quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Um Verão de Amor (Sommarlek) 1951



Marie (Maj-Britt Nilsson) é uma bailarina clássica não muito jovem que, ao encontrar um antigo diário, recorda um verão que passou com Erland (Georg Funkquist), um possessivo tio que vivia com a sua cancerosa esposa (Renée Björling) numa ilha perto de Estocolmo. Lá Marie faz amizade com um inocente jovem, Henrik (Birger Malmsten), por quem ela se apaixona. Quando o verão está para terminar os jovens amantes estão muito envolvidos, mas algo trágico irá acontecer.
Em 1958, em resposta a uma retrospectiva francesa dos filmes de Ingmar Bergman, que na altura tinha 19 filmes realizados, Godard publicou um artigo nos Cahiers du Cinema, comparando efusivamente a obra do realizador sueco com a de outros como Orson Welles, Jean Renoir, Alfred Hitchock, e Roberto Rossellini. Por esta altura já Bergman tinha realizado alguns dos seus melhores filmes, mas Godard reservou os mais belos elogios para este "Sommarlek", que considerou "o mais belo dos filmes".
É interessante perceber porque é que Godard ficou tão tocado por este filme, já que não é dos mais famosos nem reconhecidos filmes do realizador, embora tenha desempenhado um papel importante na formação da sua identidade cinematográfica, apontando para a direcção que o realizador tomaria nos seguintes anos. Era um projecto muito pessoal, que derivava directamente das memórias de um caso amoroso do realizador. Bergman chegou a dizer que este filme era mesmo uma reviravolta na sua carreira, e a primeira vez que um filme realmente lhe odedecia. Talvez este espírito independente, a voz de um artista totalmente envolvido no seu espírito de criação, que Godard viu no filme.
Bergman escreveu a história com o mesmo argumentista do filme anterior, Herbert Grevenius, e é construida em torno de uma estrutura em flashbacks bastante simples, mas bastante eficaz, que constrasta a monotonia do presente com a beleza do passado, mas sem resvalar para a generalização fácil, ou a nostalgia.
Com uma intensidade dramática bastante flexível, "Sommarlek" sugere que o esplendor do primeiro amor é passageiro, e que pela sua própria natureza pode ser apenas temporário, embora a sua memória nunca se desvaneça. O filme é estruturado em torno da tragédia e da inocência perdida, e termina com uma nota edificante em que voltar ao passado pode se tornar num meio importante de se compreender o presente.

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quarta-feira, 26 de novembro de 2014

This Can't Happen Here (Sånt Händer Inte Här) 1950

 Atka Natas é um agente secreto da ditadura de Liquidatzia. Ele visita a sua ex-mulher Vera, uma química que está envolvida com um grupo de exilados, tentando levar os seus compatriotas para fora de Liquidatzia. Almkvist, um policia honesto e ex-amante de Vera, entra em contato com ela enquanto investiga a morte de um dos refugiados. Natas tem uma lista de agentes que operam no país que os recebe e quer vendê-los aos americanos. No entanto, antes que possa fazê-lo, Vera tenta matá-lo, depois de uma discussão sobre a tentativa de mandar os seus pais para fora de Liquidatzia.
"Sånt händer inte här", é de longe considerado o pior filme de Bergman. Se o nome Alan Smithee existisse nos anos 50, provavelmente tinha adquirido os créditos da realização deste filme. Assim que Bergman conseguiu alcançar alguma influência tentou renegar esta obra, e pediu para que ela não fosse mostrada novamente, o que foi cumprido pelas autoridades suecas.
Baseado no livro "Within 12 Hours" do escritor norueguês Peter Valentin (um pseudónimo de Waldemar Brøgger) que foi publicado em Estocolmo em 1944 pela Bonniers. Devido ao conflito eminente entre o Governo sueco e a indústria cinematográfica por causa do imposto sobre o entretimento, a Svensk Filmindustri fez questão de produzir um possível sucesso internacional na forma de um thriller de espionagem. Herbert Grevenius foi contratado para escrever o argumento, e Ingmar Bergman, por razões financeiras, acabou a dirigir. Acabou por se tornar numa experiência dolorosa para ambos. 
A maior parte das críticas foram negativas, mas um número considerável de críticos não sabia se deviam levar o filme a sério.  Grevenius e Bergman eram personalidades sérias no mundo do cinema, e por isso era difícil de acreditar como tinham concluido tal coisa.

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terça-feira, 25 de novembro de 2014

Rumo à Felicidade (Till Glädje) 1950



No início, anuncia-se, de maneira quase indiferente, a morte da esposa e da filha a Stig Eriksson, o marido. A sequência seguinte poderia ser a cena de encerramento, em que o maestro e amigo, interpretado pelo ator e também diretor Victor Sjöström (o mesmo ator do incrível Morangos Silvestres) consola o recém-viúvo. Porém, entre os quatro minutos iniciais e a cena final, há o miolo, apresentado na forma de uma grande elipse, que constrói o curso do relacionamento entre os dois músicos ao som da Ode à Alegria da Nona de Beethoven.
Alguns que escreveram sobre esta obra a consideraram marcadamente banal; um mero ensaio de temáticas que seriam melhor desenvolvidas por Bergman em outros filmes, como Uma lição de amor e, sobretudo, em Cenas de um casamento. Outros lembram que Bergman estava no meio de uma separação amorosa na época das filmagens (seu segundo divórcio, de vários que ainda viriam) o que explicaria muita coisa. E não deixam de ter certa razão. Se considerarmos o miolo, trata-se de um roteiro bastante banal realmente: um casal de músicos violinistas pertencentes a uma mesma orquestra, sem grandes posses, em constantes dificuldades financeiras, sem grande talento no exercício do seu ofício, sem grande carisma, um marido bastante dependente e imaturo que tem uma jovem amante, uma esposa bastante compreensiva, que busca cuidar dos filhos, que já foi casada e que já abortou, que ama Sig, um casal que passa por crises em seu relacionamento. Nada realmente de especial.
Esta digressão de aproximadamente uma hora e vinte minutos, porém, apesar de compor um arco muito bem resolvido e construído, flertando ora com o melodrama ora com a poesia, com seus excelentes momentos, é apenas o instrumento pelo qual se acessa o significado da dor de Sig, sobretudo nos minutos iniciais, e as palavras de consolo do maestro, na cena final. O convívio com o cotidiano da vida do casal acessa o conteúdo daquilo para o que inicialmente éramos indiferentes, à maneira de um mecanismo empático. O menino é a solidão de Sig, mas é também a de Bergman, uma solidão que transborda da Lanterna mágica, sua autobiografia, de seus problemas familiares, do difícil convívio com seu pai, das suas brigas com Deus – a constante constatação de que estamos sozinhos.
A mediocridade de Sig como violinista, que falha barbaramente ao tentar o cargo de solista, seria então a do jovem diretor, em um dos primeiros filmes de sua longa carreira? Quando filmar é um modo de alcançar as esquinas mais sombrias da alma, Bergman é hábil ao usar como argamassa da produção artística os seus demônios privados.
Quem lê estas anotações deve estar curioso quanto ao título, Rumo à felicidade (Till Glädje), pois seria possível se argumentar a esta altura que não se trata de uma história propriamente feliz, mas pesada e melancólica. Retome-se, porém, a ideia de que o argumento do filme reside em suas extremidades, e, se a música de fundo é, não impunemente, a Ode à alegria, a conclusão é a gratidão pela vida, aquela que não se expressa perfeitamente pela linguagem das palavras.
O papel da música, aliás, parece ser central em expressiva parte da obra do diretor sueco. Um exemplo significativo: em O sétimo selo, a Morte declama um trecho do capítulo oitavo do livro das revelações ao som da cantata Carmina Burana, de 1937 – que é a primeira parte da trilogia composta pelo alemão Carl Orff a partir do codex de poesia medieval, formada também pela Catuli Carmina, de 1943, e pela Trionfi dell’Afrodite, de 1952.
A música é também o tema de fundo de Rumo à felicidade e, a partir destas considerações, é possível se localizar precisamente o tom de gratidão, a que nos referimos, que se imprime à obra: depois de saber da morte de Marta, o maestro explica que a música é uma questão de alegria. Uma alegria que não se expressa em risos, ou a felicidade que diz “Eu sou feliz”, mas que é uma forma de felicidade tão imensa, tão particular, tão espiritual que se encontra além da dor e do desespero sem limites. Uma felicidade além de toda compreensão.
Texto de Leonardo Branco. Daqui.

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segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Sede de Paixão (Törst) 1949


Escrito por Herbert Grevenius (o mentor de Bergman), que colaborou com ele em vários outros filmes, e adaptado de várias curtas escritas pela actriz Birgit Tengroth, a estrutura da história é uma tentativa transportar as relações complicadas dos seus personagens.
Grande parta da acção apresenta-nos um casal problemático, Ruth (Eva Henning) e Bertil (Birger Malmsten), quando eles regressam a Estocolmo depois de uma viagem a Itália. A Europa que eles visitam foi devastada pela guerra, com a paisagem cicatrizada, tal como o casal tem as suas ruínas emocionais. No comboio em que viajam, discutem o casamento, brigam, atiram comida para os alemães esfomeados, e até recebem conselhos de um padre sueco. Atormentada por insónias e alcoolismo, a mente de Ruth voa para lembranças de um caso que teve com Raoul (Bengt Eklund), um homem que a manteve como amante até ela ficar grávida. Um aborto mal feito deixou-a estéril, e quase arruinou a sua carreira de bailarina.
Eva Henning é o que de melhor se pode encontrar neste filme. Ela interpreta a bailarina Ruth com uma energia maníaca, saltando de polo para outro no espaço de duas frases. Num momento ela está bem, e logo a seguir está mal, alternando entre o passado e o presente, que dá ao filme uma sensação muito noirish.     
O tema central é mais uma vez a lenta dissolução do casamento, bastante familiar para quem conhece a obra de Bergman, e que foi tão bem explorado em obras como "Scenes from a Marriage", mas também "Summer With Monika". Em termos gerais este é um Bergman em boa forma. O seu trabalho atrás da câmera é bastante inventivo, e supera alguns problemas a nível de diálogos que se encontrava em filmes anteriores, conseguindo um brilhante trabalho da sua actriz principal, assim como todo um excelente trabalho técnico.
Legendas em inglês.

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domingo, 23 de novembro de 2014

Prisão (Fängelse) 1949



No ínício do filme, um realizador (Hasse Ekman) é abordado por um ex-professor (Anders Henrikson), agora envelhecido, acabado de saír de um asilo para doentes mentais, e que lhe lança a idéia de um filme sobre o Inferno na Terra. A vida é "um caminho cruel mas sedutor entre o nascimento e a morte",  diz Henrikson, mas Ingmar Bergman, trabalhando pela primeira vez a partir de um argumento dele próprio, passa o resto do filme a tentar argumentar o contrário. Será que Deus está morto? Será que ele alguma vez existiu? Qualquer pessoa que realmente pense sobre a vida comete suicídio, afirma o escritor interpretado por Birger Malmsten, cuja visão niilista do mundo é nos mostrada através da sua relação com uma prostituta adolescente (Doris Svedlund). Os personagens principais são modelos deste primeiro período do jovem Bergman conturbado, onde o peso do mundo lhes esmaga a alma, e só o isolamento regressivo lhes oferece refúgio.
Extremamente sombrio (o título em sueco significa prisão), o filme é, obviamente, uma purgação para a tensão de jovens cineastas, neuroses, embora o desespero de Bergman aqui esteja próximo de um egoísmo mórbido e angustiante.
Mesmo com alguma familiaridade com os psicodramas obscuros de um universo sem deus que viriam a compor muitos dos filmes posteriores de Bergman, este filme seria recebido com algum choque. Os seus primeiros filmes (anteriores a este "Prisão") tinham alguns elementos mais escuros, mas em geral eram melodramas muito mais sociais, adaptados da literatura popular, com um público muito mais comercial em conta. "Prisão", foi, de facto, o primeiro filme onde Bergman teve o controlo sobre tudo, e o ambiente ficou muito mais negro. Percebendo que este não seria o tipo de filme que a Svensk Filmindustri financiaria, Bergman levou o script para a Terrafilm, para quem já tinha realizado anteriormente "Music In Darkness". Por necessidade, já que não iria ser um filme comercial, "Prisão" teve de ser feito com um orçamento muito limitado, e num espaço de tempo muito curto, e o resultado é consequentemente tenso e sombrio, muito mais perto do Bergman que conhecemos, do que qualquer outro filme realizado por si nos anos 40.

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sábado, 22 de novembro de 2014

Ingmar Bergman - Parte 2

No passado mês de Agosto iniciamos aqui uma série de ciclos dedicados a Ingmar Bergman, nos quais pretendemos visitar toda a sua carreira. Depois dos primeiros cinco filmes, nesta segunda parte vamos pegar na sua carreira de 1949 até 1951.
Aqui, os filmes de Bergman concentram-se em jovens amantes, geralmente das classes trabalhadoras. A maioria das vezes a acção passa-se nas cidades e nos seus subúrbios, com claras influências do neo-realismo, principalmente Roberto Rossellini. A recordação é um importante recurso estilístico nesta fase.
Vamos acabar este ciclo com "Sommarlek", o filme que revelaria internacionalmente Bergman, e que seria a sua primeira participação num festival internacional de cinema (neste caso, Veneza). Neste filme, através de flashbacks, ele vai abordar uma série de temas que seriam recorrentes na sua obra, como a perda da identidade artística, o fim do amor, e da lenta decadência da vida, que passam a partir daqui a ser exploradas com uma nova confiança.



Sendo assim, o alinhamento para esta semana vai ser o seguinte:

Domingo: Prisão (1949)

Segunda: A Sede (1949)

Terça: Rumo à Felicidade (1950)

Quarta: This Can't Happen Here (1950)

Quinta: Um Verão de Amor (1951)

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Pousada das Chagas (Pousada das Chagas) 1972

"Pousada das Chagas" foi uma encomenda caída do céu. A Fundação Gulbenkian tinha criado um museu de arte sacra em Óbidos e queria fazer um documentário sobre ele. Estávamos em 1970, e depois de " Mudar de Vida", em 1966, eu tinha deixado de acreditar no cinema clássico. A tarefa era urgente e não havia tempo para pensar. Enchi os bolsos com bocados de papel - citações de Rimbaud, Légende Dorée, Camões, Lao-Tse - e fui para Óbidos filmar conjuntamente com Luís Miguel Cintra e Jorge Silva Melo, pessoas de talento quase insolente. O que emergiu foi um "drama sacro" modernista, uma colagem de vozes, textos, objectos, espaços, pulsações. Corpos que ardem, que sofrem, que irradiam energia. (Paulo Rocha).
 "Pousada das Chagas" é uma encomenda mecenática da Gulbenkian, antecedendo os subsídios ao Centro Português de Cinema que relançariam o cinema português no inicio dos anos 70. Ante-estreou em 25 de Fevereiro de 1972 na Fundação Calouste Gulbenkian, em complemento ao filme " O Passado e o Presente", de Manoel de Oliveira, também em ante-estreia e, também, subsidiado pela Fundação e produzido pelo Centro de Cinema Português. Nessa noite, no Grande Auditório, com os seus 1500 lugares esgotados, teve lugar uma sessão solene com a presença do Presidente da República, Américo Thomaz, e de quase todo o governo. "Uma representação entre o documentário e a ficção sobre o Museu de Òbidos. O processo de colagem (actor-décor, textos literários-arte sacra) e a precisão gestual evidenciam a influência de outras culturas na obra de Paulo Rocha e anunciam os seus caminhos futuros. O filme é sobretudo um ascético ritual, em busca de uma secreta correspondência das artes".
João Bénard da Costa, "Cinema Novo Português: Revolta ou Revolução?", in Cinema Novo Português 1960/1974, ed. Cinemateca Portuguesa, 1985 

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sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Tony (Tony) 2009



Uma semana na vida de um serial killer solitário, com graves problemas de socialização, e um bigode totalmente fora de moda, "Tony" é uma viagem ao lado mais escuro do mundo dos serial killers. Peter Ferdinando interpreta o homónimo anti-herói, um perdedor nervoso e mal compreendido, desempregado e em estado de dependente do subsidio há 20 anos, mas propenso a actos de extrema violência contra qualquer pessoa que o incomode.
Quando dizemos que um filme vai "dividir" as audiências, normalmente quer dizer que metade vai gostar, e a outra metade não. Isso não acontece com "Tony", que pode ser visto como uma versão de "Henry: Portrait of a Serial Killer" filmada por Mike Leigh. Se um filme tão divisior pode ser visto como fiel à sua própria visão, merecendo elogios por essa mesma divisão, então esse filme tem de ser "Tony".
Com apenas 70 minutos, "Tony" não tem muito para mostrar, para além da vida do protagonista. É um homem estranho, com cabelo em forma de tijela e um olhar à Roddy McDowell. O seu pequeno apartamento é o mais deprimente que se possa imaginar. Duas cadeiras, um sofá, e uma pequena televisão onde ele vê filmes de acção. Tony passa os dias a vaguear pelas ruas com o seu casaco preto, ou a observar holligans no pub. E já lá vão 20 anos a viver à custa do estado. "How'd you like a job scrubbing toilets? Meeting people?", pergunta-lhe o oficial de emprego. É difícil compreender até onde vai o limite de Tony, mas ele ocasionalmente mata as pessoas com um martelo, e desmembra-as na banheira.
Tony vai passando de situação para situação. As suas atitudes violentas não são explicadas, não há passado ou insinuações de uma infância infeliz, ele é simplesmente insano o suficiente para se convencer que é uma pessoa diferente, e tudo funciona perfeitamente. Durante todo o filme uma bela melodia de piano toca durante as cenas de exteriores, com Tony a vaguear pelas ruas a observar a sujidade que o rodeia. Estas sequências parecem-se como um pesadelo adaptado para a tela por Gerard Johnson, assim como as cenas em que Tony meticulosamente separa os membros dos torsos, para envia-los no interior de sacos de plástico azuis, para o rio Tamisa. Mas para uma viagem tão brutal e desagradável ao mundo do "voyeurismo" e da perversidade, "Tony" também tem um sentido de humor e um coração a bater, que o ajudam a levantar-se mais alto do que outros filmes recentes do género.
Por Portugal passou apenas no Motelx de 2010.

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quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Memórias de um Assassino (Salinui Chueok) 2003



Coreia do Sul em 1986, sob o jugo da ditadura militar: dois polícias rurais e um detective especial da capital investigam uma série de assassínios e violações brutais. Os seus métodos crus tornam-se mais desesperados à medida que os corpos vão sendo encontrados.
Em 1986 a Republica da Coreia viu-se a braços com o seu primeiro serial killer conhecido. Durante a narração da abertura ficamos a saber que o país estava a viver uma ditadura militar, e nas próximas duas horas é nos dado uma lição de como um governo forte e autoritário pode não conseguir deter um único criminoso. Revelar a natureza do governo do país é uma escolha estranha para principal informação a ser dada ao público, quando à maioria dos Coreanos não era preciso ser dito. Para as gerações que não se lembravam pode ser considerado um lembrete, mas também serve para focar a atenção do espectador sobre como isso afetará os elementos processuais deste filme. A principal lei do governo era o autoritarismo e a intimidação, e ao mesmo tempo gerar um clima de medo para persuadir eventuais criminosos a cometerem um crime.
O argumentista/realizador Bong Joon-ho é muito forte em ambos lados da história - a investigação policial tem bastante suspense, apesar do resultado da investigação já ser do conhecimento do público, enquanto as histórias das personagens são muito bem desenhadas, com convincentes alterações da confiança ao desespero. Não é à toa que o filme foi um sucesso na sua terra Natal (um dos maiores êxitos do ano), levando o público a pedir que o filme fosse novamente lançado nas salas. Como drama policial é uma notável peça de trabalho, contando uma boa história e construindo personagens interessantes, criando um sentido de tempo e lugar.
São notáveis as influências de outros filmes americanos de serial killers, como "Seven" ou "O Silêncio dos Inocentes", embora o filme tenha uma identidade muito própria. Correu o mundo, sendo exibido em festivais como Cannes, San Sebastian, Londres e Tóquio,tendo conseguido alguns prémios de relevo. Nunca estreou nos cinemas em Portugal.

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quarta-feira, 12 de novembro de 2014

O Elemento do Crime (Forbrydelsens Element) 1984



O inspector Fisher chega ao Cairo depois de ter conduzido um inquérito sobre um homicídio no continente europeu mas não se recorda do que aconteceu e procura ajuda de uma terapeuta. Sob hipnose, viaja através da memória e da sua dor... pela Europa. E é arrastado para um caso de homicídios invulgares.
Primeira longa metragem de Lars Von Trier, é um thriller de terror futurista, passado num futuro pós-apocalíptico indeterminado, do norte da Europa (apesar de ser falado em inglês). Nascido em Copenhaga, Dinamarca, 1956, Lars Trier era uma criança actor, filho de pais comunistas, antes de entrar em escolas de cinema e workshops, onde aprendeu o ofício de realizador, e acrescentou "Von" ao seu nome. Na Escandinávia, a indústria estava em declínio, e Von Trier iniciava uma trilogia sobre a desintegração da Europa, numa era pós moderna. Começou com este filme intitulado Forbrydelsens Element (The Element of Crime).
Enquanto "Forbrydelsens Element" não tem o tom imperfeito dos seus filmes posteriores, tem uma excelente fotografia noir, com elegantes tons que fazem a sua visão ser sombria, e pós-moderna. A sua única falha, além da sua falta de originalidade comparada com os film noirs anteriores, é que o filme move-se um pouco lentamente, devido ao seu diálogo estilizado. Ainda assim, consegue criar um novo ambiente para os films noir, muito mais europeu, com excelentes movimentos de câmara lenta, e câmara ao ombro.
O argumento é muito estranho, a partir de uma perspectiva europeia pós-moderna, onde tudo começa a desmoronar. Mesmo os twists do filme e as surpresas tornam-se mais chocantes, por causa do comportamento dos seus personagens. Embora o argumento seja da autoria do realizador e dos seus colaboradores, que incluem Mogens Rukov (especialista do movimento Dogma 95), é a realização de von Trier que de facto nos fascina. Especialmente na forma como ele vê as coisas, que incluem violência, moral, rituais, e sexo, onde há uma cena de sexo oral que não chegamos a ver na totalidade.

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terça-feira, 11 de novembro de 2014

A Caça (Cruising) 1980



Steve Burns é um jovem detective que acaba de receber ordens do Capitão Edelson para resolver o caso de uma série de assassinatos brutais que estão a aterrorizar a comunidade gay de Nova Iorque. Com o seu aspecto, moreno de olhos e cabelos escuros, Steve encaixa no perfil das vítimas, mas terá de aprender e praticar as complexas regras desta subcultura para conseguir atrair o assassino...
Já passaram mais de 30 anos desde que este filme fracassou nas salas de cinema, quando estreou, mas desde então a crítica ao filme deu uma reviravolta de 180 graus. Em 1980 a imprensa homossexual criticou o filme violentamente por apresentar um retrato negativo da vida gay. No entanto, nos anos mais recentes, o filme tem sido visto como uma visão pro-gay, tendo sido injustamente criticado e estigmatizado na data da sua estreia, apesar das boas intenções estarem presentes. Porque nada mudou sobre o filme nos últimos 30 anos este foi reavaliado, por causa das mudanças culturais no seu país.
Hoje, os principais pontos de vista culturais são totalmente diferentes da década de oitenta, quando Ronald Reagan entrava pela primeira vez na Casa Branca e a sida ainda era uma doença desconhecida por esse mundo fora. Alguns dizem que eram tempos melhores, outros dizem que era uma época repressiva, conservadora, que suprimia os grupos minoritários e reprimia a expressão humana.
Como filme "Cruising" é notável, mergulhando no homo eroticismo que quase nunca é visto nos filmes de hoje. William Friedkin gozava do sucesso de "The French Connection" e "O Exorcista", e tinha uma estrela maior no elenco, Al Pacino. Mesmo assim, a sexualidade não filtrada transpira por todos os poros, recusando-se a refinar ou coíbir os detalhes da vida gay dos anos 70. Foi chocante na altura, e é chocante agora, não no sentido ultrajante, mas pela sua franqueza documentarista.

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segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Noivos Sangrentos (Badlands) 1973



Estados Unidos, 1959. Kit é um criminoso em fuga, procurado pelas mortes de várias pessoas. Acompanhado pela sua nova namorada Holly, que presenciou os crimes, perde-se num mundo de fantasia em que a violência e o crime são as únicas constantes. Os dois habitam um universo só seu, mas o rasto de balas e sangue que vão deixando enquanto fogem da lei, pelas paisagens desoladas do Dakota e Montana, é muito real.
A estreia de Terence Malick como realizador foi um sucesso estrondoso, tendo criado um conto popular seminal e inovador sobre jovens sem rumo. Passado no final da década de cinquenta, numa pequena cidade da Dakota do Sul, este road movie inovador tornou-se num clássico filme de culto, misturando assassinatos, banalidades, cultura pop, amor e romance, alienação, tudo misturado apanhando a vaga de rebeldia deixada por James Dean. É uma leve dramatização da matança levada a cabo por Starkweather e Fugate no final dos anos 50. Kit Carruthers (Martin Sheen) é um jovem colector de lixo com uma semelhança extraordinária com James Dean, que se vai apaixonar por uma jovem de 15 anos chamada Holly Sargis (Sissy Spacek).
Terrence Malick não romantiza ou julga os fugitivos, apenas conta a sua história tal como ela é, apenas deixa o espectador juntar os pedaços da história em falta. Isto funciona tão bem que poderia ser creditado ás fantásticas prestações de Sheen e Spacek. A beleza do filme é que revela apenas uma história simples que se esconde por detrás de um complexo conjunto de motivações das personagens. Embora essas motivações não estejam explícitas na história, deixam o espectador a pensar sobre a razão para toda aquela violência. Os dois desajustados encontram alegria em tornar celebridades nacionais e parecem muito distantes da realidade, e na sua simplicidade e falta de motivação parecem simpáticos, apesar da violência dos seus actos. O que tem significado para Kit é que o seu novo estatuto na sociedade eleva-o a uma espécie de herói popular, alguém que nunca pensou sobre a vida e a morte. Kit é um produto dos tempos materialistas, onde a televisão e os filmes coloram as suas acções. Estas, embora nunca sejam explicadas, dizem muito mais de que se tivesse sido tentado explicado. Malick apanhou algo sobre os subúrbios da América e a sua juventude desajustada, que é perturbador mas muito real.

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