrabandista misteriosa, vista apenas com uma peruca loira, óculos de sol vermelhos e uma capa de chuva. Estes dois personagens interagem em apenas 10% do filme, mas o seu encontro deixa-lhes marcas que perdurarão por uma vida inteira. A segunda história é sobre outro polícia, o 663, e a sua separação de uma hospedeira de bordo. Ele conversa com as suas mobilias, até conhecer uma nova rapariga num bar.
A primeira vez que Wong Kar Wai atraíu a atenção do ocidente foi com "Chunking Express", o seu terceiro filme, lançado em 1994. Na verdade, o filme foi feito durante uma pausa na pós-produção de "Ashes of Time" (Dung Che Xai Duk), um Wuxia muito elaborado, que tinha sido iniciado bastante anteriormente e que estava a ser orientado segundo as linhas mainstream do cinema oriental. "Chungking Express", feito com uma orçamento muito menor, por contraste, representava uma continuação do desenvolvimento do seu estilo pessoal, que já vinha a ser utilizado nas suas primeiras obras: "As Tears Go By" e "Days of Being Wild". A cada passo sucessivo nesta progressão, a narrativa de Wong parece mais sem rumo, menos estruturada. O foco é cada vez mais sobre o "mood" psicológico das personagens.
Com uma grande elegância visual, foi filmado com a câmara ao ombro, num curto espaço de tempo, e em espaços apertados, que obrigavam a uma grande inspiração artística. O argumento era apenas uma idéia que foi sugerida aos actores, que dão prestações notáveis. Passou por vários festivais na Europa e a na América, chamando a atenção para o nome do realizador, chegando a ser considerado o melhor filme da década de 90 alguns anos mais tarde.

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domingo, 7 de fevereiro de 2016

Uma Réstea de Azul (A Patch of Blue) 1965

Acidentalmente cega pela sua mãe com a idade de cinco anos, Selina D'Arcey passa os treze anos seguintes confinada a um minúsculo apartamento de Los Angeles, que partilha com a mãe e o avô, com quem vive uma vida miserável e muito solitária. Uma das poucas vezes que consegue ir ao parque local conhece Gordon Ralfe, um jovem bondoso que a trata com muito carinho, sem saber que ele é negro. Continuam a encontrar-se no parque, até que a cruel e dominadora mãe tem conhecimento destes encontros...
Depois de se tornar no primeiro actor africano a ganhar um Óscar pela sua interpretação no filme "Lilies of the Field" (1963), Sidney Poitier tornou-se numa força tão grande no box-office que Pandro S. Berman declarou que só produzia "A Patch of Blue" se tivesse o actor no papel principal. Baseado num livro de Elizabeth Kata, "A Patch of Blue" é a história de uma jovem cega que vive uma vida na solidão, sem o devido carinho dos familiares, mas o filme também é uma história de amizade e amor.
Assim que Poitier se comprometeu com o projecto, começou a trabalhar com Berman e o realizador - argumentista Guy Green, actualizando o argumento para ficar mais sintonizado com uma versão para cinema. No livro a jovem partilha alguns preconceitos com a mãe, e reage negativamente quando descobre a verdade, e empurra o amante para as mãos dos vigilantes racistas. Na versão para cinema tal já não acontece, assumindo um tom muito mais optimista.
A MGM testou 145 actrizes desconhecidas até encontrar a jovem Elizabeth Hartman, que logo no seu primeiro filme conseguiu uma nomeação para o Óscar. Apareceu apenas num punhado de filmes, mas vivia bastante reclusa, até falecer com apenas 43 anos, vítima de um aparente suicídio. Shelley Winters, no papel da monstruosa mãe, venceria o Óscar de Melhor Actriz.
Foi um grande sucesso de bilheteira, mesmo no sul. Em Atlanta, nas duas primeiras semanas, bateu o record de "E Tudo o Vento Levou". Velhos tabus não foram quebrados, mas um modesto beijo de oito segundos foi cortado para o público do Sul. 

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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Viver (Ikiru) 1952

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Muito embora Kurosawa seja principalmente conhecido pelos seus épicos sobre samurais ("Os Sete Samurais" e "Yojimbo, o Invencível") os seus interesses não se resumem a sangue e entranhas - apesar de nenhum realizador ter explorado como o fez o cineasta japonês todas as potencialidades das imagens de violência no grande ecrã. Kurosawa é, acima de tudo, o maior humanista da sétima arte, e "Ikiru" é prova cabal disso.
O filme conta-nos a história de Kenji Watanabe (Takashi Shimura, um dos actores predilectos de Kurosawa), um sarariman, ou seja, um assalariado ou burocrata de nível médio, cujo dia-a-dia é monótomo ou insatisfatório. O feito de que mais se orgulha é nunca ter faltado ao emprego durante os trinta anos em que trabalhou na secção do cidadão da Câmara Municipal. Kenji não se arrepende da mundanidade da sua existência simplesmente porque desconhece qualquer outra opção. Porém, tudo muda ao descobrir que tem um cancro e já não tem muito tempo de vida. Nos meses que lhe restam, Watanabe reconsidera as suas prioridades e realizações, e decide que nunca é tarde demais para mudar o mundo. Todas as suas energias são canalizadas para a construção de um parque público - um pequeno gesto que, para Kenji e Kurosawa, carrega, contudo, grande significado.
Em "Ikiru", Shimura brinda-nos com o desempenho da sua vida. Descoberta a doença de Kenji, o rosto do actor diz-nos o que precisávamos de saber. E as suas feições revelam-nos o mais vasto leque de emoções, da humildade à pura inexpressão. De facto, é-nos impossível não sentir a dor de Watanabe, dado que Shimura atravessa a película com um rosto marcado pela angústia. Se bem que esteja repleto de tristeza, "Ikiru" é, no final de contas, um filme de elevação espiritual. Aliás, esse é o propósito de Kurosawa: apresentar o sofrimento como parte integrante da vida, passível de ser utilizado de forma positiva para a obtenção da felicidade e da realização pessoal. Por outras palavras, "Ikiru" celebra a existência, apesar de o seu tema girar em redor da morte e do desgosto. Kurosawa, graças ao seu talento, mostra-nos como estes sentimentos não se contradizem, antes se completam, enquanto elementos do ciclo da vida. Na aldeia global e cínica dos nossos dias, a crença na importância das pequenas coisas, tal como é defendida pelo cineasta, não poderia ser mais tocante." Ethen de Seife

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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O Bordel do Lago (Seom) 2000

Depois de perder a inocência, uma mulher deixa de falar. Como um pássaro numa gaiola, vive isolada numa ilha bordel onde dá bebidas aos pescadores e os consola, juntamente com outras mulheres, nas horas de aborrecimento. Esta ilha é especial. Pequenas casas flutuam no lago que a circunda e permitem aos homens transformar em realidade as suas mais estranhas fantasias sexuais. A chegada à ilha de um pescador com vontade de se suicidar vai quebrar-lhe a rotina. Apesar de o ter salvado da morte e de ser a sua amante, a mulher não consegue prendê-lo ao seu amor.
Depois do controverso " Bad Guy", "O Bordel do Lago", de Ki-duk Kim, é um filme mais leve sobre os temas do isolamento e do amor obsessivo, embora ainda contenha, pelo menos, duas cenas bastante violentas. A urgência da relação central é sublinhada pelo facto de que Hyun-Shik tem um passado do qual não quer falar, e Hee-Jin é, aparentemente, muda (embora ouvimos uma conversa sua ao telefone, o que sugere que a sua falta de comunicação no ambiente do lago é intencional). Incapazes de discutir o mundo para lá do lago, ou como chegaram até lá, estes dois personagens vivem inteiramente no presente. A comunicação é apenas física. Através da auto-destruição mútua eles criam uma breve ilha de amor, dentro de um mundo brutal, embora, numa última análise, cada um deles é ele próprio uma ilha solitária. O lago também pode ser visto como uma ilha, fora da realidade, aberta a extremos. Ameaças vindas de fora são geridas de forma peremptória.  
Apesar do diálogo ser limitado, o filme nunca se arrasta, nem a tensão reduz ao longo dos 90 minutos. É um filme bastante bonito visualmente, e o sim coincide com a qualidade das imagens, evocativas e envolventes. Muito premiado pelo mundo fora, ganhou um menção especial em Veneza, e dois prémios no Fantasporto de 2001.

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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A Mulher Que Pecou (The L-Shaped Room) 1962

Jane, uma jovem francesa, grávida e solteira, aluga um quarto numa pensão decadente de Londres, habitada por uma variedade de desajustados. Considera fazer um aborto, mas não está muito contente com esta solução. Começa uma relação com Toby, um jovem escritor que vive no primeiro andar, e começa a dar-se com as pessoas que habitam a casa. Mas ela ainda enfrenta dois problemas: o que fazer com o bébé, e o que fazer com Toby...
"The L-Shaped Room" (1962) marca uma estranha posição na chamada "British New Wave". De certa forma parece um filme desta nova vaga, algures entre a inovação da Woodfall Films e o mainstream da indústria cinematográfica britânica. A franqueza com que trata o sexo, ou o simpático tratamento das mulheres desajustadas - sejam elas mães solteiras, lésbicas ou negras, com o não julgamento dos seus problemas, a fazerem parte do movimento, embora a narrativa e a realização sejam mais convencionais. Bryan Forbes, o realizador, era um nome importante na indústria britânica, como actor foi um dos pilares dos filmes de guerra e suspense da década de 50. Como realizador, com Whistle Down the Wind (1961) e depois com este filme, criou um mais romântico, e mais melancólico tipo de realismo, do que outros compadres seus, como Tony Richardson ou Lindsay Anderson.
O que " L-Shaped Room" transmite melhor é um sentimento de identidade inglesa, carinhoso mas que não evita as críticas. Ter uma heroína francesa acentua este facto, o seu status de outsider no seio da comunidade na pensão significa que estamos mais conscientes dos traços nacionais em exposição através dos personagens. Existe maldade no espírito de Doris, amargura e profunda insegurança em Toby, inveja em Johnny, e uma renúncia a circunstâncias não satisfatórias em Sónia e Mavis. No entanto, também há união, tolerância e espírito de resistência neste grupo de personagens solitárias, até ao aparecimento de Jane, a forasteira,  inicialmente frágil e assustada.
Os britânicos The Smiths abrem o seu álbum de 1986, "The Queen is Dead" com um sample de uma sequência deste filme. Valeu uma nomeação ao Óscar de Melhor Actriz para Leslie Caron.

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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O Silêncio (Tystnaden) 1963

Enquanto viaja de comboio num país estrangeiro, uma jovem mulher chamada Ester adoece subitamente. Com ela viajam a irmã, Anna, e um jovem rapaz chamado Johan, que se vêm obrigados a parar num hotel. Enquanto Ester se vê presa numa cama, a irmã começa a explorar a cidade, na procura de saciar os seus apetites carnais, deixando Johan a vaguear pelo hotel. Quando Ester descobre o que a irmã anda a fazer fica devastada, já que ela tem sido a sua inteira vida...
"O Silêncio" é facilmente um dos filmes mais negros de Ingmar Bergman, mais perturbadores e mais ambíguos. Foi também um dos seus maiores sucessos comerciais, em parte graças às suas cenas de sexo explícito, muito ousadas para aquele tempo, mas inconsequentes para a nossa actualidade. O filme é considerado o terceiro numa trilogia que inclui "Through a Glass Darkly" e "Winter Light". A ligação entre estes três filmes é apenas vaga, no entanto eles são bastante similares. O primeiro mostra-nos um mundo onde Deus está revelado, o segundo um mundo onde Deus está escondido. "O Silêncio" mostra-nos um mundo sem Deus, um mundo onde os seres humanos parecem ter pedido a alma, e são conduzidos por desejos egoístas que os levam ao Inferno ou à extinção.
O próprio Bergman não estava satisfeito com a noção da trilogia. Talvez faça mais sentido colocar este filme ao lado do seu posterior, "Persona". Os dois filmes são muito semelhantes, ambos lidam com um relacionamento íntimo muito complexo entre duas personagens femininas muito semelhantes. Em "Persona" as duas personagens parecem convergir para uma única identidade, enquanto em "O Silencio" as duas parecem estar num processo de divergência. Nos dois filmes as duas mulheres são dois aspectos contrastantes de um mesmo indivíduo - o espírito e a terra, a alma e a carne. Tudo isto é enfatizado pela fotografia de alto contraste de  Sven Nykvist. Luz e sombra claramente delineadas com as personagens do filme, representando dois componentes essenciais do nosso universo - o bem e o mal.
O problema de comunicação está no centro de muitos filmes de Bergman, mas aqui é fundamental. Não só as duas personagens principais acham muito difícil comunicarem uma com a outra (este caso incestuoso tornou-se numa aversão mútua), mas as duas também parecem completamente isoladas do mundo ao seu redor. Estão num país estranho, cuja língua não percebem e cujo povo não conseguem comunicar. Estão sozinhas, no verdadeiro sentido da palavra. 
O único personagem que faz a ponte entre as duas mulheres, e também entre o mundo exterior, é o jovem Johan. Ele tem uma empatia especial para todos que encontra. Johan é sábio apesar da sua idade, e está ciente de que a angústia pode ser razão para não se conseguir comunicar. Sem comunicação não há entendimento, sem entendimento há medo, e o medo leva-nos para a guerra. Uma curiosidade, o actor que interpreta Johan, Jörgen Lindström, seria visto na sequência de abertura de "Persona". Uma indicação, talvez, de que Bergman pretendia fazer uma ligação entre os dois filmes. 

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domingo, 31 de janeiro de 2016

Jeanne Dielman, 23, quai du Commerce, 1080 Bruxelles (Jeanne Dielman, 23, quai du Commerce, 1080 Bruxelles) 1975

Jeanne Dielman, uma jovem e solitária viúva, vive só com o seu filho Sylvain, segundo uma ordem de acontecimentos imutável: enquanto o filho está na escola trata do apartamento, faz as tarefas caseiras, e de tarde recebe os clientes aos quais se prostitui. Uma manhã, o despertador toca uma hora mais cedo perturbando a mecânica quotidiana e moribunda de Jeanne.
O título desde filme de Chantal Akerman, " Jeanne Dielman, 23, Quai du Commerce, 1080 Bruxelles", diz-nos tudo e nada, ao mesmo tempo. Temos o nome de uma mulher, e uma morada, que superficialmente nos fornece informações sobre a sua identidade, mas nada nos diz sobre a própria mulher: o que ela pensa, o que ela sente, o que ela ama, o que ela teme - na essência, o que ela é, a sua verdadeira identidade. E é precisamente essa falta de identidade que nos direcciona o filme, e nos mantém interessados, apesar de ser tão desprovido de eventos que poderíamos considerar de enorme importância dramática. O título, então, estabelece a personagem principal do filme (que aparece praticamente em todas as sequências do filme), o local onde a acção tem lugar, mas nada mais do que isso.
Conforme o filme se vai desenvolvendo ficamos a conhecer a rotina diária de Jeanne, que consiste quase exclusivamente do trabalho doméstico, como cozinhar, limpar, fazer a cama, passar e dobrar roupa, e tudo isto é pontuado com o barulho dos seus saltos na madeira, e o ritual de acender e apagar luzes á medida que ela sai e entra das divisões da casa.
Akerman mantém-nos sempre a uma distância de segurança de Jeanne, recusando-se a entrar na sua mente, transportando para nós a obrigatoriedade de a tentar compreender. Gradualmente vamos ficando a saber dos detalhes da sua vida, mas ela nunca se revela completamente. Embora Jeanne supostamente seja uma mulher normal, Akerman não escolheu uma desconhecida para interpretar este papel. Delphine Seyrig tinha já atrás de si uma carreira bastante importante, que incluía filmes como  "L'année Dernière à Marienbad" e "Muriel" de Resnais, "Baisers Volés" de Truffaut, ou "Le Charme Discret de la Bourgeoisie", de Buñuel, que lhe tinham dado uma estatuto de estrela entre os filmes considerados "de arte". Assim, Jeanne era, ao mesmo tempo, uma mulher comum, e uma mulher muito específica, que dá ao filme um duplo sentido, cortando a banalidade do trabalho oculto, e expõe os recantos obscuros escondidos. 

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sábado, 30 de janeiro de 2016

O Obcecado (The Collector) 1965

Baseado no popular primeiro livro de John Fowles, conta-nos a história de Freddie Clegg, um homem solitário com poucas habilidades sociais, que compra uma enorme casa de campo isolada com uma finalidade específica.  Planeia raptar uma estudante de arte chamada Miranda Grey, que admira já há longos anos, acreditando que se fazendo conhecer desta forma ela irá se apaixonar por ele. Freddie faz esta preparação com a mesma obsessão que se dedica ao seu passatempo preferido - coleccionar borboletas. Ao contrário dos seus raros e exóticos espécimes que ele tem capturados e preservados sobreo vidro, Miranda é uma perspectiva muito mais difícil, que irá proporcionar um despertar rude para as suas mais delirantes fantasias.
Na última década da sua carreira, William Wyler surpreendeu muitos dos seus fãs, afastando-se dos filmes de grande orçamento que definiram a sua carreira nos anos 50, "Friendly Persuation" (1956), "The Big Country" (1958), "Ben-Hur" (1959), focando-se em filmes de mais modesta escala, e que se debruçavam em estudos de personagens, como The Children's Hour (1961) or The Liberation of L.B Jones (1970), o seu último filme. Continuava a fazer filmes de grande entretenimento como Funny Girl (1968), mas sentia-se melhor a fazer filmes menores, como era o caso deste "The Collector", que era essencialmente um duelo entre dois personagens, e que viria mais tarde a ser considerado um dos seus melhores filmes.
A decisão de Wyler para dirigir este filme foi uma questão de timing, sorte e coincidência. Estava a preparar-se para dirigir "The Sound of Music", com Julie Andrews, quando Jud Kinberg e John Kohn, dois argumentistas de televisão transformados em produtores lançaram a idéia de o livro de Fowles ser transformado em filme. Wyler leu primeiro o livro, e sentiu que podia fazer dali um argumento ainda melhor que o livro, acabando por abandonar a produção de "The Sound of Music" para se dedicar totalmente a "The Collector".
O livro era apresentado de dois pontos de vista, os pensamentos de Freddie e o diário de Miranda. Desta forma o leitor tinha acesso íntimo a ambos os personagens, à medida que eles revelavam os seus sentimentos e pensamentos. A versão cinematográfica, no entanto, dispensava a abordagem narrativa e, com excepção do uso mínimo de flashbacks, segue este jovem demente à medida que ele prepara a prisão para a sua presa e começa a caça.
Wyler estava aberto à idéia de usar jovens desconhecidos nos papéis principais, e Terence Stamp, que tinha recebido uma nomeação os Óscar para melhor actor secundário em 1962, tornou-se rapidamente a favorito para o personagem do título. Numa primeira abordagem Stamp rejeitou o papel, por o considerar muito repulsivo, mas depois de se reunir com o realizador este conseguiu indicar-lhe todo o potencial que tinha este papel. O papel feminino foi para a jovem actriz Samantha Eggar, na altura mais dedicada a trabalhar em TV, que tinha aqui o seu primeiro papel de destaque.
O filme recebia óptimas críticas. Selecionado para Cannes, valeu os prémios de melhor actor e actriz para os seus dois protagonistas. Também esteve nomeado para os Óscares, onde Eggar conseguiu a única nomeação da sua carreira, e William Wyler foi mais uma vez nomeado para melhor realizador, para além do argumento de Stanley Mann e John Kohn.

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quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Dillinger Morreu (Dillinger è Morto) 1969

Dillinger è morto é o nono filme de Marco Ferreri, um nome que ecoa num tom sussurrado na vaga de cinema do final dos anos 60. Realizador de olhar critico, elevado por uma visão que deambula sobre o sentido do absurdo, sobre o espírito satírico do humor e a consciência politico/social que o transmite marcadamente. Ferreri foi um "criador" intensamente pessoal e pouco influenciado por vagas, criticado e aclamado, banhado pela eterna controvérsia que acompanha os génios.
Houve quem considerasse " Dillinger è morto" a sua obra-prima e como em todas as obras primas, golpearam-se criticas mais ferozes que o conotaram como sendo um dos filmes mais incendiários da época.
É no abraço deste realizador de complexo intelecto e de Michel Piccoli, o eterno "Paul Javal", que surge esta pintura cinematográfica, ideológica e existencial, simbolicamente embrulhada por um papel de jornal antigo, impresso pela noticia "Dillinger morreu".
A historia começa por nos sugerir a vida entorpecida de um engenheiro que trabalha na manufactura de máscaras de gás e que vive simultaneamente numa casa sufocada pela suprema impessoalidade que cruza personagens e cenários num traço firme e diagonal.
A mulher do protagonista encontra-se na cama com uma conveniente dor de cabeça, encarnada pela apatia. Uma gravação revela-nos que o casamento está no limbo da ruptura mas a breve troca de palavras entre o casal é leve e cordial. A sensual e vulgar empregada que se cruza nos pontuais olhares de sedução, desenha-nos a passividade do sexo e o vazio das palavras. Os cenários primam pelos elementos decorativos descontextualizados temporalmente, em total harmonia com a historia.
Ao longo da trama o entorpecimento desconstrói-se, o tempo preenche-se com o prazer dos vícios humanos, a loucura pontua vontades, os corpos são livres e impessoais, a forma como o silencio (musical) se preenche, ocupa o tempo e o espaço e leva-nos a encadear cada um dos gestos da personagem de uma forma lógica.
A solidão acompanha-nos ao longo do filme, mas é uma solidão incorporada, de carácter assumido, interno, planeada e gradualmente libertadora, sem qualquer tipo de melancolia ou tristeza. É a lenta transição para um fim inesperado e simultaneamente inevitável.
* texto escrito pela Isabela Falcão Vaz em exclusivo para este ciclo.

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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Ao Correr do Tempo (Im Lauf der Zeit) 1976

Ao Correr do Tempo é o terceiro filme da trilogia de road movies de Wim Wenders que se iniciou com Alice nas Cidades e prosseguiu com Movimento em Falso. Datado de 1976 e tendo ganho o prémio FIPRESCI no festival de Cannes desse ano, é normalmente considerado como a sua obra prima.
O filme retrata as constantes deambulações de Bruno Winter (representado pelo actor Rüdiger Vogler), que se dedica a reparar equipamento de projecção de filmes em pequenas aldeias da Alemanha Ocidental, perto da fronteira com a antiga RDA. Acidentalmente conhece Robert Lander que entra com o seu carro dentro de um rio, numa mal disfarçada tentativa de suicídio. Durante algum tempo, os dois fazem um percurso comum, porque Robert nada tem para fazer de mais interessante, além de acompanhar Bruno no seu trabalho. O seu encontro é feito sobretudo de silêncios e longas contemplações que são abundantes ao longo do filme. Ao mesmo tempo, cada um vai-se interrogando sobre o sentido da vida, não através de grandes tiradas metafísicas, mas por via de simples constatações sobre o quotidiano de dois homens forçados à solidão, Bruno porque deliberadamente a escolheu, Robert porque a ela foi forçado por via de uma separação. É apenas um encontro fortuito que cada um deles sabe que não perdurará. Enquanto Robert vai restabelecer laços familiares e procura voltar ao seu anterior quotidiano, Bruno continuará incansavelmente nos mesmos pequenos passos rotineiros, trazendo um pouco de alegria ao quotidiano de aldeias perdidas naquilo que poderíamos chamar de Alemanha profunda. Porque como diz Robert, eu sou a minha própria história.
Esta tranquila resignação com o decorrer do tempo nas vidas de cada um de nós, é o grande trunfo desta viagem por espaços, pessoas e memórias. Uma viagem que se faz também um pouco pela própria história do cinema através do desfiar de recordações de um antigo projeccionista do tempo do cinema mudo. Há aqui uma espécie de trama existencial, mas sem dor, como se o tempo tudo esculpisse ,e funcionasse como o único verdadeiro actor da vida de cada um de nós. Como diz Bruno, a vida é como a saudade das mulheres que amamos e que fomos abandonando ou por elas fomos abandonados ao longo do tempo. Pela sua simplicidade silenciosa, pelo espantoso virtuosismo do trabalho de câmara, pela fusão constante entre a paisagem e as pessoas, pela luminosidade expressiva do preto e branco, Ao Correr do Tempo é um dos filmes mais poéticos que vi em toda a minha vida. Wenders voltaria a assinar alguns outros grandes filmes, designadamente o célebre Paris-Texas, que em muitos aspectos bastante deve a este filme, mas nunca mais conseguiria atingir este sublime patamar. É o exemplo mais acabado de um filme-arte sem nada fazer para o ser. São quase três horas a preto e branco que se vêem com a avidez de quem sabe que está a ver algo que é absolutamente essencial: apenas a vida que o tempo desenha.
* Texto escrito pelo Jorge Saraiva em exclusivo para este ciclo.

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