quarta-feira, 22 de outubro de 2014

A Oitava Mulher do Barba Azul (Bluebeard's Eighth Wife) 1938



Michel Brandon (Gary Cooper) é um milionário norte-americano que gosta de casar, mas que não consegue permanecer casado. Teve já sete mulheres e está à procura da número oito. Na Riviera Francesa, conhece Nicole de Loiselle (Claudette Colbert), filha de um marquês francês falido que vê no casamento da filha uma oportunidade de negócio. Mas ao perceber que vai ser a 8ª mulher de Michael, Nicole engendra um plano para que não venha a ser apenas mais um número na lista das ex-mulheres de Michael.
Com um argumento escrito por Charles Brackett e Billy Wilder, e realização de Ernst Lubitsch, esta comédia romântica só poderia resultar em pleno. O filme era uma releitura do romance "The Taming of the Shrew", mas tem a distinção de ser uma das mais originais screwball comedies. Colbert a demonstrar que tem muito talento cómico, talvez até mais do que Cooper, com destaques ainda no campo das interpretações para Edward Everett Horton, no papel do pobre pai, e o britânico David Niven como outro pretendente.
O argumento era o primeiro de uma série de colaborações de sucesso entre Billy Wilder e Charles Brackett ((Ball of Fire, Ninotchka, Sunset Boulevard), e está cheio de grandes tiradas (”I only have to look at your pants to know everything”). Não é tão cruel como as obras posteriores dos dois, em especial de Wilder, mas ainda assim é um grande argumento. Também é um filme de Ernst Lubitsch, ele que é famoso pelo seu toque especial no campo da comédia, assim como aproveita da melhor maneira os cenários luxuosos da velha Europa, e da classe rica de Nova Iorque, repleta de maravilhosos hotéis, vestidos, jóias, e uma divertida série de empregados de hotel, tudo temperado com a fria batalha dos sexos, que era normal nas comédias da altura.
Não foi um sucesso de crítica na altura da sua estreia, mas com o tempo tornou-se num dos filmes mais importantes do realizador.
Foi uma escolha do Rui Alves de Sousa.

Link
Legenda
Imdb

Blade Runner - Perigo Eminente (Blade Runner) 1982



Numa visão cyberpunk do futuro, o homem desenvolveu tecnologia para criar replicants, clones humanos usados para servir as colónias fora da Terra, mas com expectativas de vida curta... Na Los Angeles de 2019,  Deckard (Harrison Ford) é um Blade Runner, um policia que se especializa em destruir replicants... Já depois de reformado, é obrigado a voltar ao activo, para apanhar quatro replicants que estão em fuga.
Muito vagamente baseado numa novela de Philip K. Dick, "Do Androids Dream of Electric Sheep", é um "filho" de Ridley Scott a todos os níveis. Apesar de ter sido um fracasso na altura da sua estreia, transformou-se num filme de culto a todos os níveis.
Com efeitos especiais deslumbrantes, este belo e instigante conto futurista contava também com uma grande banda-sonora de Vangelis. Muito mais do que uma simples história de detectives, era uma obra que tinha vários significados, e que tratava de assuntos de peso para a humanidade, como memórias, sonhos, e uma visão do futuro que mudaria a face da ficção científica para sempre.
Os argumentistas Hampton Fancher e David Peoples estavam mais interessados em criar um clima específico e levantar uma série de questões sobre o que significava ser humano. Será os replicants menos importantes porque foram criados? As emoções de Rachael (Sean Young) foram criadas, e as suas memórias são falsas, mas ainda assim ela interage com os humanos como uma pessoa.  Deckard mas demonstra qualquer emoção, enquanto Batty (Rutger Hauer) e Pris (Daryl Hannah) são barris de pólvora e de amor, raiva e arrependimento. Por outro lado, Bryant e Gaff são figuras cínicas que se parecem preocupar pouco com os outros. Parecem manipular Deckard enquanto Batty tenta salvar a vida. Estas complexidades são o que eleva o filme acima do nível da sci-fi. A versão do realizador implica fortemente que Deckard seja um replicant, o que apenas solidifica o tema questionado se os andróides são realmente dispensáveis. Os humanos destruíram a sociedade e deslizam pelas ruas chuvosas, cheias de néon e artificialidade transformando o personagem principal numa máquina, o que apenas solidifica os sentimentos negativos da sociedade. Se o personagem que seguimos a maior parte do filme pode ser uma criação (nunca fica claro), diminui seriamente as esperanças para um futuro.  
Esta versão aqui postada é a do realizador (final cut).
Filme escolhido pelo Nuno Fonseca.

Link
Imdb

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Fogo de Artifício (Hana-Bi) 1997



Hana-bi, de Takeshi Kitano, é um filme muito peculiar, ocupado por inúmeros silêncios, olhares vazios, e mudanças de velocidade entre a reflexão e a ultra violência. Kitano (que também escreveu o argumento e fez a montagem) interpreta Nishi, um polícia conhecido pela sua natureza impulsiva e violenta, mas que normalmente cumpre o seu trabalho, mesmo que por cima de algum sangue derramado. No entanto, Nishi já teve melhores dias. A sua esposa está a morrer lentamente de leucemia, e o seu parceiro de confiança, Horibe (Ren Osugi) é abatido e paralisado em serviço. Nishi, sentido-se culpado pela lesão do companheiro e subsequente degradação do estado mental deste, e querendo passar mais tempo com a esposa, é obrigado a retirar-se da policia, e ao fazê-lo é obrigado a recorrer a alguns meios um pouco sujos para financiar o seu tempo de inatividade e desespero. Mas as coisas ficam um pouco complicadas...
Kitano quase nunca fala, mas a sua presença em frente à câmera é extremamente eficaz. No seu silêncio, a personagem de Nishi torna-se um paradoxo completo, mas também se torna na segunda metade da sua esposa (que também quase nunca fala), e ambos fazem um grande contraste com os outros personagens do filme, que exibem abertamente os seus sentimentos em cada momento do filme.
Horibe, por causa da sua lesão, e da consequente partida da sua esposa e filha, tornou-se suicida, preso a uma cadeira de rodas e aborrecido com a vida em geral. Passa a vida a pintar (os quadros na verdade foram pintados por Kitano, depois de uma tentativa de suicídio em 1994), e está a ser monitorado pelos ex-parceiros que temem pela sua sanidade. De certa forma, a situação de Horibe não é tão dramática como a de Nishi. Enquanto os outros personagens são movidos pela necessidade de estar sempre a fazer alguma coisa, Nishi e a esposa são caracterizados por raramente mostrarem as suas emoções ou movimentos, e expressões apenas quando são necessárias. Parece que num mundo com falta de sinceridade, a sua esparsa interacção não é um sinal de uma ligação quebrada, mas uma necessidade de dar espaço ao outro, quer juntos ou separados.
O tom minimalista do filme é o que faz a violência trabalhar de forma tão eficaz, para transmitir a loucura de Nishi. A estática do filme serve para trabalhar com o ritmo lento, enquanto assistimos à descida de Nishi rumo ao desespero. Kitano infecta a beleza lírica e meditativa do cinema clássico japonês, e o que emerge é uma declaração profunda e original sobre a mortalidade, o quanto rica a vida humana pode ser, e quanto rápida ela pode ser tirada...
Ganhou vários prémios por esse mundo fora, incluindo o Leão de Ouro em Veneza.
Filme escolhido pelo Rui Alves de Sousa. 

Link
Imdb

O Homem Que Matou Liberty Valence (The Man Who Shot Liberty Valance) 1962



Quando o Senador  Ransom Stoddard regressa para casa em Shinbone, para o funeral de Tom Doniphon, conta a um editor do jornal local a história por detrás da sua vida. Ele tinha chegado à cidade muitos anos antes, um advogado por profissão. A diligência tinha sido roubada pelo rufia local, Liberty Valance, que tinha deixado Stoddard sem nada, a não ser uns livros de direito. Consegue um trabalho na cozinha de um restaurante, onde conhece a sua futura mulher, Hallie. Em flachback vamos ficar a saber como é que a vida destas quatro pessoas se cruzou.
A mudança da guarda, a perseverança de um homem, e a necessidade de um herói são temas recorrentes neste grande clássico de John Ford, The Man Who Shot Liberty Valance. Mais elegante do que a maioria dos westerns de Ford, resultou na única vez que contracenaram dois dos mais míticos actores da história do cinema, John Wayne, o cowboy maior do que a vida, e James Stewart, o bom rapaz que toda a gente gostava em Hollywood. O resultado seria um dos maiores westerns jamais feitos.
De certa forma, Wayne nunca esteve tão bem como aqui, nem mesmo em "The Searchers", e Stewart, que costuma estar sempre bem, mantém-se firme num papel oposto ao de Wayne, e mantém um contraste interessante com a dureza do outro actor. O personagem de Stewart é o mais efeminado dos dois, e usa mesmo avental a maior parte do filme, incluindo no duelo com o vilão. A fotografia de William H. Clothier dá ao filme uma atmosfera quase noirish, e Ford, como é habitual faz um grande uso do seu naipe de actores secundários, em especial Woody Stroode, e Lee Marvin como vilão. 
É evidente que Ford ficou cada vez mais desiludido com a sociedade, que é visível principalmente a partir da Segunda Guerra Mundial, e quanto mais profundo se tornou o seu desespero, mais visível isso ficou nos seus westerns. Mesmo nos filmes menores do final da sua carreira, como Cheyenne Autumn, a sua fé deu lugar ao pessimismo, tal como se vê nos filmes da cavalaria onde ele mostra os seus soldados a derrubarem os índios desarmados.
Foi o último filme que Ford fez com Wayne como protagonista. Os dois morreriam na década seguinte, Ford em 1973 e Wayne em 1979.
Filme escolhido pelo Nuno Fonseca.

Link
Imdb

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O Vento Será a Tua Herança (Inherit the Wind) 1960



Todos os nomes foram alterados, mas os eventos descritos em Inherit the Wind, de Stanley Kramer, baseavam-se numa das mais espectaculares batalhas judiciais da primeira metade do século 20. O nome do julgamento é normalmente conhecido como "Scopes Monkey Trial" que numa única frase combinava o nome do réu (o professor do Tennessee John T. Scopes), o principal ponto de discórdia (a teoria da evolução de Darwin), e a natureza do caso em geral, uma farsa de todo o tamanho. Aconteceu no calor sufocante de Julho de 1925, e marcou uma das batalhas mais quentes e públicas entre as forças do cristianismo fundamentalista, e o progresso científico.
O que fez este julgamento ter sido tão notável não foi apenas o que estava em jogo (particularmente a intromissão de uma religião dominante no campo da educação financiada pelo estado), mas também as pessoas que estavam em jogo. Na defesa estava o advogado agnóstico Clarence Darrow, que era bem conhecido por trabalhar com sindicatos, e um grande opositor à pena capital. A acusação era chefiada pelo grande orador William Jennings Bryan, um senador fundamentalista que já tinha concorrido à presidência três vezes.
"Inherit the Wind" debruça-se sobre os factos mais gerais do caso, desde a prisão do professor na pequena cidade de Hillsboro, no Tennessee (a verdadeira cidade foi Dayton), seguindo-se do julgamento no tribunal. É sobretudo um filme de actores, por completo, desde o advogado da defesa interpretado por Spencer Tracy, que lhe valeu uma nomeação para o Óscar, aos grandes papéis de Fredric March, como advogado de acusação, Gene Kelly, mostrando todas as qualidades dramáticas como um repórter cínico, e um elenco de apoio cheio de nomes conhecidos. O  Hornbeck de Gene Kelly é o infiel numa sala cheia de partidários, e proporciona um alívio cómico consistente.
Adaptado de uma peça da Broadway por Jerome Lawrence e Robert E. Lee, capta o calor e o clamor deste julgamento, embora perca a oportunidade de fazer entender os dois lados do caso. Por ser adaptado por Nedrick Young e Harold Jacob Smith, "Inherit the Wind jogo com um discurso virulento após o outro, em que o discurso científico choca  violentamente com o zelo religioso profundo.
O produtor e realizador Stanley Kramer, habilmente manipula o material incendiário visual, fazendo um bom uso do foco profundo e composições cuidadosas que enfatizam as oposições na sala. Algumas das melhores cenas no filme, são, na verdade, as menos controversas, em que Drummond e Harris, que antes eram velhos amigos, se sentam a conversar, em vez de gritarem um com o outro.
Nomeado para quatro Óscares, foi um filme escolhido pelo Rui Alves de Sousa.

Link
Imdb

O Estranho Mundo de Jack (The Nightmare Before Christmas) 1993



Uma fantasia que nos conta a história de Jack Skellington, o cabeça de abóbora, rei de Halloween Town. Jack está um bocado aborrecido com o que se tornou um trabalho redundante de coordenar os sustos de Halloween todos os anos, e ambiciona algo melhor. Uma caminhada leva-o até Christmas Town, que lhe dá uma idéia genial, ele deseja desesperadamente ser o rei deste feriado, mas este já tem um dono, o Pai Natal. Com a ajuda de alguns dos seus amigos mais macabros, o Pai Natal é raptado, e Jack toma as rédeas deste novo lugar...
Sem dúvida, que o aspecto mais forte de "The Nightmare Before Christmas" vem da sua arte, animação e do design de produção. Os visuais são impressionantes, a profundidade do detalhe é bastante rica, e os personagens são bastante realistas nos seus movimentos. O design da arquitetura e os cenários mostram que existe um coração a bater debaixo de cada frame do filme. Apesar do filme estar ligado a Tim Burton, este não o dirigiu, mas não há dúvida que toda a parte visual teve a sua influência, e a inclusão do seu colaborador musical desde há muito, Danny Elfman, mostra que eles são um encontro no céu quando se trata de virar a mesma página artística.
"The Nightmare Before Christmas" é um filme perfeito, tanto para o dia das Bruxas, como para o Natal, e as crianças provavelmente vão adorar, desde que não sejam tão jovens que se assustem com fantasmas ou cabeças cortadas, ainda que em desenhos animados. A música flui, para dentro e para fora da narrativa, de tal forma que é praticamente perfeita. Desde o início que estava destinado a ser um clássico destas quadras festivas que retrata. Já passaram 20 anos.
Foi escolhido pelo Nuno Fonseca.

Link
Imdb

domingo, 19 de outubro de 2014

O Clã dos Sicilianos (Le Clan des Siciliens) 1969



Um jovem e ambicioso mafioso planeia um elaborado roubo de diamantes, enquanto seduz a filha de um implacável patriarca de uma família da mafia siciliana, com um comissário da polícia no encalce de todos eles.
"O Clã dos Sicilianos" é um filme sobre o mundo do crime, interpretado por três dos maiores nomes do cinema francês, Alain Delon, Lino Ventura, e Jean Gabin, dirigido por um grande especialista no género, Henri Verneuil, e baseado numa história de Auguste Le Breton, que também escreveu "Rififi", e "Bob le Flambeur". Com tanto talento por trás deste projecto, era impossível algum falhanço.
É um filme elegante, compulsivo, extremamente acessível para os olhos de qualquer espectador, poderia ser acusado como um filme superficial, porque de facto não tem a angustia existencial dos filmes de Melville, por exemplo, mas ganha pontos a construir um ritmo bastante elevado, e com algumas cenas de acção muito bem executadas. Neste aspecto, parece-se mais com um filme italiano do que um filme francês, impressão que é reforçada pela excelente banda-sonora de Ennio Morricone, que inclui algumas notas que normalmente seriam mais esperadas nos western spaghetti.
De facto, o filme deve muito a outro regular colaborador de Morricone, Sérgio Leone. A história tem muitas semelhanças com Por Alguns Dólares Mais (onde um gangster descobre como abrir um cofre enquanto está preso), e em alguns cenários é sentido o ambiente de um spaghetti (como no climax, quando Gabin, Delon e Irina Demick se enfrentam).
O filme é um prodígio para os padrões do cinema francês da altura, com cenários enormes, interiores muito interessantes e bem construidos. A direcção de arte de Jacques Saulnier é fantástica.
É um filme escolhido pelo Rui Alves de Sousa.

Link
Imdb

Shane (Shane) 1953



Shane envolve-se num conflito entre o vaqueiro Ryker e um grupo de colonos, os Starretts, cuja terra Ryker quer. Quando Shane vence um dos homens de confiança de Ryker, Chris, Ryker tenta comprá-lo, sem sucesso. Depois de Shane e Joe, o pai do clã Starrett terem derrotado os homens de Ryker, este contrata um famoso pistoleiro, para derrotar os nossos heróis.
Seria tão fácil descartar "Shane" como um dos westerns mais bem filmados de sempre. A sua história já foi feita tantas vezes, que se tornou um cliché. Um pistoleiro solitário tentando deixar o passado para trás, chega a uma cidade onde tem de usar as armas novamente em nome do bom povo da cidade, contra os assassinos do barão do gado local. Apesar do enredo ser bastante simples superficialmente, há muito mais a acontecer do que parece.
Desde os primeiros momentos em que o pequeno Joey grita, "Somebody's comin', Pa!", e vemos pela primeira vez Alan Ladd como Shane, cavalgando para a herdade dos Starrett, que percebemos que há algo misterioso nesta personagem solitária. Que ele é um pistoleiro com um passado negro é óbvio, mas os detalhes do seu passado nunca são revelados, assim como de onde ele vem, nem para onde ele vai. É através dos olhos do pequeno Joey que vemos quase todo o filme, para ele Shane é o herói ideal, e aos seus olhos qualquer pecado lhe é perdoado, embora ele sinta que existem acções obscuras no passado de Shane.
Realizado por George Stevens, e ao contrário de muitos outros westerns, este é um filme de actores. A personagem de Ladd ficou mítica, assim como o jovem Joey interpretado por Brandon de Wilde, um actor bastante prometedor falecido muito cedo. Jean Arthur tinha o seu último papel no cinema, mas o grande destaque vai para o vilão de Jack Palance, um dos seus primeiros papéis do cinema, e um dos melhores vilões alguma vez trazidos ao grande ecrã. Valeu-lhe logo uma nomeação ao Óscar.
Foi uma forte inspiração para o homem sem nome de Clint Eastwood na trilogia dos dólares, e em muitos filmes posteriores.
Foi uma escolha do Nuno Fonseca.

Link
Imdb

sábado, 18 de outubro de 2014

5x5: Nuno Fonseca x Rui Alves de Sousa

Os seguidores mais antigos dos "Thousand Movies" devem lembrar-se certamente da rubrica "5x5". No blog anterior esta rubrica consistia em convidar dois leitores que escolhessem cinco filmes, que por nunca tivessem por lá passado. O critério era livre, apenas se pedia que não escolhessem filmes demasiado recentes e mainstream. Durou alguns anos no "My One Thousand Movies", e teve mais de 40 participações de todos os cantos do Globo.
Resolvi reatar esta rubrica, no M2TM, que sempre nos trouxe óptimas listas de filmes, de toda a espécie e feitio. Já temos algumas listas para esta nova série, a ideia de fazer ressurgir estar rubrica veio do grupo My Two Thousand Movies, no facebook, onde se quiserem podem aderir, e discutir as escolhas dos nossos participantes.
Os dois participantes desta série vêm de Portugal, ambos bloggers. O Nuno Fonseca, autor do blog Espaço Cinzento, e o Rui Alves de Sousa, autor do blog Companhia das Amêndoas. Vou convidá-los para fazer uma pequena introdução das suas escolhas no final da semana, e entretanto ficaremos a conhecer as escolhas nos próximos dias, já a partir de amanhã. Um filme de cada lista por dia.

Quanto a novos participantes, se quiserem participar, mandem a vossa lista para myonethousandmovies@gmail.com. Deve conter 5 filmes que nunca tenham passado por ESTE blog, mais três suplentes. Só não podem escolher filmes mainstream, porque o blog corre o risco de ser apagado, mas de resto a lista fica ao vosso inteiro critério. Lembrem-se de que quando os filmes forem publicados estarão a ser observados e avaliados por personalidades altamente cinéfilas (estou a brincar).

Na próxima semana vamos ter um Especial Halloween, com filmes de terror bastante raros.

Até amanhã.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Paraíso Perdido (Paraíso Perdido) 1995



Degrada-se, dia a dia, o casamento de Cristóvão, 48 anos, docente universitário atormentado pelos fantasmas de uma pesada herança familiar - loucura e homicídio.
Quando Cristóvão encontra Cristina, 20 anos de espontaneidade e sem assomo de medos, mas com um passado lacunar, algures perdido entre Angola e Portugal, é absorvido pela idéia de a ajudar a encontrar as raízes da sua vida. À medida que o "puzzle" se vai compondo a paixão arrebata-os; ao que a impossibilidade dela gerar (Cristina não pode ter filhos porque pode morrer de parto) acrescenta um elemento redentor: como se não houvesse possibilidade de futuro e o presente fosse o único sentido. No desvelamento do passado de Cristina, Cristóvão, omitindo o seu passado, sente a esperança de o reinventar.
Há filmes malfadados. No berço, um encantamento perverso condenou-os a uma existência pária, "zombies" num universo de espectáculo de que eles são, por assim dizer, o avesso. Assim terá ocorrido com este "Paraíso Perdido", filme de Alberto Seixas Santos, longos anos vagueando no limbo dos mortos-vivos. Faz-se, não se faz, completa-se, não se completa, é visível, não é visível, estreia ou não estreia nunca? Estas - e outras - perguntas e um nunca acabar de rumores acompanharam a génese, o crescimento, o parto e a clausura da fita, numa sucessão de feitiços meléficos que pareceram ser fatais.
Tudo começou em 1977. No plano de produção para o IPC para esse ano consta uma atribuição de subsidio à Cooperativa Grupo Zero, para o filme "Rosa", de Alberto Seixas Santos, orçamentado em 3.041.684$00. Mais tarde, muda o projecto (passou a designar-se "Paraíso Perdido") muda o produtor (que passou a ser o Animatógrafo, de António da Cunha Telles) - e, em 1986, iniciam-se, enfim, as filmagens. Atribuladas, diga-se (a poucos dias de se iniciarem o actor protagonista teve de ser mudado, e foi apenas um dos episódios..). Finda-se estas, entra-se na fase de pós-produção. Interminável, o filme arrasta-se durante anos. Corre, por esses dias, em Lisboa, que "Paraíso Perdido" seria pavoroso, que nada ligava com coisa nenhuma, que Seixas Santos não completava o filme por pânico de dar a ver horrores de desfazer a mais sólida das reputações.
10 de Novembro de 1995 foi o momento de rasgar todos os véus. "Paraíso Perdido" - talvez o mais difícil parto do cinema português das últimas décadas - confronta-se com o público, com a crítica, com a luz do dia. Só que passou tantos anos na sombra que é de temer que a luz o ofusque - e, sobretudo, que o mundo em que foi pensado se tenha ido embora.
Que mundo é esse? Um mundo de fim-de-império, de gente que voltou das colónias, mas guarda uma espécie de mito guardado no fundo da alma. (os grandes espaços de África, um tempo idealizadamente feliz - por contraponto à pequenez deste "cochico" plantado no fundo da Europa). Um mundo onde os cinéfilos ainda tinham o Quarteto como catedral, um mundo que ainda não atravessara os anos laranja, que ainda não vira esta nossa gente armar-se em nova-rica, apinocar-se, jogar na bolsa, auto-estradar-se. O Portugal de Paraíso Perdido é pré-cavaquista, está desorientado, anda à procura de raízes, não é capaz de procriar por cobardia, tem muito medo - e quando encontra a verdade plantada do passado, não está lá coisa nenhuma a que seja possível uma pessoa arrimar-se, muito pelo contrário. A realidade é um desatino triste, uma loucura sem grandeza, um desacerto prolongado, um sarcasmo de demência visionária, apenas uma maluquice.
Por Jorge Leitão Ramos, em "Dicionário do Cinema Português 1989-2003".

Link
Imdb

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Greetings (1968) / Hi, Mom! (1970)



Depois da estreia de "Murder a la Mod", Brian de Palma começou a fazer filmes underground bastante baratos. Os dois filmes mais notáveis do seu inicio de carreira são "Greetings" (1968), e "Hi, Mom!" (1970), que mostravam De Palma como um talentoso realizador, com um enorme sentido de tempo e lugar, e como sendo um brincalhão espiritual. Estreado apenas oito meses depois de "Murder a la Mod", "Greetings" não parecia um filme para ir muito longe, feito com apenas $39,000, não estava particularmente interessado em seguir uma trama tradicional, e foi o primeiro filme a receber a polémica classificação "X". Mas enquanto não era um sucesso de público, conseguiu acumular um milhão de dólares no box-office, estabelecendo de Palma como um talento emergente.
A trama do filme seguia três amigos Paul (Jonathan Warden), um jovem obcecado por mulheres, Lloyd (Gerrit Graham), um jovem obcecado com o assassinato de Kennedy, e Jon Rubin (Robert De Niro), um realizador que deseja transformar uma espécie de arte, com voyeurismo e pornografia, em algo que chama de “Peep Art”. Os três perseguem jovens meninas, tentam fugir à guerra do Vietname, e não ser apanhados nas suas próprias obsessões.
De Palma não esconde as suas influências, nomeadamente a influência de Hitchcock, alguns jump cuts da Nouvelle Vague, a abordagem com um sentimento verité, referências constantes a "Blow-Up", de Michelangelo Antonioni, mas a sua relização é muito mais segura do que no filme anterior. Há sempre algo a acontecer, tanto no plano geral como em fundo, que dá a De Palma a hipótese de mostrar o que está a acontecer a várias personagens ao mesmo tempo.




A sequela de "Greetings" chamava-se "Hi, Mom", e era ainda melhor. Enquanto "Greetings" colocava de Palma e De Niro, no estatuto de pessoas a seguir, "Hi Mom" elevava-os ainda mais, e deu-lhes mais hipóteses de mostrarem os seus talentos. Deixamos de seguir as co-estrelas de De Niro no filme anterior, e concentramo-nos no seu Jon Rubin, que segue o sonho de "peep artist", apanhado no mundo underground da arte, e tornando-se numa figura revolucionária da América. A primeira parte do filme é um cruzamento entre o estilo irreverente de Godard, e uma comédia. Homenagem desprezível a "Janela Indiscreta" de Hitchcock com o personagem de De Niro a tentar filmar os prédios à sua volta, para captar imagens de "momentos privados", e de jovens a despirem-se. A segunda parte do filme satiriza o cinema verité, com jovens revolucionários em Nova Iorque.
A Nova Iorque de De Palma é ainda mais bem definida aqui. O cinema verité mostra o choque entre a burguesia da cidade e os radicais de esquerda de Greenwich Village/Panteras Negras. É um mundo completamento formado, e com um mestre a explorá-lo.
"Hi, Mom!" é ainda mais episódico do que "Greeting", mas também mais engraçado e cheio de momentos de bravura. A exploração do cruzamento entre a pornografia e a mais pretensiosa arte é grande: De Niro tem uma reunião com um produtor de pornografia, que se queixa que demasiados filmes para adultos têm actrizes a quem não foi dito que tipo de personagem iam interpretar, e assim não conseguem atingir toda a sua potencialidade. O filme também reconhece todo o seu voyeurismo e artificialidade de formas diferentes: shots longos de De Niro a espiar personagens, convidando o espectador a tornar-se ele próprio um espião.
Charles Durning é outro dos protagonistas, ele que viria a tornar-se um habitual dos filmes de De Palma.

Greetings Imdb
Link

Hi, Mom! Imdb
Link

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Harry e Tonto (Harry and Tonto) 1974



Harry é um professor reformado, septuagenário, vivendo no Upper West Side de Nova Iorque, onde criou os seus filhos com a sua falecida esposa, e onde viveu toda a vida. Quando o edificio onde vive é demolido, para dar lugar a um parque de estacionamento, Harry e o seu amado gato, Tonto, iniciam uma viagem através dos Estados Unidos, visitando os seus filhos, conhecendo um mundo que nunca pensou existir, dizendo adeus a velhos amigos, e a novos que entram na sua vida...
"Harry and Tonto" começa em terreno movediço, parecendo uma versão de "Old Friends" de Simon & Garfunkle, com sequência de velhos a alimentar pombos no parque. Felizmente, o argumentista e realizador Paul Mazursky não é grande fã de fazer filmes sobre pessoas abandonadas, e este Harry Coombes é apenas um homem cujo estilo de vida está a chegar ao fim. Perde o apartamento não muito tempo depois de perder o melhor amigo, Jacob (Herbert Berghoff), um indivíduo divertido com uma teoria divertida culpando os capitalistas de tudo. Com a plena consciência de que é um homem demasiado independente para viver com uma das muitas divorciadas do bairro, ele prefere partir para a descoberta do mundo.
"Harry and Tonto" evita muitas das armadilhas deste tipo de filme. É sensível para os seus personagens, mas não nos pede para ficarmos piegas sobre eles. Tonto, o gato, é um leal companheiro de viagem. Mazursky nunca usa a presença do gato para retirar emoções baratas, e Harry sabe que é apenas mais um companheiro da vida que um dia terá de dizer "adeus".
Art Carney, no papel de Harry, ganhou o único Óscar da sua carreira, na frente de um excelente elenco que contava com Ellen Burstyn, Cliff de Young, Josh Mostel, Chief Dan George, Larry Hagman, entre outros.

Link
Imdb